de onde viemos? para onde vamos? da mitologia à religião, da filosofia à astrofísica – essas são perguntas que movem a humanidade. mas tem um pessoal que não quer ir a lugar nenhum. exemplo disso é Peter Thiel, o bilionário neozelandês que já investiu mais de 700 milhões de dólares em uma série de empresas dedicadas a desvendar os mistérios da vida eterna.
para ele, o avanço da expectativa de vida, de 32 anos em 1900 para mais de 72 anos em 2023, não é suficiente. a morte dos corpos pode e merece ser desafiada.
segundo o pesquisador João Paulo Limongi França Guilherme, tudo isso não passa de propaganda: “falar em imortalidade, em viver mil anos, não tem base científica nenhuma. é possível falar hoje com segurança no aumento da expectativa de vida com qualidade”.
mesmo assim, as pesquisas sobre o envelhecimento seguem a todo vapor. só no ano passado foram mais de 4 bilhões de dólares gastos na busca por uma vida mais longa. uma das tecnologias promissoras nesta frente é o reset celular, processo que permite a reversão de células adultas para um estado mais jovem, já testado em camundongos.
“em humanos ainda não dá pra fazer, mas é uma linha de pesquisa muito promissora.”, explicou João Paulo.
segundo ele, “o desafio é rejuvenescer sem perder a função”, já que um reset total leva a célula de volta ao seu estágio embrionário. “se a gente conseguir, abrimos um caminho para retardar o envelhecimento de forma bem efetiva”, completou.
o acesso a este tipo de inovação, entretanto, merece atenção, já que uma pessoa nascida hoje no Japão tem expectativa de vida que beira os 85 anos em comparação aos 54 anos e 6 meses observados na Nigéria.
para o pesquisador João Maia, a falta de democratização deste tipo de tecnologia pode causar fraturas significativas dentro da sociedade. “Se quisermos trilhar um caminho desejável, é bom que haja maiores mecanismos de regulação nestas matérias e dispositivos diferentes de cooperação internacional”, comentou.
contribuição: João Maia e João Paulo Limongi França Guilherme
Do outro lado
 
Por Pamela Carvalho
 
Ela olhou no espelho mais uma vez. As ondas dos cabelos acobreados caíam como cascata pelos ombros. Nenhum fio branco! A pele também estava reluzente: a ultima injeção tinha funcionado maravilhosamente. Passou as mãos pelas maçãs do rosto e sorriu. Estava pronta. 50 anos na identidade, mas aparência de 28.
Escolheu andar até o restaurante. Estava tarde, mas combinou de encontrar Marcos perto de casa. Estratégico. Caminhar também ajuda a refletir. Naquela noite ela precisava colocar os pensamentos em ordem.
“Você sempre foi tão segura, Ju. Sempre levantou a voz para defender o direito das mulheres se sentirem belas em qualquer corpo, qualquer idade. E agora você gasta maior grana em estética para fugir da idade que tem. Isso não faz sentido”. As palavras da amiga tiveram efeito cortante. Sim, ela se deu ao luxo de gastar em tratamentos. Mas é assustador perceber o corpo cedendo às pressões do tempo. Até os 40, ela recebia elogios por aparentar ser mais jovem do que era. Mas depois dos 45… parece que tudo desandou! Os fios brancos se multiplicavam ferozmente, as rugas brotaram sem piedade e os músculos pareciam resistir a qualquer tentativa de torneá-los.
Não gostava de se ver refletida. Queria mudar de aparência, queria voltar no tempo. Queria, mais do que tudo, ser aquela jovem de 22 anos que subia no palanque da faculdade para falar sobre empoderamento feminino. Naquela época ela usava manequim 38, tinha cabelos esvoaçantes e voz aveludada ao discursar sobre a necessidade de quebrar os padrões estabelecidos pelo patriarcado. Três anos atrás ela havia lido dados divulgados pelo IBGE: pesquisas afirmavam que o brasileiro gasta mais em estética do que em comida. Chocante. Bem, hoje em dia, entre os tratamentos e a dieta restritiva, talvez ela faça parte desse grupo.
Chegou adiantada. Ele não estava lá. Pediu uma água e esperou. “Sua água, senhorita”. Se-nho-ri-ta! Ela se deliciou com cada sílaba daquela palavra. Os tratamentos vieram a calhar. Mas a alegria durou pouco. Lembrou das palavras da amiga. Quando será que começou a temer tanto o futuro? Sempre se viu como uma pessoa que envelheceria com gosto. Mas não, tratou de esconder cada marca que o tempo lhe trouxe.
“Está esperando alguém?”. Respondeu que sim, que havia reservado mesa para dois e se perguntou onde estaria Marcos. Ah, Marcos. Chefe da repartição, diziam que ele saia com as estagiárias. Gostava mesmo das novinhas. Mas mostrou interesse nela desde o início.
“Você está linda”, disse ele ao chegar, logo antes de lhe dar um beijo na testa. Cavalheiro, um charme. Mas não conseguiu deixar de pensar se ele estaria ali com aquele entusiasmo se na sua frente estivesse uma mulher com 50 anos aparentes. Provavelmente não. Saiu com um homem superficial. No escritório, ele é cheio das piadinhas sobre mulheres mais velhas. “Eu já passei dos 50, sabia?”, a pergunta escapou, totalmente sem contexto, entre garfadas. Ele fez cara de espanto, seguido de um sorriso. “Nossa, deve ter dado muito trabalho manter seu corpo assim. Fica tranquila que qualquer homem que te olhar não te dá mais que 30”. Ele quis ser sensual, mas foi ofensivo. Parecia que todas aquelas mudanças foram feitas para agradar o olhar masculino. Mas não foram. Não podiam ser. O jantar acabou cedo.
Levantou-se. No caminho para a saída, parou e se olhou no espelho. Os cabelos acobreados ainda lhe caiam muito bem como cascata pelos ombros. A pele parecia estar ainda mais impecável. Sorriu. A mulher do outro lado do espelho lhe sorriu de volta. Ali estava a única aprovação que precisava. Ela se sentia bem com sua aparência. E é isso que importa. Cada centavo valeu a pena.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.