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Cadê meu filho?

 

Por Davi Caldas

 

Arte: Yasmin Andrade

Abre

O Brasil registrou 90.256 casos de desaparecimento de menores entre 2021 e abril de 2025, dos quais 34 mil ficaram sem solução, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Com isso em mente, alguns pais optam por usar tecnologias de rastreamento, como tags ou aplicativos de celular. E mesmo com diferentes perspectivas sobre o assunto, todas convergem em um mesmo propósito: o desejo de manter seus filhos seguros. Em 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente foi sancionado, o que consolidou um equilíbrio delicado entre cuidar e vigiar — no qual o uso de ferramentas de monitoramento é autorizado, mas com limites claros em relação à vigilância excessiva, ao rastreamento oculto e à coleta desnecessária de dados sensíveis.

Bloco 1

Para Saylane da Conceição, a tecnologia de rastreamento veio como um alívio. Em concordância com a filha de 13 anos e sem tempo livre para acompanhá-la no seu caminho à escola, a mãe encontrou em um aplicativo de celular a segurança de deixá-la ir e vir sozinha ao conseguir reconhecer possíveis desvios de rota. “Foi o que proporcionou essa confiança mútua, para manter mais tranquilidade e dar mais liberdade à ela”, conclui. Camila Alves, mãe de três jovens, usa a tecnologia de maneira esporádica, quando eles fogem de suas rotinas habituais. Os filhos, por sua vez, também podem acompanhar a localização dos pais. “Mesmo quando a nossa filha mais velha não quis mais usar o aplicativo, não questionamos. Da mesma maneira, ela frequentemente está se comunicando, é um hábito da família”, diz.

Bloco 2

Sheyla Werner, pedagoga especialista em educação inclusiva, entende como ético e saudável o uso de tecnologia para localização quando construído coletivamente nas famílias, e não imposto de forma unilateral pelos pais. A prática deixa de atravessar a ideia de controle e passa a ser de acompanhamento, em que a transparência é vital: “Independente da idade, essa comunicação deve existir. Não pode ser uma informação, mas uma construção”. Ultrapassados os limites, podem começar a surgir prejuízos para a autonomia, independência e até mesmo auto-segurança do sujeito, que se torna alguém com menos confiança em si mesmo e nas suas tomadas de decisões.

Bloco 3

A experiência de Leandro Sperandio como delegado o permitiu analisar situações exitosas com o uso do mecanismo. “Houve um caso em que a criança e a mãe foram vítimas de assalto mediante restrição de liberdade. Por meio do pai, conseguimos acessar o mecanismo e frustramos os bandidos”, relata. A técnica garante uma resposta mais ágil, pois a polícia consegue iniciar o seu trabalho com a linha de investigação certeira, diferente dos demais casos em que há uma perda do “tempo de resposta” e se torna necessário realizar outras técnicas mais burocráticas e menos assertivas. Mesmo nos casos de insucesso, não há prejuízo comprometedor, pois é comum a utilização de ferramentas que acabam não levando ao resultado desejado em uma investigação.

Contribuição: Chiara de Teffé, professora de Direito Civil e Direito Digital na UFRJ

Mas eu sempre fui assim

 

Por Filipe Narciso

 

Arte e Imagem: Ana Paula Alves e Iasmin Cardoso


Com o anúncio de uma gravidez desejada, se inicia uma série de rituais: os
exames de rotina, o chá de revelação, a escolha do nome, a compra do berço e das
decorações, as conversas sobre o futuro do bebê e de seus pais. E, em um dia
ansiosamente aguardado, a criança nasce — e é a coisa mais linda que eles já viram.

Mas nem sempre o projeto de ser humano em seus braços é o ser humano
imaginado anteriormente. Na verdade, na maioria das vezes não é. Se a família é um
microcosmo da sociedade em que está inserida, um Ocidente capacitista
cisheteronormativo incute uma série de crenças em famílias em que crianças com
deficiência ou identidade queer ou ambos, ou seja, com qualquer forma de
divergência daquilo socialmente aceito, são vulneráveis não só por sua relação com
o resto do mundo, mas pela relação com suas próprias famílias.

Os desafios de conciliar a proteção familiar com o direito de uma criança
tomar as próprias decisões é uma das adversidades fundamentais da estrutura
familiar. De acordo com o psicólogo Mauro Luis Vieira, há a necessidade dos pais
considerarem a flexibilidade de seus valores. É relevante para a interação
desenvolver espaços de diálogo, em que seja possível expressar confiança nas
escolhas de seu próprio filho.

A popularização do termo smothering, gerúndio de um verbo traduzido do
inglês como “sufocar”, que em sua estrutura se encontra também a palavra “mother”
— mãe —, ao tratar de pais que ao serem tão superprotetores deixam seus filhos
emocionalmente dependentes e inseguros, expõe as contraditórias dinâmicas
familiares contemporâneas. Se até mesmo o amor e a preocupação podem ser um
impedimento para o desenvolvimento infantil, os desafios da paternidade não são só
uma questão de ser presente, mas também de equilíbrio.

