
o mar ressoa em ondas curtas, batendo contra o corpo em movimento. o vento se mistura ao compasso metálico das próteses que rangem no pedal da bicicleta. no asfalto, o toque suave da perna de carbono marca cada passada. essa é a rotina do triatleta Paulo Aagaard, mais conhecido como Pauê, que amputou parte das duas pernas ao ser atropelado por um trem em São Vicente aos 18 anos.
histórias como a dele não são exceção. só em 2022, o Sistema Único de Saúde registrou 31.190 amputações de membros inferiores, em média, 85 por dia. em uma década, foram mais de 282 mil brasileiros submetidos a esse procedimento.
para o ortopedista Julio Gali, próteses microprocessadas e pés de fibra de carbono já se aproximam do movimento natural e chegam até a superá-lo. as lâminas armazenam energia elástica e a devolvem de forma mais eficiente que o tendão humano, reduzindo o gasto físico em longas distâncias. ainda assim, o tato, a estabilidade e a síndrome do membro fantasma, condição em que a pessoa sente dor onde existia a parte amputada, continuam fora do alcance da tecnologia.
as próteses modernas podem devolver passos e melhorar a performance em alguns esportes, mas não chegam a se conectar ao sistema nervoso, transmitindo sensações como faria o cérebro. há, ainda, o desafio da rejeição: o organismo pode reagir contra o que é estranho, transformando uma solução em risco de inflamação ou infecção.
do lado da engenharia, as barreiras também se acumulam: baterias que se esgotam rápido, peças minúsculas que exigem precisão e a dificuldade de replicar a complexidade de um órgão em tamanho real.
mesmo com tantos desafios a serem superados, Pauê, surfista desde criança, transformou a reabilitação em treino. em três meses, voltou ao mar e se tornou o primeiro surfista biamputado do mundo. logo descobriu no triatlo outro espaço para se desafiar. no começo, corria com próteses comuns e levava mais de uma hora para completar 10 km. hoje, com lâminas de carbono em formato de “C”, baixou para 46 minutos. “muda muito. leveza, angulação, dinâmica. é outra corrida”, diz sobre a prótese esportiva.
contribuição: Julio Gali, Paulo Aagaard