— Aô, sangue! Ele tá pensando que nóis é otário, mais nóis tem sangue nos zóio!
— Ooooooxi! Fala direito, que eu não pus filho no mundo pra falar desse jeito! Eu arranco o sangue do teu couro, moleque!
— Calma, mamita, cê tá com o sangue quente. Fica de boa, só tô trocando umas ideia firme com um broder no celular.
— Adilson, eu não dei o sangue no trabalho o dia todo pra chegar em casa e ouvir filho meu falando assim!
— Ah, mamita, não me chama de Adilson. É Didinho. Desculpa aê. Eu sou firmeza, a senhora tá ligada. Só tiro nota azul na escola. Tá no sangue! Nessa família só tem gente inteligente. Menos a Josi, né?
— Eu ouvi, seu moleque!
“Pum, pa, pa, pum!”
— Ai, ai, ai! É tiro, mainha? A gente vai morrer?!
— Para de ser louca, Josiele! É só o Datena na televisão.
“Exclusivo: eu quero imagens! Marido abusador, sangue ruim, é morto a sangue frio por traficante. Esse aí sangrou até o fim. Batia na mulher, mas agora vai bater só se for no capeta.”
— Ai, mainha, que horror! Tira desse Datena! Ninguém merece essa sanguinolência!
— Eu não tenho sangue de barata, Jô. Agora esse cabra não vai mais tirar sangue da pobre da mulher.
— Credo, mãe! Tira daí! Tô com o sangue gelado, geladinho só de escutar…
— E eu tô com o sangue é fervendo de raiva de tu, Josiele! Vem aqui me explicar esse boletim mais vermelho que sangue! Ou eu vou fazer esse sangue sumir da tua cara rapidinho!
— Ah, mãezinha, matemática não é meu forte, e, tipo assim, a profe é do mal, né? Ela só quer o nosso sangue, isso sim!
— Josiele, para com essa cabeça avoada. Parece que tu não conhece a mãe que tem! Eu tenho sangue na veia!
— Pô, mãe, cê sabe que lá na escola só tem encostado e sanguessuga. Um bando de ordinário. Ninguém me ajuda e eu não consigo aprender a matéria!
— Filha, tu não tem sangue azul nem nasceu em berço de ouro. Trata de estudar! Ou você quer suar sangue todo dia, que nem sua mãe? Eu não quero ver vocês sofrendo na vida que nem eu!
— Fala se essa mamita não é zica? Mamita sangue bom, firmeza memo!
— Ai, valha-me Deus padre, me põe no chão, moleque da moléstia. Cê tá maior que a mãe! E Josi, filha. Aprender não é sangria desatada. Tenha calma, menina de Deus! Tem que estudar!
“Pum, pa, pa, pum!”
— Ai, ai, ai, mainha do céu, agora sim é tiro! A gente vai morrer!
— Para de ser doida, Josiele! É só o Datena de novo.
“Põe na tela pra mim essa poça de sangue! É sangue mesmo? É sangue Brasil, um banho de sangue!”
— Aumenta esse volume, meu filho! Vão mostrar sangue!
— Ô, mainha do céu, crê em Deus Pai! Tô tremendo mais que vara verde! O sangue de Jesus tem poder!
Expressões usadas:
“sangue” = parceiro, amigo
sangue nos zóio = pessoa obstinada
arrancar o sangue do couro = espancar
sangue quente = ser facilmente irritável, agressivo e impetuoso
dar o sangue = esforçar-se
estar no sangue = família, linhagem, parentesco
sangue ruim = pessoa malvista
sangue frio = ausência de compaixão
sanguinolência = excesso de violência
não ter sangue de barata = não ser apático, fraco
tirar sangue = bater
sangue gelado = pavor, medo
sangue fervendo = fúria, raiva
ter sangue nas veias = ser propenso a reação exaltada
querer o sangue = exigir em demasia com intenção de prejudicar o outro
sanguessuga = aproveitador
sangue azul = aristocracia, elite
suar sangue = esforçar-se muitíssimo; trabalhar arduamente, até a exaustão
sangue bom = pessoa confiável, admirável
sangria desatada = agir com urgência, imediatismo, de forma descuidada
sangue congelar = tomar susto
banho de sangue = chacina
“O sangue de Jesus tem poder” = no cristianismo, o sangue derramado por Jesus para salvar a humanidade
Confira também os integrantes desta edição do Claro! participando de uma competição de mímica. Será que a autora do texto se sairá melhor que seus colegas?