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Magreza em doses diárias

 

Por Filipe Moraes e Julia Teixeira

 

Arte: Giovanna Castro

No livro “Mito da Beleza”(1990), Naomi Wolf mostra que o ideal estético funciona como instrumento de controle social, transferindo a opressão das leis para o corpo das mulheres. Essa lógica se mantém na cultura da magreza e na medicalização do corpo, com as “canetas emagrecedoras” prometendo autocuidado enquanto lucram com a insatisfação corporal.

Ramon Marcelino, endocrinologista, explica que as “canetas” agem nos mecanismos que controlam a fome e a saciedade. “Compostas por semaglutida, imitam o hormônio GLP-1, produzido no intestino após as refeições, enviando sinais de saciedade ao cérebro”.

Apesar da eficácia, o uso sem prescrição é arriscado. Segundo Ramon, os efeitos colaterais incluem náuseas, refluxo e constipação. Podem ocorrer perda de massa magra, queda de cabelo e, mais raramente, pancreatite. O tratamento deve ser acompanhado por profissionais e associado a uma rotina saudável, já que o medicamento não queima gordura.

Laura Ronson, que está no seu terceiro tratamento com o auxílio de remédios, conta que a rotina atual ajuda no processo. “Não foi só o remédio: alimentação, exercícios e outra maneira de me relacionar com a comida também fazem parte”. 

Para Laura, a estética foi determinante para iniciar o tratamento. Segundo estudo da plataforma estadunidense DrFirst, especializada em saúde e bem-estar, as prescrições do remédio cresceram 150% nos Estados Unidos entre dezembro de 2022 e junho de 2023, impulsionadas pelo marketing viral nas redes sociais. Famosos transformaram o uso em símbolo de emagrecimento rápido, estimulando a febre das canetas.

Criadas para tratar diabetes tipo 2, essas drogas causam perda de peso e, atualmente, são usadas para estética. A fabricante então lançou versões para combater a obesidade e investiu em marketing. Um estudo da revista “Demetra” sobre as capas da “Boa Forma” de 2015 revela que a mídia feminina costuma associar magreza à beleza, saúde e sucesso. O reflexo disso ainda permeia o cotidiano e os dados: segundo o relatório de inclusão de tamanhos, feito pela Vogue Business em 2025, apenas 2% das modelos usavam tamanhos médios nos 198 desfiles e apresentações analisados.

As imagens reforçam o ideal de um corpo jovem e perfeito, sugerindo que alcançá-lo é só questão de esforço. “Quando repetimos o que é o corpo bonito e vendemos fórmulas mágicas, reproduzimos um ideal inalcançável. Isso produz crises ansiosas, depressivas e transtornos alimentares”, afirma a psicóloga Liane Dahás.

Contribuição: Brenda Vieira, estudante de jornalismo

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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