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Por que você abriu?

 

Por Beatriz Haddad e Sarah Kelly

 
Arte: Bárbara Aguiar

Ha! Que flagra! O que te levou a abrir um claro! Impróprio para ler uma hora dessas? Se você ainda escolhe clicar no botão de “estou ciente e quero continuar”, talvez esteja cedendo àquela tendência antiga de navegar contra a maré. Desde crianças, todos são naturalmente atraídos para a desobediência. Que atire a primeira pedra quem nunca colocou o dedo na tomada, dormiu depois do horário permitido ou comeu um doce escondido.    

A vida adulta exige que esses hábitos sejam deixados para trás, num policiamento constante: estude, chegue no horário, não fale palavrão e nem ouse vestir essa mini saia. Pelo menos é isso que a sociedade espera. Na tentativa de se encaixar, você precisa ocultar seus gostos e dançar a balada do falso eu.

Os primeiros rascunhos desta edição falavam desse não pertencimento inevitável de quem se julga inadequado ao seu tempo ou daqueles que guardam um prazer secreto. Percebemos que nenhuma dessas experiências é de fato individual – o impróprio está por toda parte. 

Há momentos em que o inadequado se torna aceitável e outros nos quais o controverso é silenciado. As páginas seguintes buscam explorar essas situações do cotidiano, seja na cidade inabitável, mas vendida como ideal ou nos limites ultrapassados no trabalho. 

O objetivo do claro! Impróprio é chegar no limite, desafiar a retórica e concluir que, no final das contas, todos somos impróprios em algum lugar, ainda que não sejamos capazes de admitir. 

Me diga com quem andas

 

Por Camila Paim

 

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Arte por Júlia Carvalho

 

No instante em que chegamos ao mundo, estamos completamente desamparados e usamos o choro como uma forma de pedir ajuda e interagir. Nós somos dependentes do núcleo familiar e, por consequência, alienados às vontades deste. Com o desenvolvimento das funções psicológicas superiores (percepção, consciência, vontade, por exemplo), nossas opiniões e gostos vão se formando, a partir de trocas com outras pessoas. 

 

Essas trocas têm potencial de criar laços tão fortes a ponto de considerá-las relações familiares. É o caso de Paula, que desde pequena teve a música como a protagonista de sua vida, e Luciano, que gosta de futebol desde a barriga da mãe. Ambos, agora adultos, seguiram seus instintos iniciais e hoje fazem parte de uma escola de samba e de uma torcida organizada, respectivamente. Apesar de todo o esforço por trás das apresentações dos dois grupos, nenhum deles enxerga isso como um trabalho. 

 

Os laços que estabelecemos semeiam o pertencimento e formam uma rede de suporte e confiança, que traz autoestima e criatividade para a resolução de problemas.  O sentimento de pertencer é fundamental na construção da nossa identidade, como explica a psicóloga Alessandra Xavier. Nas baterias universitárias, por exemplo, sempre procuram pessoas para ensinar a tocar instrumentos e Paula se dispõe a ajudar. 

 

Face à importância da sociabilidade para o ser humano, por que alguns de nós tendem a se isolar? Para isso, Alessandra revela dois motivos principais: o indivíduo que passa por uma experiência traumática e busca se retrair da sociedade, ou aquele que adota uma postura narcísica e auto suficiente, tendo dificuldade em aceitar diferenças e criar laços. Em ambos os casos, a pessoa tende a não acreditar em seu potencial de ser verdadeiramente amada, relata Alessandra. 

 

As experiências traumáticas, violências e exclusões refletem negativamente na nossa capacidade de pedir ajuda. Ao encontrar minha identificação, outros iguais a mim, minha pertença é estabelecida e reafirmo meu lugar, autoestima e direitos. Em dois momentos distintos da vida acadêmica, Gilberto e Gabriela procuram fazer a diferença. Gilberto é professor e por meio da associação dos professores, busca a redemocratização dos sindicatos. Gabriela é estudante e no projeto que faz parte desejam a valorização da presença feminina na ciência. Com agendas diferentes, ambos encontraram nichos que lhe inspiram e motivam a lutar pelo que acreditam. 

 

Bateristas, torcedores, professores e estudantes. São situações distintas que refletem como grupos que nos encaixamos nos fortalecem, nos protegem e, principalmente, ampliam nossa existência.

 

Colaboraram: 

Alessandra Xavier, professora de psicologia na UECE E doutora em Psicologia Clínica, com estudos em subjetividades e saúde mental, e também papéis e estruturas sociais

Gabriela Ferreira, estudante de química na Universidade Federal do Paraná (UFPR), participa do projeto de extensão Meninas e Mulheres na Ciência, que conta com 40 participantes entre alunos e professores

Gilberto Rodrigues, membro da atual gestão da Associação de Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (ADUFEPE) e professor no Departamento de Zoologia do Centro de Biociências da UFPE

Luciano Venâncio, estudante de administração pública; durante 6 anos, foi presidente da Torcida Bamor, uma torcida organizada do Esporte Clube Bahia

Paula Azzam, formada em comunicação social pela ESPM e em produção musical pelo Centro Acadêmico Belas Artes e participa da Escola de Samba Colorado do Brás

 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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