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Por que você abriu?

 

Por Beatriz Haddad e Sarah Kelly

 
Arte: Bárbara Aguiar

Ha! Que flagra! O que te levou a abrir um claro! Impróprio para ler uma hora dessas? Se você ainda escolhe clicar no botão de “estou ciente e quero continuar”, talvez esteja cedendo àquela tendência antiga de navegar contra a maré. Desde crianças, todos são naturalmente atraídos para a desobediência. Que atire a primeira pedra quem nunca colocou o dedo na tomada, dormiu depois do horário permitido ou comeu um doce escondido.    

A vida adulta exige que esses hábitos sejam deixados para trás, num policiamento constante: estude, chegue no horário, não fale palavrão e nem ouse vestir essa mini saia. Pelo menos é isso que a sociedade espera. Na tentativa de se encaixar, você precisa ocultar seus gostos e dançar a balada do falso eu.

Os primeiros rascunhos desta edição falavam desse não pertencimento inevitável de quem se julga inadequado ao seu tempo ou daqueles que guardam um prazer secreto. Percebemos que nenhuma dessas experiências é de fato individual – o impróprio está por toda parte. 

Há momentos em que o inadequado se torna aceitável e outros nos quais o controverso é silenciado. As páginas seguintes buscam explorar essas situações do cotidiano, seja na cidade inabitável, mas vendida como ideal ou nos limites ultrapassados no trabalho. 

O objetivo do claro! Impróprio é chegar no limite, desafiar a retórica e concluir que, no final das contas, todos somos impróprios em algum lugar, ainda que não sejamos capazes de admitir. 

Balada do Falso Eu

 

Por Davi Madorra

 
Arte: Ester Nascimento

Um bebê chora de fome, seu cérebro é pequeno e incapaz da palavra, mas aposto que ele pensa, “eu tenho tanta fome que vou morrer”. E sempre que chora, a mãe ignora seus prantos: quer educá-lo para não ser assim, mimado e chorão. É somente no cessar das lágrimas que ela lhe traz a recompensa, veja só, uma mamadeira cheia de mingau para o bebê que já começa a entender a indecência de seus primeiros desejos. “Na infância, somos atravessados pelo mundo, pelos gestos de nossos pais que contrariam instintos’’, afirma a psicanalista Thânis Kristine. Depois disso, não há jeito! Sufocamos versões-de-nós com o travesseiro do recalque, desovamos o cadáver no inconsciente, e esperamos as neuroses. 

Mas não é de todo mal e talvez haja certo charme nisso de não ser o que se é. A pessoa mais charmosa que já conheci, conheci enquanto não era. Uma academia de boxe e esse homem gritava com os alunos. A voz grossa, eu queria ser como ele, masculino e maligno, mas ao fim da aula, descobri, era mentira: “Escondemos versões, mas matá-las é impossível”, explica Kristine. E ele agora era o fofinho rapaz que veio me cumprimentar, tão educado e risonho. Anos depois, perguntei o motivo da mudança, e ele respondeu que é pra ser levado a sério. “Sem pulso firme, ninguém obedece.”. 

Lembrei da história do lutador Jean Silva, que quebrou os pulsos durante uma luta, e continuou brigando. Engraçado, lembrei disso também ao ler As Cinco Lições da Psicanálise, no qual Freud diz que reprimir pulsões é como expulsar de uma aula alguém que cochichava – quebrando-lhe os pulsos? – e de repente o excluso começa a bater na porta pelo lado de fora, brigando para que o deixem voltar – com pulsos quebrados? – atrapalhando bem mais. Parece certo. Ainda que o bebê pare de chorar, sente vontade de chorar; ainda que o boxeador fale tão sério, sente vontade de sorrir. 

“Imagina fingir o tempo todo?”, foi o que me disse Clarisse Borges, estudante e ex-bailarina. Ainda jovem, com cérebro de tamanho médio, começou a dançar, e interpretou um personagem agradável às exigências do Balé. “Rivalidade, dietas, disciplina. Eu fingia gostar disso pois não queria admitir que ‘meu sonho’ não tinha nada a ver comigo”. Em 2022, admitiu, e voltou ao Brasil. Há mesmo de haver um tempo em que admitimos, uma hora em que quebramos. Em que, com cérebros incapazes do inconsciente, pensamos, “eu tenho tanta fome que vou morrer”.

