
Marcos Aguiar dirigia pela Vila Madalena despreocupado com a garoa. Aos poucos, porém, o estalo das gotas d’água foi acompanhado pelo estrondo de trovões e, na pista, poças viraram corredeiras. “Enquanto atravessava um cruzamento, o carro parou”, conta. Ali, ilhado por aquele rio recém-formado, ele permaneceu até a ajuda chegar.
Histórias similares repetem-se nas cidades brasileiras a cada verão. Entre 2023 e 2024, foram registradas 771 inundações pelo CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) derivadas, entre outros fatores, das ilhas de calor. Sem árvores, o ar quente do solo sobe carregado de vapor d’água, formando nuvens cumulonimbus, convertidas em “superchuvas”, explica o climatologista Carlos Nobre.
A transformação do evento em tragédia, entretanto, não é inevitável, mas consequência de falhas de planejamento. O asfalto impede a absorção de água e esgoto, única rota de escoamento, está entupido. De acordo com a Ouvidoria Geral do Município (OGM) de São Paulo, as queixas sobre acúmulo de lixo aumentaram 12% nos últimos dois anos em relação ao biênio anterior.
Para além dos bueiros, as vias da cidade também estão cada vez mais obstruídas. O recorde histórico de congestionamento na capital paulista foi quebrado em agosto de 2024, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Embora sozinho naquela rua, Marcos não era o único com o veículo parado na região.
A vereadora Renata Falzoni (PSB) argumenta que, para resolver os problemas urbanísticos de São Paulo, é preciso repensar o trânsito de pessoas. “A dependência em carros cria a necessidade por áreas gigantes de asfalto.” Uma referência para ela é a cidade de Rio Branco-AC, onde foram instalados longos trechos livres de automóveis.
Avanços como ciclovias, cidades permeáveis, transporte público, além de tratamento de esgoto e coleta de lixo, precisam ser expandidos e democratizados, pondera Denise Machado, urbanista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Falta apenas capital político e manejo de recursos.”
Enclausurado no meio desta cidade, Marcos percebeu-se sem escape. “Me senti fragilizado, não havia para onde ir.”