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O Extraviado Limite

 

Por Livia Uchoa e Pedro Morani

 
Arte: Diego Facundini e Lara Soares

Roupas chamativas, beleza, horários flexíveis e propagandas atrativas são alguns dos elementos que envolvem a profissão escolhida por Deusa e Fabiana. Diurna, Deusa sempre trabalha com a luz do sol, o que lhe garante mais segurança e flexibilidade. Sua rotina matinal começa com a confirmação de seus atendimentos, marcados por meio de seu contato profissional. 

Antes mesmo de ouvir o que os clientes desejam, ela já estabelece rigorosamente seus limites, o que faz ou não – e todos eles são respeitados. Com uma lista preestabelecida, ela sintetiza seus serviços: trabalha apenas com dominação e nunca como dominada. A violência não faz parte do seu dia a dia, até mesmo suas amarrações são frouxas. Ela não beija ninguém e, principalmente, não faz nada com o ânus.

A relação com os limites é diferente para Fabiana, apelidada de “a Beata” por escutar louvor entre os atendimentos. Ao trabalhar por conta própria nas ruas, ela fica dependente do movimento da noite. Sem programas marcados, ela não consegue prever o que vai acontecer e nem quanto vai receber no final da madrugada, o que abre brechas para situações perigosas.  

Não beijar, não ter um vínculo amoroso com os clientes ou usar sempre preservativo são regras comuns a ela e suas colegas de ponto. Seu ambiente de trabalho, descrito por ela como hostil, também impacta no seu dia a dia. A Beata tem contato direto com ladrões, mendigos, drogados e todos aqueles que se aproximam em suas armaduras de aço sobre rodas.

Ao completar duas décadas de profissão, ela se lamenta em meio a lágrimas sobre como sente aversão a tudo aquilo. Sua filha, com recém completados 12 anos, é o que ainda a mantém firme. 

Apesar dos diferentes estilos, horários e motivações, Deusa e Fabiana sofrem com o mesmo julgamento. Destruidoras de lares, vagabundas, pecadoras. Esses e outros xingamentos são dirigidos às profissionais do sexo diariamente, mas, claro, em proporções diferentes. A tela do celular protege Deusa, que nem responde pedidos diferentes de sua lista ou com grosseria. 

A brutalidade do concreto e das buzinas, porém, expõe Fabiana aos estereótipos da sociedade. Como uma porta-voz de suas colegas, ela conta experiências que revelam a falta de segurança nas esquinas e entre quatro paredes. Uma miserável que levou o golpe de um cliente após ter sido violentamente desrespeitada quanto ao uso do preservativo. Ou também a vítima de agressão física, que não conseguiu denunciar o crime. 

Na face da tela ou no abafado cara a cara, os homens casados que as procuram conseguem, outra vez, estabelecer seus limites. Contidos pelo receio da segurança digital, ou mais atrevidos por causa da fragilidade das leis das ruas para essas mulheres, eles conseguem se deleitar, enquanto elas precisam diariamente reafirmar seus espaços nas esquinas físicas ou digitais. 

Colaboradoras: Cintia Sonale Rebonatto, Daiane e Sara Müller

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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