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Três pulos à brasileira

 

Por Luise Homobono

 

Arte: Giovanna Castro

“São Longuinho, São Longuinho, se eu achar dou três pulinhos.” A frase ecoa há gerações nos lares dos brasileiros. É oração, promessa e, para muitos, garantia de que o que sumiu vai aparecer.

Segundo a tradição, Longino foi um soldado romano que perfurou o lado de Cristo na crucificação. Ao ver o sangue e água jorrarem, converteu-se e passou a pregar o Evangelho até ser morto por sua fé. Não há registros históricos sobre sua vida, é uma narrativa transmitida pela tradição oral. “Muito se fala sobre o santo, mas essa é a versão mais aceita”, explica o padre João Batista Mota, responsável pela única igreja do Brasil dedicada a São Longuinho, em Guararema, na área rural de São Paulo.

O padre conta que a associação do santo com as “coisas perdidas” teria surgido séculos depois. O papa Silvestre II, ao buscar documentos sobre Longino, para oficializar a história do santo, prometeu agradecer se encontrasse uma prova de sua existência. Ao encontrar o relato guardado, atribuiu-o à intercessão do santo. Desde então, São Longuinho  ficou conhecido como o patrono dos esquecidos. 

Débora Van Pütten lembra de seguir o costume desde criança. “Nunca lembro de ter aprendido. Só sei que ele sempre funcionou”, conta. A mãe, Maria Eugênia, confirma: “Nos brinquedos perdidos, o pedido era simples e os três pulinhos vinham na hora.”

Em Gênova, Cecília Freitas e a irmã levaram a promessa a outro nível. Elas começaram a aumentar a quantidade de pulos conforme o desespero e prometeram trinta, porque queriam muito achar o prato da mãe. O santo atendeu, e Cecília cumpriu a promessa ali mesmo. “Os italianos acharam que era uma dança”, ri.

Para o padre João, o sucesso de São Longuinho no país reflete o jeito brasileiro de viver a fé. “O povo mistura religiosidade e afeto. Agradece com gestos, cria suas próprias formas de devoção. É expressão de carinho, não superstição.”

Quando o perdido reaparece, ninguém esquece do combinado com o santo. Mas se esse for o seu caso, leitor, agora é a hora certa para dar os três pulinhos. São Longuinho, São Longuinho, São Longuinho…

Contribuição: Marco Antonio Souza, diácono

CRENÇAS OCULTAS?

 

Por Júlia Moreira

 

Arte: Alessandra Ueno

Seitas, cerimônias secretas, organizações fechadas. A forma com que o outro lida com o divino e a espiritualidade pode causar curiosidade ou aversão de quem não conhece ou não se identifica. Quando se trata de tradições religiosas menos habituais, mistérios e teorias do que ocorre dentro dos templos e sobre as pessoas que os frequentam podem surgir. 

É como se houvesse uma porta guardando aquela tradição. Se aberta de uma vez, pode ofuscar, como sair de um ambiente escuro para um muito claro. Algo que atinge não só quem está de fora, mas quem está dentro também.

Comumente chamado de “Mórmon”, Daniel Costa, integrante da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conta que templo é um lugar sagrado e até membros batizados precisam passar por um processo de dignificação antes de entrar, o que pode colaborar para a sensação de mistério em torno da religião, mas não que haja algo escondido.

Durante a pré-adolescência, ele diz que omitia sua religião dos amigos. De roupa social e cabelos penteados, ele não gostava dos apelidos que recebia. “Eu voltava da Igreja aos domingos e logo tirava a gravata”.

Ser adepto de uma religião que envolve personalidades conhecidas, como Tom Cruise, membro da Scientology, gera ainda mais curiosidade. Diretora da unidade de Cientologia do Tatuapé, Luciana Santos conta que não existem rituais ocultos, mas que por ser menos tradicional, pode causar medo. “Você tem que estudar, testar e ver por você, pois ninguém vai impor. Se cada um permitir, chamamos todos para nossas atividades”.

Para Daniel e Luciana, essas concepções populares se dão pela falta de esclarecimento e distanciamento por parte da população que acaba confundindo-os com outras religiões ou dizendo que fazem parte de uma seita. Entretanto, eles afirmam, “não somos um grupo fechado”. 

Apesar dos estigmas relacionados a essas restrições, há tradições religiosas intencionalmente fechadas, chamadas de “Escolas Iniciáticas”, como a Maçonaria. Paulo Henrique Lopes, doutor em Ciência da Religião, diz que nestes casos, o limite é colocado na própria estrutura institucional e hierarquização destas tradições.

Além disso, ele explica que até mesmo grupos autodeclarados ou vistos como abertos podem ter instâncias vedadas e desconhecidas. “É uma dinâmica análoga ao de grupos culturais que se organizam em determinada comunidade. E toda comunidade é relativamente fechada”.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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