Seguir padrões também é um direito

 

Por Mariana Cotrim e Mayumi Yamasaki

 

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Arte: Mariana Arrudas; fotos: Mariana Cotrim e Mayumi Yamasaki

 

 

Em 2018, a blogueira Bruna Vieira postou no Instagram uma foto com os cabelos lisos, o suficiente para que internautas fossem aos comentários criticá-la pela escolha, que não condizia com o processo de transição capilar pelo qual passava.

 

A resposta dos seguidores de Bruna mostram como é usual haver críticas sobre a escolha de alguém. De acordo com Nadini Brandão, especialista em psicologia clínica, socialmente, sofremos imposições para aceitar determinadas ideias.

 

Além disso, há o costume de colocar a identidade como uma caixa fechada, o que leva à crença de que ser de certo grupo, ou apoiar uma ideia, não dá abertura para um comportamento diferente do esperado. Bruna, que mostrava em seu perfil o processo para aceitar os cachos, foi criticada por aparecer uma vez com os cabelos lisos, simplesmente por ir contra a expectativa de quebrar esse padrão. Mas ela não é a única que sofre por isso.

 

Izadora Pigozzo adora seguir blogueiras que prezam o amor ao próprio corpo, magro ou gordo. Mas está tentando emagrecer. Ao perder peso, sentiu-se hipócrita por acompanhar pessoas que falam em aceitar-se e, ao mesmo tempo, resistir a essa ideia. Eduara Terra acha impossível lidar com as pressões, que vêm de todos os lados: o da autoaceitação e o da manutenção de padrões antigos, como o cabelo liso, que a agrada mais que seu cabelo natural, volumoso.

 

Uma simples mensagem sobre o poder de “aceitar-se como é” nas redes sociais não aborda as singularidades da autoaceitação. Quando discute-se o tema online, o espaço para conflitos é potencializado e, no meio dos disparos, pessoas como Izadora e Eduara ficam confusas.

 

Diana Bado também está no meio dessa encruzilhada. Quando se depila, sente desconforto entre as amigas da faculdade, que não costumam fazer o mesmo. Por outro lado, quando deixa os pelos das axilas crescerem, as viagens de ônibus são constrangedoras,  pois todos a olham assim que levanta os braços para se segurar. 

 

É difícil suprir todas as expectativas externas. Por isso, o debate que envolve a quebra de padrões deve estar relacionado a uma busca individual e consciente. O problema é que, no mundo virtual, o assunto é tratado majoritariamente sob o enfoque da questão estética, e aceitar-se vai muito além disso, de acordo com Nadini.  

 

Na visão da especialista, o autoconhecimento visto de forma global significa compreender a si mesmo e olhar para si como um ser complexo, e esse exercício extrapola a parte estética. É a partir de uma análise mais profunda da própria imagem, comportamento e papel social que alguém pode se conhecer o suficiente para saber o que quer mudar ou preservar.

 

No entanto, a cientista social Aline Tusset Rocco, lembra que as pessoas só são, de fato, livres para escolherem o que querem fazer com os seus corpos, quando sabem de onde vêm os padrões estéticos e comportamentais que as influenciam. Isso porque os gostos são formados socialmente: aprendemos que o liso e o magro são bonitos, e por isso eles ainda são parte hegemônica de expressões, o que os torna padrões. 

 

O ideal, na opinião da Aline, seria que todos os tipos de corpos tivessem o mesmo nível de exposição para que a escolha fosse mais justa. Como isso não acontece na prática, o discurso da autoaceitação torna-se mais forte hoje, e resistir a ele pode ser visto como uma afronta à quebra de padrões.

 

O movimento que caracteriza o processo de autoaceitação leva um indivíduo a conhecer-se e mudar a partir do que lhe faz sentido. Izadora passou por um processo até entender que pode, aos poucos, querer ser magra, e que não precisa se sentir mal por isso, se a fará bem. Com a consciência de onde vêm os padrões, manter-se neles não significa necessariamente resistir ao processo de aceitar-se.

 


Colaboraram

Aline Tusset de Rocco – mestra em Ciências Sociais, focou sua pesquisa na relação de mercadorias de consumo com a construção de identidades em meios digitais.

Nadini Brandão de Souza Takaki – Formada em Psicologia Clínica na Abordagem Centrada na Pessoa, mestre e doutoranda em Psicologia pela Puc-Campinas.

*Feito com base nos relatos de Diana Bado, Izadora Pigozzo, Eduara Terra, Maria Eduarda dos Santos e Vânia Cristina Selarin.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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