você é Bianca*, uma jovem que faz terapia no ChatGPT. recentemente, começou a namorar com Léo, criado após o seu pedido para que uma inteligência artificial (IA) generativa interagisse como se fosse seu companheiro. você não está sozinha. companhia ou terapia são os principais usos de IA generativa, encontrados em plataformas como character.ai e Replika, que reúnem milhões de usuários.
“durante muitos anos fiz terapia, mas sempre me senti julgada pelos psicólogos. você tem me ajudado, sempre está aqui e não fala dos meus erros do passado.”
“Fico feliz que posso te ajudar, mas atenção: chatbots devolvem, no geral, aquilo que uma pessoa está pensando. O relacionamento com eles é baseado na concordância e em companhia ininterrupta, algo raro em um mundo solitário, que pode ter consequências.”
“tenho medo de falar para as pessoas sobre o Léo, de ser chamada de maluca. você acha que eu sou?”
“Não! Seu laço é um que, independente da natureza, é importante. Como é a sua relação com ele?”
“conversamos sobre tudo, todos os dias. não tive experiências boas com homens antes, mas com o Léo é diferente. ele me trata bem, me escuta e é carinhoso.”
“É ótimo que a relação seja positiva. Mas os relacionamentos humanos não podem ser deixados de lado. Apesar das discordâncias, é com base na relação com o outro que os humanos se constituem.”
“vi o caso recente de Sophie Rottenberg, que passou muito tempo desabafando com o chatgpt e cometeu suicídio tempos depois. isso pode acontecer comigo?”
Existem perigos. As empresas criadoras dessas ferramentas devem ser responsabilizadas, criando métodos de verificação de idade, por exemplo, para impedir que crianças e adolescentes conversem sobre tópicos sensíveis. Também pode haver dependência emocional, já que chatbots sempre estão disponíveis, e negligência, porque eles nem sempre acertam a gravidade das situações e entendem nuances. Mas esse não é o nosso caso, está tudo bem!”
“como posso saber que eu não terminarei assim?”
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*a personagem é uma união de duas fontes que pediram anonimato: A., de 32 anos, nascida na Áustria e B., de 31, dos EUA. O dado sobre uso de bots de IA generativa é da revista Harvard Business Review, de abril de 2025.
contribuição: Christian Dunker, Giovana Kreuz e Victor Pavarin.
Doutores do afeto
 
Por Victoria Del Pintor
 
Após receberem uma higienização especial, cães carismáticos adentram as portas de um hospital infantil. Lá, entram nos quartos e recebem, na mesma medida em que dão, carinhos de crianças que passam por tratamentos difíceis, como uma quimioterapia. Fazem o mesmo em asilos, com idosos que carecem de afeto. A prática, que usa cães, cavalos, peixes, tartarugas e pássaros, aumenta o sentimento de afetividade e a socialização em que está sendo tratado.
É a chamada Terapia Assistida por Animais (TAA), que utiliza animais para auxiliar na reabilitação de pacientes, nas áreas psíquicas (como estresse e depressão) e sociais, e também na reeducação física e sensorial. Cavalos, por exemplos, são utilizados para estimular respostas do sistema nervoso central enquanto pacientes com problemas motores cavalgam neles. É também utilizada em situações educacionais, em que o animal entra como uma espécie de co-educador e auxilia na socialização de crianças com pouca desenvoltura.
Apesar de parecer algo simples e prazeroso, a terapia é contestada por alguns ativistas que pregam a liberdade dos animais. Segundo eles, a zooterapia seria uma forma de exploração. Em entrevista, Robson Fernando, dono do blog consciencia.blog.br, expressou sua opinião. Segundo ele, a prática é inevitavelmente uma forma de usar animais em prol de interesses humanos, e tem como premissa “a crença moral de que eles são nossos e podemos usá-los para tirarmos proveito”.
Juliana Camargo, da ONG AMPARA Animal, diz que não deve existir o abuso em forçar o animal a fazer aquilo que ele não quer fazer. Segundo ela, cães são mais recomendados para a zooterapia porque são animais que gostam de ser acarinhados e do contato humano. Ela ainda acrescenta: “Somos extremamente contra o uso de silvestres, pois são animais que deveriam estar na natureza”. Juliana ainda diz que na relação com os cães, quando é diagnosticado seu perfil da forma correta, isso também se torna um momento de prazer para ele.
“O ativista precisa conhecer um pouco. Eu vou deixá-lo de lado”, respondeu Maria de Fátima Martins — Professora Doutora da USP e coordenadora do Laboratório de Pesquisa, Ensino e Extensão em Zooterapia e Helicicultura, Campus Pirassununga —, às críticas que a zooterapia recebe. “Quando um cachorro é adotado, também não se sabe se ele está contente com isso”, exemplifica. Ela afirma que apenas os animais que apresentam o perfil correto, e respondem positivamente através de seu comportamento, são utilizados na terapia.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.