
Arte: Gabriel Eid
Calças se transformam em bermudas, camisas viram bolsas. Pneus podem se tornar pufes ou solas de sapato. Alguns chamam isso de criatividade; outros, de upcycling. Para muitas pessoas, essa técnica era uma alternativa econômica. Na década de 1990, ganhou o nome pomposo e ares sustentáveis, em meio às discussões que resultaram na Conferência Eco 92, uma das primeiras a abordar os impactos globais da poluição.
Upcycling se refere à prática que visa evitar o desperdício de materiais, reduzir o consumo de matérias-primas e diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Embora possa ser aplicada em diversas áreas, como arte, decoração, arquitetura e indústria, foi na moda que teve o maior impacto. “A melhor roupa é aquela que já foi feita”, resume Lourrani Bass, fundadora do Liga Transforma, projeto que cria produtos têxteis a partir de material reaproveitado.
Dados de 2021 da Fundação Getúlio Vargas mostram que em 2018 o Brasil produziu mais de nove bilhões de peças novas. O mesmo relatório aponta que menos de 1% das roupas produzidas globalmente são reaproveitadas. O método surge, então, como uma alternativa sustentável, e atrai os consumidores também pelo apelo à exclusividade, afinal, cada peça é única.
A dificuldade de produzir em grandes escalas, porém, afasta o upcycling do uso comum. “As pessoas acham que é mais barato, porque não precisa gastar com matéria-prima. Mas não é bem assim. A roupa chega para nós como um resíduo e precisamos transformá-la em matéria-prima, o que é caro”, conta Jonas Lessa, do Retalhar, projeto que auxilia empresas a reaproveitar os resíduos têxteis. A título de comparação, uma bolsa feita a partir do reúso de tecidos jeans da grife espanhola Balenciaga pode custar quase R$ 10 mil, enquanto um acessório feito com a mesma técnica pode ser encontrado por até R$ 170,00 no marketplace brasileiro Ecoaliza Store.
Apesar desses desafios, algumas alternativas podem tornar as peças mais acessíveis. Andres Felipe Torres, pesquisador do curso de moda da USP e especialista em upcycling, cita, por exemplo, a confecção em maior escala de produtos mais simples, como necessaires e estojos. “Mas nunca vai poder competir com os preços do fast-fashion [como Shein e Zara], que usa mão de obra escrava e não tem preocupação ambiental”, completa. Ainda assim, este tipo de produção mostra que cada retalho pode abrir um novo mundo de possibilidades.