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Paciência é perda de tempo?

 

Por Bruna Correia e Gabriela Varao

 

Arte: Pedro Malta

Dentro da tela, as horas parecem minutos. Tudo acontece rápido, fácil, imediato. Fora dela, o tempo parece devagar. Assistir a um filme inteiro? Difícil. Ler um livro? Um desafio. Cozinhar? Demora demais. É como se o mundo real tivesse perdido a velocidade certa e as pessoas, a paciência.

Lucas Sales passa horas nas redes sociais. “Nunca mais uma fila foi entediante para mim”, diz o designer. Para ele, “o tempo de espera fora de uma tela é um inferno”.

Esse comportamento tem nome: nomofobia, o medo de ficar desconectado. Lucas explica que o TikTok funciona como uma aposta, em que o usuário desliza esperando que o próximo vídeo seja mais interessante. E quase sempre é. 

A psiquiatra Julia Khoury compara os vídeos curtos às drogas, ao dizer que “é como o crack — quanto mais rápido e intenso o pico de prazer, maior a chance de vício”.

Em sua tese de doutorado, a psiquiatra comparou cérebros de dependentes digitais com os de usuários de drogas como a cocaína e encontrou alterações semelhantes.

Segundo a psiquiatra, o consumo de conteúdos curtos e rápidos impede que o cérebro desenvolva a capacidade de manter o foco, habilidade de concentração que é aprendida. “Se desde cedo a pessoa só é exposta a estímulos rápidos, ela não vai conseguir se concentrar por muito tempo em uma única tarefa”.

Pesquisa das universidades de Portsmouth e Surrey, no Reino Unido, analisou como hábitos noturnos influenciam o vício em redes sociais. Foram entrevistados 407 participantes, de 18 a 25 anos, que responderam a testes sobre padrão de sono e uso de tecnologia. Os resultados mostraram que quem dorme mais tarde tende a se viciar mais, especialmente quando há solidão e ansiedade.

Conforme a Comscore, empresa que analisa audiência de mídias, o Brasil é o país latino-americano que mais passa tempo online. Em 2024, os brasileiros passaram 70 bilhões de horas nas redes sociais.

Com mais tempo no mundo digital, a psicóloga Leihge Roselle afirma que “o nosso tempo de conservação da atenção está muito fragilizado”. Ela explica que a dificuldade em escutar áudios ou assistir a vídeos na velocidade normal pode ser um indicativo de uma disfunção na atenção concentrada.

As plataformas também são responsáveis pelas horas de tela. Fernanda*, desenvolvedora no TikTok, diz que curtidas e compartilhamentos ajudam o algoritmo a prever preferências. “A retenção de usuários deveria ser consequência de uma boa experiência, não o objetivo final”, defende Letícia Maestri, designer de interfaces. Ela explica que para muitas empresas, quanto maior o tempo de uso, maior é o lucro e mais sofisticadas são as estratégias para segurar a atenção.

*nome fictício

Já pensou em uma internet que faça relaxar?

 

Por Mayara Paixão

 

 

Pesquisas já têm mostrado: a internet e a tecnologia podem influenciar em fatores como a ansiedade humana. No mundo hiperconectado que vivemos, muitas pessoas encontram uma das soluções para esse problema no próprio celular. Pode parecer contraditório, mas te explicamos como os chamados ‘aplicativos para relaxar’ têm sido usados como válvula de escape para os gatilhos desencadeados no mundo virtual.

 

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Favor não se desconectar

 

Por Leticia Fuentes

 

 

Jovens de 18 a 34 anos (mais conhecidos como geração millennial) passam, em média, 6 horas e 19 minutos por dia conectados às redes sociais. É o que revelou um relatório anual divulgado no início do ano pela empresa americana Nielsen.

 

Como uma entre os 1,8 bilhão de millennials espalhados pelo globo, decidi desafiar os dados e lançar meu próprio “experimento”, usando a mim mesma como cobaia: sobreviver a 24 horas sem internet. Recrutei também dois voluntários, Catarina e Daniel, para me ajudar na empreitada (quase) científica.

 

Catarina foi a primeira a desistir. Depois de algumas horas de abstinência, me enviou uma mensagem — que só vi no dia seguinte — dizendo que fracassara. Tecnologia um, millennials zero.

 

Daniel chegou até o final, mas com um pouquinho de dificuldade. Ao acordar, seu primeiro impulso foi alcançar o smartphone ao lado da cama, mas conseguiu resistir e mantê-lo desligado. Concluiu que chegar ao almoço de família sem o Google Maps é uma tarefa quase impossível — mas conseguiu sobreviver para retornar à segurança da internet em seguida.

 

Quanto a mim, estava me sentindo bem durante as primeiras horas. Talvez conseguisse ficar assim por um bom tempo, pensei. Mas fui interrompida por uma ligação.

