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Por aí

 

Por Gabriela Cecchin

 

Arte: Giovanna Castro

Às vezes dá vontade de largar tudo e sumir. Esta sensação é comum e foi o que passou pela cabeça de Lívia Sousa* quando arrumava a bagunça do filho de seis anos, arteiro e curioso, na casa da avó. Por dificuldades financeiras, ela é voluntária há três meses em um hostel na Vila Madalena, na capital paulista, em troca de abrigo e R$ 30 por semana para alimentação. A convivência com viajantes fez crescer o desejo de sair por aí.

“Acho que eu começaria pela Europa”, dizia ela à hóspede francesa Lilune Bocher, estilista contratada pela renomada marca de grife Chanel — mas em uma área administrativa. “Moda é expressão da personalidade, e aquela não era a minha.” Largou o emprego e partiu para um mochilão pela América Latina. “O Brasil foi meu primeiro destino e estou adorando, ótimo para minha criatividade”. Segundo a Revista Turismo em Análise (2022), mais da metade dos mochileiros que viajam pelo Brasil são mulheres entre 24 e 35 anos.

Apenas 3% começam antes dos 23, mas Eliezer Tymniak, do canal do YouTube Via Infinda, contrariou os dados e começou aos 18, pois achava Brasília fechada demais. “Já tinha tudo comprado antes de contar pra família”. Ficou conhecido por desafios radicais, como ir à Argentina com R$ 4 ou comer restos de McDonald’s em Paris. “É uma lista gigante de coisas que aprendi. O mundo é bem maior do que parece”, diz.

Os imprevistos são parte do caminho. Renan Greinert e Michele Martins, do canal do YouTube Mundo Sem Fim, viajam há dez anos e relatam que na última jornada, ao Líbano, foram revistados por soldados do Hezbollah. 

“Ficamos menos medrosos, porém mais cautelosos. Aprendemos a diferenciar o perigo real do simples desconhecimento e perdemos muitos preconceitos”, diz Renan.

A socióloga Samira Petry, que estuda a vida itinerante, afirma que cortar raízes geográficas faz perder as grandes certezas do cotidiano. “Na estrada, nada tem muito controle. Na mochila, não cabe tudo; é preciso abrir mão de objetos queridos. Isso muda a forma de se relacionar com a vida.”

Alguns desafios são silenciosos. No inverno europeu, cercado por casais, Eliezer percebeu-se sozinho após dois anos de estrada. Lilune tentou evitar o mesmo e levou uma amiga a Paraty (RJ), mas fez tantos amigos que mal precisou da companhia. Michele, mesmo com Renan por perto, nota que conversar é mais difícil com europeus. “Se você está começando, a América Latina é o melhor lugar pra viajar.”

Mas dá pra ir sozinho e encontrar alguém por aí. Jonas Duarte* pegou um ônibus para o litoral paulista com a roupa do corpo. Lá conheceu uma mulher com história parecida, casou-se e vive de esculturas de arame na orla de Ilhabela (SP). Hoje, sonham em ter um filho arteiro e curioso — como o de Lívia — para bagunçar a areia da praia. Mantinha contato com a família até deixar o celular cair no oceano, o que relata com um sorriso: “Melhor assim.”

*nomes fictícios

Tijolo por tijolo

 

Por Catarina Silva Ferreira

 

 

Maria Diva Ferreira tem 51 anos e chegou à capital paulista em sua adolescência. Vinda do interior da Paraíba, com o pai e os irmãos, a dona de casa passou por diversos bairros da capital até se estabelecer no Jardim Soberano, bairro do município de Guarulhos. Maria Diva e seu marido Roque Santana do Vale, com quem é casada há 28 anos, protagonizaram a construção da casa em que hoje moram com os dois filhos, Maria Juliana, de 27 anos e Renato, de 25.

 

“Não foi nada fácil construir nossa primeira casa, eu e meu marido fizemos praticamente tudo. Compramos o terreno em 2004, e na época não entendíamos nada de construção. Antes de comprar o lote nós moramos em diversas casas. Passamos por Santo Amaro, Campo Limpo, Cidade Jardim, e por último a Lapa. Não pagamos aluguel durante um tempo, porque éramos caseiros em uma residência cedida pela empresa em que trabalhávamos, eu na limpeza e ele na portaria. Era uma fábrica de fitas para vídeo K7, quando a empresa faliu precisamos voltar para o aluguel.

 

Nossa rua ainda era barro quando chegamos, cheia de mato em volta. Como não podíamos pagar uma máquina para deixar o terreno plano, eu e meu esposo tiramos a terra aos poucos, durante a noite. Mas, mesmo com as noites sem dormir, o mais difícil foi cavar a fundação. Nós não sabíamos o tamanho que deveria ter, refizemos o serviço muitas vezes. Quando as pessoas viam que não estava bom zombavam de nós.

 

Depois disso, o próximo passo foi colocar as colunas de ferro, as vigas e assentar os blocos. Nós passávamos os finais de semana construindo, por conta do trabalho. Durante a semana eu saía para comprar areia, pedra, ferro, cimento, o que precisasse. E por isso, tive que aprender muita coisa, os materiais chegavam e não podiam ficar na rua até o sábado, então eu começava sozinha.

 

Nos mudamos no final do ano, então pudemos passar a virada de 2007 para 2008 livres do aluguel. Hoje temos duas casas neste mesmo terreno. A primeira ficou abaixo do nível da rua, mas isso porque na época da construção não sabíamos qual a altura em que o asfalto seria colocado. Para driblar o desnível, fizemos uma escada até a rua.

 

A segunda casa, fizemos na parte de cima da primeira, mais ou menos como um sobrado. Mas dessa vez a construção foi bem mais rápida, demorou um ano e meio. Hoje, moro na parte de cima com meu marido e meu filho, viemos pra cá depois do casamento da minha filha em abril deste ano, agora é ela quem mora lá embaixo com o esposo. Apesar das dificuldades, conseguimos abrigar a família toda aqui, as duas casas têm sala, cozinha, um banheiro e dois quartos”.

 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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