
Ilustração: Julia Moreira | Diagramação: Julia Estanislau
A mudança climática global preocupa oito em cada dez brasileiros, segundo pesquisa realizada pela Fundação Grupo Boticário. Esse cenário fez com que 48% da população se dissesse incerta sobre ter filhos, de acordo com relatório do The Lancet Planetary Health de 2021.
Beatriz Patricio, de 27 anos, se vê representada nessas estatísticas. “A primeira vez que eu fiquei realmente impactada foi quando eu tinha entre 11 e 12 anos e minha professora de Ciências mostrou pesquisas sobre o aquecimento global.”
Diante desse futuro roubado pela crise climática, 64% dos brasileiros sentem medo de chuvas intensas e temporais, segundo a pesquisa do Boticário. Ventanias, alagamentos, ondas de calor e deslizamentos de terra também são fortemente temidos pela população.
Mesmo diante de cenários inseguros, Fernanda Bonani, de 40 anos, congelou seus óvulos e hoje tem ao seu alcance as contrastantes opções de gestar ou não. “Eu pensei que a gente muda muito de cabeça, então decidi fazer”, conta. Para os que preferem deixar essa decisão para depois, o congelamento de óvulos é uma opção atraente, mas pouco acessível. Os preços variam entre 15 e 30 mil reais, e apenas pacientes oncológicos podem realizar o procedimento gratuitamente pelo SUS.
Essa realidade preocupa as novas gerações, como é o caso da Y, que vai de 1982 e 1994 e aparece em pesquisas como um grupo que investe mais em realizações pessoais, e da Z, com nascidos entre 1997 e 2012, que prioriza saúde mental e estabilidade profissional. “Quando penso no meu futuro, não cabe deixar minha carreira e vida social de lado”, diz Dennys Queiroz, de 25 anos.
De acordo com a psicanalista Paula Chiaretti, a geração Z é uma das primeiras a optar de forma consciente sobre ter ou não filhos, e os dados nacionais dialogam com essa mudança de pensamento. Índices de natalidade têm sofrido queda em todas as regiões do Brasil desde 2021, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o número de nascidos em 2022 teve uma queda de 3,5% em comparação a 2021.
Com ou sem a convicção de que o futuro está em crise, Paula acredita que a liberdade de escolha é uma importante saída. “Temos que pensar mais nas condições que estamos criando para que as pessoas tenham autonomia de escolher ter ou não filhos.”