em hospitais pelo mundo, o uso de inteligências artificiais já é uma realidade. o médico radiologista Armênio Mekhitarian explica que hoje exames de ultrassonografia, por exemplo, utilizam IA para interpretar as imagens e, automaticamente, sugerir meios para o tratamento de cada caso clínico.
pessoas leigas também têm esse costume. Alan Fagundes, com o resultado de seus exames de sangue após uma consulta médica, recorre ao ChatGPT para traduzir os termos técnicos e perguntar se está tudo normal com sua saúde. caso tenha resposta positiva, nem cogita agendar o retorno. ele deu a dica para sua mãe, que agora faz o mesmo com os resultados de sua endoscopia.
já Beatris Ponce, diagnosticada com gastrite, não precisa mais enfrentar longas horas na espera do consultório médico. ela agora está a dois prompts de descobrir o que aflige seu estômago após um dia de comilança.
“a curiosidade é normal, mas é errado pacientes e especialistas aceitarem totalmente a informação gerada por um mecanismo de busca”, destaca o médico cirurgião Carlos Eduardo Domene.
e é justamente por isso que o aval de um profissional da saúde é essencial. advogado especialista em direito médico, Thayan Ferreira afirma que os profissionais de saúde podem ser responsabilizados caso um paciente sofra com efeitos adversos relacionados ao mau uso de recursos deste tipo sob sua supervisão.
mesmo assim, as ferramentas são cada vez mais comuns dentro das unidades de saúde: uma pesquisa realizada em 2025 pela Associação Nacional de Hospitais Privados revelou que, das 107 instituições médicas entrevistadas, 81% usam algum recurso de inteligência artificial no dia a dia.
Thayan ressalta uma diferença entre médico e máquina: a interpretação. a IA é alimentada com dados, mas é incapaz de absorver a experiência do contato humano. isso se revela também em estudos: um experimento conduzido em 2025 pela The Lancet Digital Health utilizou o ChatGPT para analisar dados de prontuários. na pesquisa, médicos discordaram de apenas 10% das respostas da IA.
apesar disso, o estudo mostrou a dificuldade do modelo em interpretar informações implícitas, como distinção entre gênero e sexo e relações de causa entre doenças. “são principalmente nesses fatores que o olhar minucioso de um médico jamais poderá ser substituído”.
contribuição: Alan Fagundes, Armênio Mekhitarian, Beatris Ponce, Carlos Eduardo Domene e Thayan Ferreira
O diagnóstico não pode esperar
 
Por Cadu Everton
 
Arte e Imagem: Ana Paula Alves e Maria Clara Abaurre
A vida não é como uma ampulheta, em que a areia está sempre se esvaindo, e quando ela acaba, é possível começar tudo novamente. Por isso, em busca de diminuir a velocidade que a areia flui, a agente de saúde, Roseli Maria, caminha pelas ruas de Diadema, região metropolitana de São Paulo, para orientar os moradores sobre a necessidade de ir ao posto de saúde. No entanto, muitos hesitam em buscar assistência médica.
Para a médica da família, Magali Natashi, a recusa por atendimento médico está na lentidão do sistema público, o que faz com que muitos pacientes procurem o serviço de saúde apenas quando já estão sentindo os sintomas.
Ela acrescenta que esse fator dificulta o diagnóstico precoce, principalmente no caso de doenças silenciosas, como a diabetes, que caso não seja tratada, se manifesta com sintomas graves. A medicina preventiva serve para frear a velocidade com que a areia da vida se esvai pela ampulheta. Porém, muitos têm visto a vida escorrer rápido demais sem ao menos perceber. Um estudo feito em 2021 pela Federação Internacional de Diabetes (IDF) mostra que 4,8 milhões de adultos convivem com a doença no Brasil sem terem sido diagnosticados.
Mas nem sempre o diagnóstico precoce está relacionado a uma corrida contra o risco iminente de morte. Apesar de possíveis sintomas graves, é viável conter a diabetes com a realização de dietas, exercícios físicos ou até mesmo insulinoterapia e ter uma vida normal, sem grandes perigos.
A medicina preventiva tem também o papel de ir além do diagnóstico de enfermidades, como por exemplo no caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Não se trata de diagnosticar para ganhar mais tempo de vida, afinal, o espectro autista não é uma doença, mas sim um distúrbio do neurodesenvolvimento, segundo a pediatra Ana Márcia Guimarães.
Indivíduos com esse transtorno possuem características, como limitações sociocomunicativas e padrões comportamentais repetitivos. Segundo dados do CDC (Center of Diseases Control and Prevention), estima-se que 1% da população brasileira possui TEA.
O tempo é essencial na identificação do autismo, e deve ser feito na infância, pois nessa fase há maior neuroplasticidade cerebral, ou seja, é possível estimular com mais facilidade as conexões cerebrais dos pacientes. Ana Márcia Guimarães afirma que, caso o diagnóstico seja feito depois da infância, há maior possibilidade desses pacientes desenvolverem ansiedade e depressão, mas isso dependerá do grau de espectro de cada indivíduo.
O diagnóstico precoce não está relacionado unicamente na identificação e tratamento de doenças, mas sim a auxiliar as pessoas a aproveitarem com mais qualidade sua existência. Nem sempre se trata de salvar alguém de uma “sentença” de morte, mas de dar fluidez à passagem de tempo de cada um na ampulheta da vida.
Colaboraram:
Magali Natashi – Médica da Família da Unidade Básica de Saúde Promissão
Ana Márcia Guimarães Alves – Pediatra, membro do Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento
Roseli Maria – Agente de Saúde da Unidade Básica de Saúde Promissão
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.