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Jogo da vida

 

Por Luana Takahashi

 

Ilustração: Julia Moreira | Diagramação: Ingrid Gonzaga

Na infância, felicidade era ir ao clube aos domingos, andar a cavalo e viajar em família. Não tinha qualquer noção de finitude. Quando adolescente, passei a me sentir infinito, cheio de possibilidades, e ao mesmo tempo tinha muito medo da vida. Era feliz ao fazer coisas pela primeira vez: o primeiro encontro, o primeiro beijo, o primeiro emprego. 

Aos 20 anos, tudo mudou: só sabia sentir infelicidade. Achava que não tinha feito nada e olhava apenas para meu próprio umbigo. Era “porra louca’’, bebia muito e usava drogas. Fazia tudo isso porque tinha um buraco imenso no peito, com medos e angústias. Eu nem procurava a felicidade, só estava lutando para tentar me encontrar no vazio. 

Com 27, conheci a minha esposa. Foi um grato encontro e uma bela surpresa em meio ao caos. Nosso relacionamento foi um marco, diferente de tudo que tinha vivido. Tive vontade de construir coisas ao lado dela, ter um lar, com filhos, cachorros e gatos. 

A partir dos 30, fiquei mais consciente, “vivido’’. Dos 30 aos 40 anos, tive os meus dois filhos e a paternidade foi uma explosão de felicidade na minha vida. Eu nunca fui um pai muito sábio, aprendi a maioria das coisas com os meninos, sempre buscando melhorar por eles. Perto dos 50, dei outra grande virada: parei de beber e tomei controle novamente da minha vida.

Hoje, com 63 anos, a felicidade é uma filosofia de vida. Fico feliz quando tiro uma fotografia, encontro uma meia perdida e tenho uma boa conversa. Gosto de sentir a brisa, tomar sol, observar uma árvore. Aprecio como ela se mexe com o vento e amanhã ela vai estar lá, depois de novo e de novo.

 Aprendo isso com a minha mãe de 86 anos. Ela canta nos corredores do hospital mesmo com câncer nos pulmões e sabendo que não há cura. Nós brincamos com a morte o tempo todo, até planejamos uma festa com as tias que já se foram. A finitude da vida me faz manter a alegria à vista. Então, a felicidade é aproveitar o dia de hoje, e mesmo viver com simplicidade dá trabalho.

Cartas de dicas/especiais/de especialista – Ravena Olinda, professora de filosofia da FFLCH

A felicidade não é encontrada, ela é construída. É singular, particular e intransferível, embora possa ser compartilhada. 

A felicidade tem mais a ver com se conhecer, entender as próprias emoções, ver como sua existência faz diferença e criar um sentido para que você esteja e queira estar aqui.

A felicidade, na perspectiva de Baruch de Espinosa, é um conhecimento, um reconhecimento de si como parte finita de um todo infinito.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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