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não me acorde

 

Por mirela costa e sarah kelly

 
arte: beatriz garcia e diego facundini

em uma noite qualquer, ela decide tentar. se deita, fecha os olhos e imagina que está subindo um lance de degraus. ao final da escada, vê uma porta. calma, só devo abrir se estiver pronta, diz para si mesma. quando finalmente o faz, liz* chega “lá”. sente um clarão muito forte. seus olhos se acostumam e então percebe que não está no mundo que sempre conheceu. é assim que a tiktoker narra sua primeira experiência com o shifting — conceito baseado na visita a realidades paralelas.  

a partir da auto-hipnose, a prática visa a vivência em uma realidade desejada — que pode ser desde uma versão melhorada da vida neste plano até um universo fictício, como o de harry potter. cativando principalmente adolescentes, o shifting viralizou nas redes sociais durante a pandemia, como alternativa à reclusão.

a técnica não tem comprovação científica e seus efeitos são variados, segundo a psicóloga ana maria rios. é positiva caso funcione como imaginação: “a fantasia é valiosa quando promove experiência. não tem nada criado que não tivesse sido fantasiado antes”. o sinal de alerta acende quando o hábito vira uma fuga do mundo real, podendo levar ao distúrbio de devaneio excessivo.

existem, no entanto, formas mais conhecidas de se deslocar para outros planos, como a projeção astral — em que a consciência se desprende do corpo físico durante o sono, vivendo suas próprias experiências em uma dimensão espiritual. 

embora as viagens da consciência pareçam espantosas aos mais céticos, todos nós vagamos pelo espaço liminar entre o consciente e o inconsciente. durante os sonhos, a atividade cerebral produz centenas de imagens, provocações e ideias. você pode até não se lembrar delas da mesma forma lúcida como os shifters dizem se recordar de suas experiências, mas a psicóloga garante que “a consciência sempre retoma os materiais inconscientes em busca de soluções aos dilemas da vida”. 

se atrasar para uma reunião no trabalho, voltar às aulas chatas de matemática na escola ou até correr de monstros de um filme de terror: são inúmeros os cenários. cotidianos, místicos ou premonitórios, os sonhos transcendem a dimensão consciente e trazem à tona conteúdos das profundezas da psique. rios destaca que, ao retomar o que sonhamos, como em um “reflexo neurológico de fuçar o desconhecido”, somos capazes de encontrar no inconsciente diferentes formas de renovar perspectivas e visões de mundo.  

além das funções psíquicas, sonhar traz benefícios como fixação de memórias, estímulo à criatividade e flexibilização cognitiva. mas como desfrutar do inconsciente se temos sonhado menos? uma pesquisa de 2022 na revista sleep epidemiology apontou que 65,5% dos brasileiros dormem mal, o que está associado a diminuição da qualidade do sono REM, fase do descanso em que acontecem os sonhos vívidos.

esse déficit, causado por um estilo de vida acelerado, gera mais do que prejuízos individuais. perdemos também a chance de acessar descobertas coletivas, que emergem do compartilhamento simbólico e da reflexão trazida pelos sonhos, como afirma o cientista sidarta ribeiro: “que futuro sonhamos para nós, se nem temos tempo para imaginar uma realidade diferente dessa que vivemos?”.

colaboradores: fernanda côrrea, produtora de conteúdo shifter; patrícia francisco, projetora astral; rodrigo krause, médium; sérgio arthuro e eric amaral, professor e doutorando do instituto do cérebro da ufrn

*nome alterado para preservar identidade da entrevistada

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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