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Memórias ao vento

 

Por Jennifer Perossi e Matheus Bomfim

 

Arte: Yasmin Andrade

“Eu me sinto uma inútil”, diz Luciana do Rocilo, sobre a sua relação com a mãe. “Damos comida para ela, mas às vezes ela joga no chão e não quer comer”. A vendedora, que deixou o emprego de balconista e foi obrigada a abrir um brechó online, conta que as pessoas frequentemente se irritam com sua mãe e seu comportamento.

Não adianta irritação, sua mãe possui Alzheimer em estágio intermediário. Seu cérebro sofre com o acúmulo de “placas” da proteína beta-amiloide que se formam e prejudicam a comunicação entre os neurônios. Como conta Claudia Suemoto, geriatra “por começar nos neurônios do hipocampo, a alteração de memória é um dos primeiros sintomas”. A progressão para outras regiões do cérebro causa a perda de funções fisiológicas. O estágio final, após cerca de dez anos, consiste na deficiência do sistema imunológico, que leva à morte em decorrência de pneumonia ou infecções comuns.

A frustração de Luciana é recorrente entre cuidadores, conta Tamires Alves, coordenadora de grupos de apoio da Associação Brasileira de Alzheimer: “Eles precisam deixar de trabalhar para ficar integralmente nos cuidados. Por isso, passam por isolamento social”. A gestão financeira, assunto das rodas de conversa da ABRAz, se torna um grande desafio, ainda mais com o alto preço dos remédios.

Antes da molécula Donanemabe, anticorpo que atua na redução das placas beta-amiloide, receber aprovação pela Anvisa em 2025, a aquisição custava cerca de R$500 mil por 18 meses do fármaco importado. Com a aprovação, o custo caiu para US$ 27 mil por ano. Segundo Raphael Spera, neurologista, o tratamento ainda é ponderável: “Tenho que ser ético e dizer que ainda não há um custo-efetivo que justifique um paciente, por exemplo, vender a casa para conseguir recursos para o medicamento.”

A comunidade científica se esforça para combater o Alzheimer: há 138 drogas sendo testadas em humanos, incluindo canetas emagrecedoras e uma vacina que força a produção de anticorpos que combatem as proteínas, aponta a Universidade de Nevada. Para Tamires, os tratamentos não farmacológicos são importantes. A estimulação cognitiva feita a partir do diagnóstico precoce atrasa a evolução da doença nos estágios iniciais e intermediários. Um estudo de Suemoto indica que reduzir fatores de risco como tabagismo, baixa escolaridade e sedentarismo pode atenuar em até 60% a ocorrência da doença no Brasil.

A redução da incidência só pode acontecer quando a população conseguir “quebrar o estigma e o preconceito sobre envelhecer”, conta Tamires. O maior tratamento para a doença é a difusão do conhecimento e a quebra do tabu sobre o tema, diz.

Contribuição: Damaris do Nascimento, cuidadora da mãe com Alzheimer durante dez anos

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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