
13 de março de 2020. minha sobrinha me pergunta como foi essa época. digo que foi “caótica”, mas no fundo quero dizer interminável.
passado um ano desde o lockdown, minha casa, minha mente e minha rotina mudaram que nem a disposição dos móveis da sala de estar quando chegou a televisão nas casas dos brasileiros.
no trabalho, precisava ver milhões de planilhas todos os dias. coitados dos meus olhos; de tanto apertá-los, olhava muito menos para as coisas à minha volta. eles começaram a ficar cada vez mais secos e eu não conseguia chegar perto da minha tela sem que os números e todas as letrinhas se misturassem.
em média, um ser humano pisca 15 vezes por minuto; no computador, pisco muito menos. a vida passamaisrápido.
passados meses, eles ficaram cansados. a exaustão veio primeiro de tanta informação. eu não conseguia desligar. minha ansiedade era tanta que o doomscrolling, com seus mil-e-um-persona- gens-fictícios-influencers-melhores-que-eu-hi- ppies-meia-boca, além de me prender na cama, era a única coisa que me fazia dormir. depois, logo eu, que me gabava por nunca ter usado óculos e por não ter me submetido a armações de acetato, fui atingido pela miopia. bom, pelo menos eu e mais 30% da população global [Nature, 2024].
depois, veio a diplopia – que deixa minha visão duplicada, mais a ansiedade, mais a depressão. tudo vezes dois. explico para minha sobrinha que as doenças ficaram pra trás. “ainda bem, tio! pelo menos você não tá igual o vovô”. mentira.
hoje, 5 de maio de 2023, a OMS decidiu que pandemia acabou. meus olhos ainda doem. minha casa virou meu escritório. minha cozinha, meu refeitório; minha varanda, meu fumódromo. e no quarto ao lado, meu pai; cego. já perdi a conta de quantas vezes digitei numa conversa do trabalho algo que queria dizer para ele. como me confundo tanto assim?
trabalhando 100% do tempo em casa, já chorei às 9h30 da manhã na sala de jantar por um feedback de baixa produtividade. sozinho. e com a câmera desligada.
preso numa gaiola, sinto que meus arredores são a projeção do meu futuro e estou preso num ciclo vicioso de trabalho. num limite comum do ver e não ver, ou do ver e escolher não ver. tu-do ve-zes do-is num brilho cego de paixão e fé, faca amolada.
hoje não vejo mais os filmes longuíssimos em preto e branco que eu tanto amava. também não vejo séries e muito menos leio livros. prefiro ficar de olhos fechados ou guardá-los para algo que eu realmente precise. e a culpa nem é do meu computador ou do meu celular, a culpa é meu comportamento. mas como mudá-lo se meu mundo não muda também?
afinal, sou só um ser humano.
contribuição: Beatriz Gimenes, Erick Silva, Humberto Guimarães e Marcelo Graglia