Quanto às promessas que antecedem o nascimento, a psicóloga Amanda
Sehn aponta que o processo denominado luto do bebê imaginário é extremamente
relevante para a parentalidade. De acordo com ela, criar expectativas sobre seu bebê
é fundamental para a constituição psíquica dos pais. Mas, com o nascimento do
filho, é importante deixar a criança idealizada ir para abraçar aquela que realmente
nasceu.

Vieira reforça que criar expectativas é uma característica da natureza
humana. No entanto, expectativas cristalizadas demais são quebradiças. A realidade
é bem mais complexa: algumas crianças nunca gostarão de rosa ou vão sonhar em
ser um jogador de futebol ou sequer vão ser neurotípicas — e isso não as fazem
menos dignas de amor e apoio.

Colaboraram:
Amanda Schöffel Sehn – Professora da UNIJUÍ e integrante do Núcleo de
Infância e Família (NUDIF) da UFRGS;
Mauro Luis Vieira – Professor da UFSC e Coordenador do Núcleo de Estudos e
Pesquisas em Desenvolvimento Infantil (NEPeDI).

As crianças e a rua

 

Por Quefren de Moura

 

 

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Cinco e meia da manhã. Levanta num pulo e, depois de um banho, começa a se aprontar. Amarra a tira da sandália, ainda sonolenta. Por qualquer razão isso lembra sua infância, quando amarrar o tênis era requisito para brincar na rua — garantia de que não tropeçaria ao correr, empinar pipa, jogar taco ou “pular carniça”. Só uma criança desavisada faria isso de cadarços frouxos ou desamarrados! Balança a cabeça e ri sozinha. Não está de saída para brincar, mas para trabalhar.

 

Diante do espelho, contorna os lábios com um batom discreto e fita seu rosto adulto.  O tempo passou! Enquanto termina de se arrumar, divide com o marido sua nostalgia: “Estava aqui pensando… como era bom brincar na rua, né?” Ele sorri. “Não tinha tanto carro como hoje.” Gargalham ao lembrar das brincadeiras que faziam, como o pique-esconde. No último segundo, sempre tinha alguém que “salvava o mundo” e fazia a mesma criança bater cara outra vez! Costumavam brincar por horas, até cansar, até a camiseta molhar de suor e a pele gelar com o vento! E isso não era problema algum. Que tempo bom! Ela borrifa um perfume doce.

 

Da cozinha, apressa os dorminhocos: “Tá na hora, meninos!” Logo, dois pequenos zumbis descem as escadas se arrastando. Como conseguem caminhar, sentar e até comer de olhos fechados? “Tô com sono, mãe!” Depois do café, todos se despedem e ela voa até o carro. Já sentados no banco de trás, com o cinto afivelado, os pequenos parecem bem mais acordados. “Ei, espertinhos! Nada de celular a essa hora! Quero saber se andam estudando para as provas do fim do mês.” “A gente tá estudando, mãe!” Eles não desgrudam  o olhar do joguinho. “Desliguem!” Mais resmungos e reclamações, até que eles se rendem: “Tá bom, mãe…”  

 

Ultimamente os filhos dela têm se divertido quase só com a TV, o computador, os smartphones e o video game. No prédio onde moram há tudo o que as crianças poderiam querer: piscina, playground, quadra poliesportiva e até brinquedoteca. Só que, como a maioria, eles quase não descem para brincar. Os pais não têm muito tempo para levá-los, mesmo sabendo o importante que é fazer amigos, ser criança e se divertir. Mas hoje os tempos são outros…

 

 

Chegam à porta da escola. Os meninos descem do carro e ela continua seu caminho (não sem antes ganhar beijos, abraços e até mais tarde, mamãe). O dia será longo.

 

Seu celular vibra. Cinco da tarde! Ela nem viu o tempo passar! Solta os cabelos e suspira.

 

Na volta, o tráfego é de chorar. Distraída, olha para o lado e percebe crianças, de pés descalços e rosto sujo, vendendo balas no farol. Ela vê a feição doída de meninas e meninos obrigados a crescer. Pensa na sua infância. A rua, antes tão convidativa, hoje machuca a infância. Uma melancolia invade seu coração. Acelera, mas a tempo de ver um dos garotos chutando sozinho uma garrafa “pet” amassada, driblando uma “zaga” invisível e fazendo um gol de placa entre as árvores da calçada. Luzes piscam na avenida barulhenta. Os carros se movem enquanto a noite vem.  

 

Estaciona o carro e entra em casa. Joga a bolsa de canto e vai para a cozinha. Como de costume, a essa hora ela sabatinaria os filhos se fizeram a lição de casa, como foi no karatê, se aprenderam algo novo no inglês, e a aula de guitarra? No entanto, ela faz diferente. Larga tudo e corre até a sala. Agarra os meninos pela barriga, arrancando-os da televisão, e os joga no sofá. Mudança de planos: hoje, depois do jantar, vão brincar de cabra-cega! “Não vale roubar!” O marido se junta ao trio. Entre cócegas, risadas e gritos, os meninos recordam: “Mas, mãe! Nós já tomamos banho! E se ficarmos suados para dormir?” Ela olha para os filhos. São crianças! Então responde com um sorriso matreiro: “Suados? O que tem de mais?”

 

 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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