
Arte: Giovanna Castro
Às vezes dá vontade de largar tudo e sumir. Esta sensação é comum e foi o que passou pela cabeça de Lívia Sousa* quando arrumava a bagunça do filho de seis anos, arteiro e curioso, na casa da avó. Por dificuldades financeiras, ela é voluntária há três meses em um hostel na Vila Madalena, na capital paulista, em troca de abrigo e R$ 30 por semana para alimentação. A convivência com viajantes fez crescer o desejo de sair por aí.
“Acho que eu começaria pela Europa”, dizia ela à hóspede francesa Lilune Bocher, estilista contratada pela renomada marca de grife Chanel — mas em uma área administrativa. “Moda é expressão da personalidade, e aquela não era a minha.” Largou o emprego e partiu para um mochilão pela América Latina. “O Brasil foi meu primeiro destino e estou adorando, ótimo para minha criatividade”. Segundo a Revista Turismo em Análise (2022), mais da metade dos mochileiros que viajam pelo Brasil são mulheres entre 24 e 35 anos.
Apenas 3% começam antes dos 23, mas Eliezer Tymniak, do canal do YouTube Via Infinda, contrariou os dados e começou aos 18, pois achava Brasília fechada demais. “Já tinha tudo comprado antes de contar pra família”. Ficou conhecido por desafios radicais, como ir à Argentina com R$ 4 ou comer restos de McDonald’s em Paris. “É uma lista gigante de coisas que aprendi. O mundo é bem maior do que parece”, diz.
Os imprevistos são parte do caminho. Renan Greinert e Michele Martins, do canal do YouTube Mundo Sem Fim, viajam há dez anos e relatam que na última jornada, ao Líbano, foram revistados por soldados do Hezbollah.
“Ficamos menos medrosos, porém mais cautelosos. Aprendemos a diferenciar o perigo real do simples desconhecimento e perdemos muitos preconceitos”, diz Renan.
A socióloga Samira Petry, que estuda a vida itinerante, afirma que cortar raízes geográficas faz perder as grandes certezas do cotidiano. “Na estrada, nada tem muito controle. Na mochila, não cabe tudo; é preciso abrir mão de objetos queridos. Isso muda a forma de se relacionar com a vida.”
Alguns desafios são silenciosos. No inverno europeu, cercado por casais, Eliezer percebeu-se sozinho após dois anos de estrada. Lilune tentou evitar o mesmo e levou uma amiga a Paraty (RJ), mas fez tantos amigos que mal precisou da companhia. Michele, mesmo com Renan por perto, nota que conversar é mais difícil com europeus. “Se você está começando, a América Latina é o melhor lugar pra viajar.”
Mas dá pra ir sozinho e encontrar alguém por aí. Jonas Duarte* pegou um ônibus para o litoral paulista com a roupa do corpo. Lá conheceu uma mulher com história parecida, casou-se e vive de esculturas de arame na orla de Ilhabela (SP). Hoje, sonham em ter um filho arteiro e curioso — como o de Lívia — para bagunçar a areia da praia. Mantinha contato com a família até deixar o celular cair no oceano, o que relata com um sorriso: “Melhor assim.”
*nomes fictícios