o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, com mais de 2 milhões de procedimentos em 2024. apenas no ano passado, foram colocados 232.593 implantes de mama no país, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Cristiane Silva, mulher trans de 39 anos, morreu em outubro de 2024, no Paraná, depois de uma aplicação de silicone industrial nos seios. segundo a Polícia Civil, ela transferiu cerca de R$ 1.500 para um homem que realizava o procedimento irregularmente.
a cirurgiã plástica Wanda Massiere explica que “o silicone industrial não é para ser usado no corpo humano. ele migra pelos tecidos, se espalha pelo músculo, nervo e pele”. de acordo com a médica, “as próteses não são vendidas para qualquer pessoa e só podem ser compradas com receita médica. o que esses falsos profissionais fazem é outra coisa: injetam substâncias nocivas que não são próteses e podem acabar com a vida de qualquer pessoa”.
as próteses mais modernas que existem hoje são seguras, segundo a especialista em aumento de mama. elas são compostas por duas camadas: o elastômero, parte elástica que reveste a prótese e evita o vazamento, e o gel, que preenche e dá volume.“a textura das próteses mais tecnológicas é como uma jujuba: você aperta, é macia, mas, se cortar, não escorre, ela mantém a forma”, diz ela.
porém, é preciso ter condições financeiras. Daniela de Paula pagou cerca de R$ 8 mil para colocar suas próteses há 17 anos, o que corrigido aos valores atuais, seriam aproximadamente R$ 25 mil. sua motivação na época foi a insatisfação com o próprio corpo, e hoje, aos 47, ela diz que não se arrepende. “a cirurgia transformou minha autoestima. valeu a pena cada real investido”.
contribuição: Daniel Regazzini, Daniela De Paula, Wanda Elizabeth Massiere y Correa
Cortar, normatizar, violar
 
Por Julia Martins e Tatiana Couto
 
arte: Gabriela Varão
“seu filho vai nascer com uma aparência horrível, tem certeza que não quer abortar?”. foi o que Thaís Emília ouviu dos médicos no sétimo mês de gestação de seu filho Jacob, uma criança intersexo. segundo dados do DataSus, do Ministério da Saúde, de 2021 a 2023, foram registrados 1.198 nascidos vivos com o sexo “ignorado” na certidão de nascimento no Brasil.
Thaís discordou da sugestão, um genital diferente não justificaria o aborto. as pessoas intersexo nascem com gônadas, genitálias ou cromossomos sexuais atípicos, causadas por alterações genéticas ou hormonais.
a resolução 1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina (CFM) define que pacientes com anomalias de diferenciação sexual devem passar por uma avaliação precoce para a definição do gênero. depois do nascimento, os exames genéticos não definiram o sexo biológico de Jacob e a equipe médica concluiu que fazer uma vagina era mais fácil. Thaís e seu marido disseram não.
“no CFM se fala em uma urgência social de adequar esse corpo para ser menino ou menina”, explica a cirurgiã Mila Leme, “mas, dificilmente, essa genitália ambígua vai levar a algum dano ou agravar a saúde do paciente”, argumenta e defende apenas cirurgias de urgência.
em um caso atendido juridicamente pela Associação Brasileira Intersexo (ABRAI), um bebê nasceu com extrofia, malformação grave que expõe a bexiga e a uretra na superfície do abdômen. ele também era intersexo e possuía útero e testículos, mas sem genital externo definido.
sem o consentimento da mãe, os médicos fizeram uma vagina na criança. a cirurgia trouxe complicações e resultou em infecções durante seu desenvolvimento. aos nove anos, ela apresentava uma estatura menor que a média.
“é um debate muito complexo. nós pensamos no ponto de vista hormonal e fazemos um estudo especializado, mas ainda normatizamos os corpos muito cedo”, afirma Mila. ela aponta que a falta de pesquisas sobre as consequências psicológicas de cirurgias em pessoas intersexo é uma barreira para o avanço da pauta no país.
contribuição: Mila Torii Corrêa Leme, Thaís Emília
Sociedade inacessível
 
Por Julia Moura
 
Patrícia é uma jovem jornalista de 27 anos que, em decorrência de complicações em seu parto, tem paralisia cerebral. Ela não teve sequelas cognitivas, mas seu desenvolvimento físico foi comprometido e a mobilidade reduzida. Após quatro cirurgias, caminha com o auxílio de uma bengala em curtas distâncias planas. Para longos deslocamentos, utiliza cadeira de rodas com o auxílio de outra pessoa.
Não há, no entanto, pontos de ônibus perto de sua casa. Para chegar até o mais próximo, há uma ladeira muito íngreme, que ela não consegue vencer sem a ajuda da mãe. As calçadas também não a acomodam com seus buracos e desníveis. Diariamente, sua liberdade e independência lhe são roubadas pela falta de acessibilidade.
Juliano Araújo, estudante de psicologia de 27 anos, também apresenta o quadro de paralisia cerebral. Por sua lesão no cérebro ter sido mais branda, ele tem mais facilidade de locomoção e independência que a maioria dos demais portadores. Mas isso não o impede de sofrer no dia a dia. “O degrau do ônibus claramente não foi feito por alguém que entenda ou tenha nossas necessidades. Nos bairros é ainda pior, porque não há adaptações como as grandes plataformas. O veículo é muito alto e a calçada muito baixa”.
Patrícia e Juliano estão inseridos em espaços que não atendem às normas de acessibilidade. Lei desde 2000, a norma 14022 regulamenta padrões de adaptação obrigatórios para pessoas com deficiência (PCD) em transportes coletivos. Já a norma 9050, em voga desde 2004, reúne padrões para edificações, espaços e equipamentos urbanos.
Elas ditam padrões dimensionais, especificando medidas adequadas para o uso de PCD, mas, muitas vezes, não são respeitadas. Para Renata Lima de Mello, arquiteta que participou da revisão da norma 9050, a legislação é bem sucedida, o problema é a fiscalização. “A própria prefeitura é responsável por adaptar a cidade e cobrar a sua adaptação”.
A arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Roberta Consentino Kronka Mülfarth, aponta dificuldades dos espaços se adaptarem. “Há as edificações antigas que devem ser adaptadas e as novas que obrigatoriamente são planejadas e construídas para atender as normas vigentes”.
Patricia e Juliano são apenas dois dos 45 milhões de brasileiros com deficiência que sofrem com a falta de adequação de obras e projetos. Roberta lembra que, antigamente, era ainda pior. “Não se viam pessoas com deficiência nas ruas, elas ficavam isoladas em casa, era pura ignorância”.
Por Julia Moura
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.