 

“Por que você não respondeu o post que te marquei no Facebook?”, pergunta uma colega.

 

“Porque não vi”, respondo. O aborrecimento na voz dela dá lugar à preocupação. Sinto como se estivesse sendo interrogada em uma consulta médica.

 

Ao completar o período longe das redes, pego o celular e vejo que outros também mandaram mensagens, preocupados. Afinal, se você passa mais de três horas sem responder, alguma tragédia deve ter acontecido.

 

Avaliando minha experiência, tenho três considerações a fazer. A primeira é que a abstinência virtual parece ser uma patologia grave — quer dizer, médicos mais velhos ainda não reconhecem seus sintomas, mas devem estar desatualizados. Todo millennial sabe das sérias consequências desse mal. Melhor não arriscar. Inclusive, recomendarei que Daniel faça alguns exames, por precaução.

 

A segunda é que millennials tratam a desconexão como uma traição — por isso, fiscalizam a vida alheia o tempo todo. Afinal, se as pessoas começarem a se desconectar, quem dará a elas a atenção que precisam? Proibir que você se desligue pode parecer uma decisão arbitrária, mas é para o seu próprio bem — e da sociedade também.

 

E a terceira é que, se alguém, mesmo assim, quisesse burlar o sistema (por sua conta e risco, claro), a melhor maneira seria forjar sua morte. Bastariam dois dias sem usar a internet — nenhum millennial acreditaria que é possível sobreviver a isso.

 

Como se fosse máquina

 

Por William Nunes

 

 

A câmera

 

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Olá. Sou a Sony, câmera de um prédio de classe média da zona sul de São Paulo. Preciso contar uma coisa que tenho reparado nas pessoas daqui. É engraçado… elas não pegam mais elevador juntas. Acho que esse tal de capitalismo transformou todos em uns robôs autosuficientes, individuais demais.

 

Outro dia, a Sheila, moradora daqui, estava cheia de compras na mão e não estava conseguindo abrir a porta do elevador. Logo atrás vinha o seu Antônio. Mas ela não pediu ajuda, não. Se apressou em colocar as sacolas pra dentro do cubículo e ó… Se mandou pro nono andar. Ela conseguia sozinha! Outra vez foram a Maria do Rosário e a Nena. Eu só observava pelo infravermelho. As duas foram até o vigésimo primeiro mexendo no celular. E nem falaram do tempo! E aí se deram um boa noite, tipo quando o Windows desliga, sabe? Automático. Fico pensando se elas não estavam preocupadas demais com esse tal de dinheiro e esqueceram de se falar, né? Porque é disso aí que muitos humanos precisam pra sobreviver. Sou só uma câmera de segurança, mas sei disso. E me contaram que ai! de quem não tiver… não sobrevive! Então deve ser normal a Nena e a Rosário não terem se falado. Elas precisam sobreviver.

 

É engraçado… o elevador devia unir mais as pessoas daqui do prédio. Parece que tudo o que essa tecnologia e esse tal de capitalismo tocam, eles separam, transformam em máquina. Até os humanos.

 

Mas, enfim, não sei do que estou falando. Eu sou só uma câmera de segurança…

 

Precisamos teclar

 

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Filho, precisamos ter uma conversa. Você não está colaborando com as coisas da casa. Não é justo eu trabalhar o dia inteiro, chegar, e a casa estar uma zona. Eu não aguento mais essa situação e, se as coisas não mudarem, vou ter que tomar algumas atitudes e cortar alguns privilégios, porque a casa é minha. Outra coisa: a gente anda muito afastado, você não conversa direito comigo, não conta pra mim como andam as coisas quando tento puxar papo. Sou sua mãe e acho que mereço um pouco mais de respeito. Vivemos debaixo do mesmo teto e, por mais que as coisas estejam difíceis, somos só nós dois e precisamos um do outro. A gente precisa conversar mais, porque nessa casa não tem diálogo.

 

Visualizada às 13h06

 

Pane

 

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Cinco em ponto. Funcionário 5246 da Volkswagem do Brasil. Era ele quem acordava o despertador. Iniciava. Escovava os dentes. Punha uma roupa. Calçava as botas. Dava um beijo na mulher e ia. Chegava. Batia o ponto. Entrava e agora só via metade dos colaboradores que via antes. A outra metade virou parafuso, metal, fluido em lugar de articulação. Segundo estatísticas, caíram pela metade também as oportunidades de se encontrar, conversar e integrar. O chefe agora o chama. “O funcionário 5246 está sendo desligado”. Pane no sistema.

 

*

 

Cinco em ponto. Funcionário 5247 da Volkswagem do Brasil. Era ele quem acordava o despertador…

 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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