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Por você, perdi a mim

 

Por Sophia Vieira e Yasmin Brussulo

 

Arte: Giovanna Castro

A família é o primeiro local de pertencimento na vida. O psicólogo Bruno Zaidan aponta que, quando esse espaço se torna violento, o sujeito pode ficar com a ideia de que está sozinho e não existe lugar para ele no mundo.

Em um contexto sociocultural em que a sacralidade da família é constantemente afirmada, é difícil entender quais são os caminhos possíveis para essas relações. Isabella Diniz cuidou da avó, diagnosticada narcisista, até o último dia. Os parentes se afastaram, e ela também quis ir embora, mas não queria “ser uma neta ruim”. 

A dinâmica de um relacionamento violento costuma ter altos e baixos, momentos de agressão seguidos por outros de carinho e apreço. A violência não é constante, afinal, se fosse, o rompimento seria mais fácil. “Ela me levava até o limite e, depois, passava um tempo sendo boa comigo”, relata Isabella.  

A dualidade deixou consequências. Para ela, é difícil reconhecer quando se deve largar relações. Isabella relata ter amigos que a fazem mal num momento, bem em outro, como era com a avó. Mesmo buscando novas relações, a autoconfiança perdida ainda a leva para armadilhas. “Eu me perdi, e é difícil me reconhecer fora da imagem que ela pintou sobre mim. Ainda não conheço meus limites”. 

Essas relações, segundo o psicólogo, produzem um impacto subjetivo profundo: muita gente só começa a compreender que caminho trilhar depois que tem acesso a outros espaços ou vai morar sozinho. “Às vezes, leva anos para entender que aquilo que viveu na família foi uma violência, que produziu uma forma de ser com a qual a pessoa não está necessariamente feliz, que traz sofrimento, isolamento e solidão”.

Crenças e preconceitos entram na equação e podem representar obstáculos para que o indivíduo se encontre em quem é ou quer ser. É o caso de Azri Pessoa. Ao se assumir trans, os parentes insistiram em negar sua identidade. Ele se afastou como possível, e precisou adiar a transição hormonal por depender da mãe para se manter. Em sua trajetória, Azri também passou por amizades e relações perigosas, tal como Isabella, mas hoje criou uma nova rede de afetos, que o ajudam a trilhar seus novos rumos. Hoje, mais independente e com limites bem estabelecidos quanto à família, está em busca de quem sempre foi.

Bruno finaliza apontando possíveis caminhos: “a identidade não é fixa, ela se transforma a partir das nossas relações sociais”. Para ele, a possibilidade de se reencontrar passa pela conexão com o outro. Novos amigos, afetos e a construção de uma rede de apoio permitem ressignificar inclusive a violência sofrida. Mesmo no silêncio, o laço continua: não como prisão, mas como lembrança do que se foi e do que ainda é possível ser.

Contribuição: Bernardo Suto, químico

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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