logotipo do Claro!

 

Quanta luta, quanta gente

 

Por Gabriele da Luz Mello e Laisa Dias

 

Arte: Yasmin Araújo

Em 1971, 153 famílias foram remanejadas das favelas da Vila Prudente e Vergueiro, e originaram a maior favela de São Paulo, Heliópolis. Hoje, são um milhão de metros quadrados construídos pelo trabalho coletivo de famílias e comunidade. 

Essa área, mesmo que pareça grande, consegue ser menor que o Parque Ibirapuera, que conta com 1.584.000 metros quadrados. Apesar disso, neste espaço, Heliópolis abriga cerca de 200 mil pessoas, o equivalente a um quinto da população que vive em favelas da cidade de São Paulo, segundo a UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) e ao Mapa da Desigualdade de 2022.

Até chegar nesse número, a favela do Helipa enfrentou confrontos, tentativas de apropriação e até mesmo um grande incêndio, em 1996, ocasionado por questões como as construções em madeira e o pouco espaço entre as casas.

Esses problemas acompanharam Maria Lia e Reginaldo, moradores de Heliópolis. Eles relatam que durante a infância, seus familiares, amigos e vizinhos iniciaram a ocupação do território, começando por barracos de compensado de madeira, evoluindo para casas de alvenaria até chegar aos acabamentos finais, anos depois do início da obra. 

As histórias tem início com as primeiras ocupações, quando surgiram líderes comunitários da região, as reivindicações por melhorias e pelo direito de fixar moradia no espaço. As construções ocorriam de forma coletiva entre os próprios moradores, que dividiam a mão de obra e os insumos, desde materiais para levantar a casa até alimentos. Hoje, Heliópolis tem iluminação de LED, ruas asfaltadas, creches e comércios.

É assim que nasce a arquitetura da favela, ou a “arquitetura da necessidade”, segundo a Professora de Planejamento e Gestão do Território da Universidade Federal do ABC, Rosana Denaldi. “A casa não é só da porta para dentro, ela também é o que está do lado de fora. É a rua, a rede de água, a pavimentação”, explica.

Rosana ressalta que mesmo quando há infraestrutura, ela é muito precária, com problemas como umidade, ruas estreitas e o estresse térmico, quando o corpo lida com temperaturas muito extremas, seja frio ou calor. 

insegurança no direito à moradia

Além dos problemas estruturais, grande parte das construções de favelas em São Paulo, como a casa da Maria Lia, não tem documentação que comprove a titularidade do imóvel.

Wallace França, membro da UNAS, nasceu em Heliópolis e precisou se mudar para o entorno da favela para conseguir a documentação, sonho da mãe, que chegou a alugar parte da residência em que viviam para poder financiar um imóvel regularizado. “Quando eu entreguei o documento para a minha mãe, ela chorou, porque antes, mesmo tendo uma casa, parecia que ela não era própria, ela era cedida”.

Atualmente, a discussão de regularização das moradias voltou por meio de um projeto da prefeitura com a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB-SP), que em junho de 2024 entregará a escritura definitiva para 35 moradores de Heliópolis. Até 2025, a promessa é que 26 mil unidades habitacionais tenham a documentação. 

Mas, para os moradores, o registro da construção não é o suficiente. Ainda falta estrutura e atenção às necessidades da população, que tem dificuldades de encontrar opções de lazer e regularidade na distribuição de água, luz e internet, por exemplo. “Sim, a gente quer a regularização, mas também quer verdadeiramente pertencer à cidade”, completa Wallace.

Colaboradores: Colaboradores: Fernando Pereira, arquiteto e criador do projeto Coletivo das Favelas do Rio de Janeiro.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

Expediente

Contato

Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Bloco A.

Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900

Telefone: (11) 3091-4211

clarousp@gmail.com