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530 dias de injustiça

 

Por Guilherme Valle e Jean Silva

 

Arte: Yasmin Andrade

No Brasil, 384.586 pessoas estão presas em regime fechado. 66% são negras. 200.426 estão presas provisoriamente, apesar do déficit de vagas nos presídios ser de 202.296. Os dados são do último levantamento do Sistema de Informações Penitenciárias.

530 dias foi o tempo que Jonathan Santana Macedo ficou nessa superlotação. Na manhã fria em que a polícia entrou em sua casa, teria sido levado de cueca e camiseta, não fosse sua esposa.

Também teria sido surpreendente se Jonathan não soubesse que sua foto circulava em grupos de policiais que o acusavam de ser responsável por 18 roubos. Foi denunciado por três. Viraram zero.

O único indício de autoria era a suposta existência de imagens dos objetos roubados em seu celular — não encontradas quando o aparelho foi submetido à perícia.

Nos primeiros 17 dias de cárcere mais de 20 pessoas foram levadas para reconhecê-lo. “Eu ouvia os policiais mandando as vítimas me acusarem”, conta.

Nos próximos 513 dias, Jonathan esperou o desfecho do caso, preso. Nesse meio tempo, perdeu o nascimento do seu filho. Nos primeiros dias de vida, a criança apresentou problemas de insuficiência respiratória. A única forma que Jonathan tinha para falar com a mãe era um email.

Segundo Débora Nachmanowicz de Lima, advogada de Jonathan: “Alegam a garantia da ordem pública. Razões muito abstratas. Não é que a pessoa tentou fugir ou que era uma criminosa em série”.

Em uma série de audiências de custódia, Carin Carrer, pesquisadora do sistema prisional brasileiro, presenciou vários casos de pessoas presas sob a alegação de garantia da ordem pública. “São pessoas em situação de vulnerabilidade sendo geridas pelo Estado via sistema penal”, ela comenta.

Jonathan teve sorte de ser alocado a 20km de casa. Carin conta que essa não é a regra, os novos presídios de São Paulo avançam para o interior, o que dificulta o acesso à defesa e a seus familiares. 

A geógrafa explica: “Os números de prisões provisórias flutuam de 30 a 60% nos últimos anos. A maior parte dos presídios são para esses casos. Isso mostra uma ilegalidade. A prisão deveria ser na última instância”.

No mapeamento que fez em sua pesquisa, os estabelecimentos destinados ao regime fechado superam os dedicados ao regime aberto e semiaberto, mais propensos à ressocialização da população carcerária — objetivo do sistema penal.

Depois de provada sua inocência, Jonathan ganhou o pedido de indenização pelo erro judicial. A sentença previa R$ 350 mil, mas a Fazenda Pública recorreu e alegou que R$ 10 mil seriam suficientes. O processo aguarda uma resolução.

“Entra lá e fica uma semana. Me fala depois se é merecida [a indenização] ou se não é”, diz Jonathan. 

Mas não existe uma regra nem grandes precedentes de o Estado conceder indenização como um direito amplamente reconhecido pelo Judiciário, explica Patrick Cacicedo, defensor público e professor de direito penal.

“Além de ter cor, [as pessoas em cárcere e parentes] têm menor acesso ao ir e vir, a provocar o estado, dialogar com a defensoria, às digitais possibilidades técnicas”, afirma Carin.

Um impostor no ninho

 

Por Matheus Zanin e Sofia Kassab

 

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Arte por Bruna Irala e Mayara Prado

 

Letícia abre seu computador, procura por uma vaga de emprego e, finalmente, a encontra. Tudo parece de acordo, mas alguma coisa a impede de clicar no botão de “candidatar-se”, e passa por sua mente se aquela posição é realmente para ela. 

 

O “fenômeno do impostor” atinge qualquer um, principalmente quem enfrenta problemas como insegurança e falta de autoconfiança. Entretanto, sentir-se estranho ao sucesso e duvidar de suas capacidades afeta, sobretudo, pessoas que lidam com machismo, homofobia ou racismo diários. E os gatilhos para o despertar de seus efeitos ocorrem, geralmente, no ambiente de trabalho.

 

Uma pesquisa da Universidade de Heriot-Watt, na Escócia, por exemplo, constatou que mais da metade das mulheres já se sentiram impostoras em algum momento de sua vida, comparado com apenas 24% dos homens. 

 

Desde a infância, Letícia aprendeu que meninas devem brincar de boneca, ao invés de jogos mais ativos, como correr, subir em árvores ou jogar bola. Os meninos, desde pequenos, participam de brincadeiras nas quais errar, perder e cair fazem parte do jogo. É ali que começa a construção do erro como “natural” aos homens, mas não para as mulheres.

 

Quando chegam ao mercado de trabalho, a cobrança que impõem sobre si se torna cada vez maior. Letícia acha que “deu sorte” ou que atingiu seus objetivos “por acaso”, não por competência. Pessoas com comportamentos semelhantes percebem mais os próprios erros do que os acertos. “O ‘ego’ dessas pessoas, isto é, a parte da psique que caracteriza a personalidade de cada um, é fragilizado”, explica a psicóloga Michelle Witzke. 

 

A mesma dinâmica é notada em outras vivências fora do ambiente de trabalho. Em ambientes conservadores, a falta de diversidade prejudica a autoestima. “No mercado financeiro, mulheres se sentem mais inseguras ao lidar com investimentos. Desde cedo, elas não aprendem sobre como cuidar do próprio dinheiro”, diz Sofia Bacha, produtora de conteúdo sobre finanças.

 

A autossabotagem é outro efeito do estranhamento ao sucesso. Tal sensação faz parte da vida de minorias como a população negra. O racismo gera problemas na saúde mental de pessoas que são constantemente desafiadas e questionadas sobre suas capacidades. “Tenho amigos negros que se queixam da auto-cobrança dentro do ambiente acadêmico”, relata Thiago Ferreira, doutor em comunicação. Qualquer que seja a causa, a consequência é a mesma: um ciclo vicioso de insegurança e ansiedade.

 

Hoje, Letícia não sabe se tais efeitos passarão. Ela começou a se sentir menos impostora quando começou a fazer terapia. Paralelamente, entrou em uma empresa com um departamento de recursos humanos mais ativo e preocupado com os colaboradores. Mesmo assim, os estímulos para o fenômeno são raízes de problemas sociais graves, difíceis de serem arrancadas. 

 

Se, por um lado, é possível amenizar o lado impostor com sessões de terapia e a segurança gerada por um departamento de RH presente, por outro, existem questões coletivas que permanecem. Resta a dúvida se, mesmo com mudanças estruturais, sentir-se impostor ainda será um mal na sociedade.

 

Colaboraram:

Gilnara Silva, analista de recursos humanos e psicóloga

Kamilla Maximos, gerente de marketing e criadora da página @eximpostoras no Instagram

Letícia Rosa, engenheira e ex-gerente administrativa

Manuca Ferreira, professor, doutor em comunicação e jornalista

Michelle Witzke, analista de recursos humanos e psicóloga

Sofia Bacha, advogada e criadora de conteúdo sobre investimentos

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

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