
Diagramação: Gustavo R. Silva
“A morte, surda, caminha ao meu lado, e não sei em que esquina ela irá me beijar.” Com essa frase, Raul Seixas nos lembra da única certeza que temos nessa vida: a morte. Uma realidade que, embora universal, muitos evitam pensar sobre. Mas, se é o único evento da vida do qual não se pode fugir, por que não se preparar para ele?
O planejamento para a morte pode ser comparado ao de um evento importante – como um aniversário. Claro, as diferenças são óbvias, mas o processo é semelhante. É preciso pensar em detalhes práticos como: qual plano funerário contratar, se será sepultamento ou cremação, se haverá coroa de flores, quem irá custear, qual será o local, e até como será a divisão de bens. Mesmo que esses detalhes pareçam dolorosos de antecipar, eles podem ser decididos em vida, para que, quando o momento chegar, esteja tudo pronto dentro do possível.
Na hora de planejar a morte, assim como na vida, o dinheiro é um fator importante. Eva Alves, de 64 anos, continuou pagando o plano funerário após a morte do pai. “Nunca se sabe o dia de amanhã”, diz ela, que já viu pessoas perderem os entes queridos e passarem por sufocos financeiros para fazer o velório e não deseja passar pelo mesmo.
Maria das Graças Oliveira, de 72 anos, já resolveu todas as burocracias relacionadas ao sepultamento: sabe o ano e mês que começou a pagar o serviço funerário, os descontos oferecidos e quais familiares estão inclusos. Tudo isso pensando em aliviar a carga para quem fica. Quando o dia chegar, o único serviço para os vivos será escolher o local do velório.
Alexandre Garcia trabalhou por muito tempo como concierge de atendimento para cuidados funerários e viu de perto famílias que tiveram que enfrentar a burocracia funerária em um momento de dor. Ele conta uma memória que nunca o deixou: dois caixões, um de uma criança de 7 anos e outro da avó, de 55 anos, e o sofrimento dos que tiveram que lidar com o funeral de dois familiares que faleceram repentinamente.
O preparo antecipado também permite que o velório aconteça conforme os pedidos de quem se foi, por exemplo, um pedido que Alexandre recebia com frequência era para o caixão ser coberto com a bandeira do time de coração do falecido. Já para Eva, detalhes como esse não são importantes: “A terra vai comer tudo”, diz. Quando percorre o mundo em viagens emocionantes, ela escreve cartas para familiares informando o único desejo: a doação de seus órgãos. Maria também vê a própria morte de forma pragmática e só deseja que o próprio funeral aconteça com leveza.
Raul Seixas fala da morte como “Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida”, no entanto, é possível escolher como ela será tratada após o fim, assim, tudo pode acontecer de forma mais digna, tanto a morte de quem vai, quanto o luto de quem fica.