
o ser humano vive em constante ameaça diante de diversas invasões imperceptíveis aos cinco sentidos. desde a comida que ingerimos até o ar que respiramos, são muitas portas de entrada para invasores (e sim, são muitos!) que acometem o nosso corpo aos poucos.
símbolo da artificialidade contemporânea, o microplástico já integra a lista de agentes estranhos no organismo humano. encontrados em artérias, no cérebro, placentas, cordões umbilicais, fígados, rins, pulmões, testículos e no sangue — essas pequenas partículas entram no corpo pela alimentação, respiração e até pela pele, provocando inflamações e mudanças celulares. eles também podem causar alterações hormonais, além de efeitos tóxicos sobre o sistema nervoso e imunológico. os fragmentos carregam aditivos com potencial de intoxicação, mas seus efeitos no organismo ainda são incertos.
apesar de não existirem tratamentos específicos para retirar os microplásticos do corpo, a ciência está buscando alternativas. “alguns grupos têm estudado o uso de fibras alimentares e antioxidantes (como os presentes em frutas, vegetais e chás) para reduzir a absorção e atenuar os efeitos inflamatórios dessas partículas. No entanto, são medidas indiretas. a ciência nesta área é ainda muito limitada. dada a complexidade e o tamanho microscópico dessas partículas, a melhor estratégia ainda é a prevenção da exposição”, diz Eliseth Leão, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein.
segundo ela, algumas formas de reduzir a exposição é evitar aquecer alimentos em embalagens plásticas ou consumir bebidas em copos plásticos descartáveis. prefira roupas de fibras naturais, reduza o consumo de cosméticos com microesferas (como esfoliantes) e beba água filtrada em recipientes de vidro ou aço inoxidável.
outro velho conhecido tem sua presença confirmada inclusive no leite materno: os agrotóxicos. além do risco de transmissão vertical — de mãe para filho durante a gravidez — as mulheres se tornam suscetíveis a abortos, bebês com malformações congênitas e puberdade precoce. em 2021, o Brasil consumiu cerca de 720.870 toneladas de defensivos agrícolas — entre os 10 mais vendidos, quatro são proibidos na União Europeia.
a alimentação também serve de acesso direto para as substâncias tóxicas no corpo humano, com destaque aos ultraprocessados. Fora a pulverização aérea, que pode alcançar até 32 km de distância da área em que foi feita. com 70 mil intoxicações agudas ou crônicas causadas por agrotóxicos, estima-se que o SUS gasta R$45 mil anualmente para tratamentos contra intoxicações.
também espalhados no ar estão gases poluentes, inimigos do corpo humano e do planeta por alimentarem o efeito estufa, e por consequência o aquecimento global. de 1950 a 1989, houve um salto de 4 para 22 bilhões de toneladas de CO2 (o principal gás do efeito estufa) liberadas na atmosfera, e 37 em 2021. entre os agravantes das estatísticas, as queimadas de florestas e queima de combustíveis fósseis geram partículas suspensas no ar que inflamam as vias aéreas e afetam o sistema cardiovascular. existem medidas para remediar o problema, como evitar locais e horários mais poluídos ao ar livre e optar por produtos orgânicos.
o poder público também deve agir como o novo programa de redução de agrotóxicos instituído no Brasil, em junho, mas o descompasso entre poderes torna a tarefa mais árdua: as duas últimas COPs foram sediadas em países financiados pelo mercado petrolífero, altamente poluentes e sem decisões otimistas. no final do dia, quem paga o preço são aqueles invadidos por substâncias imperceptíveis e danosas à saúde. prevenir a catástrofe também é proteger a si mesmo, resta ao indivíduo, no papel de cidadão, tomar decisões mais conscientes quanto ao seu maior bem: o seu corpo.
contribuição: André Nathan, Eliseth Leão