Ha! Que flagra! O que te levou a abrir um claro! Impróprio para ler uma hora dessas? Se você ainda escolhe clicar no botão de “estou ciente e quero continuar”, talvez esteja cedendo àquela tendência antiga de navegar contra a maré. Desde crianças, todos são naturalmente atraídos para a desobediência. Que atire a primeira pedra quem nunca colocou o dedo na tomada, dormiu depois do horário permitido ou comeu um doce escondido.
A vida adulta exige que esses hábitos sejam deixados para trás, num policiamento constante: estude, chegue no horário, não fale palavrão e nem ouse vestir essa mini saia. Pelo menos é isso que a sociedade espera. Na tentativa de se encaixar, você precisa ocultar seus gostos e dançar a balada do falso eu.
Os primeiros rascunhos desta edição falavam desse não pertencimento inevitável de quem se julga inadequado ao seu tempo ou daqueles que guardam um prazer secreto. Percebemos que nenhuma dessas experiências é de fato individual – o impróprio está por toda parte.
Há momentos em que o inadequado se torna aceitável e outros nos quais o controverso é silenciado. As páginas seguintes buscam explorar essas situações do cotidiano, seja na cidade inabitável, mas vendida como ideal ou nos limites ultrapassados no trabalho.
O objetivo do claro! Impróprio é chegar no limite, desafiar a retórica e concluir que, no final das contas, todos somos impróprios em algum lugar, ainda que não sejamos capazes de admitir.
Por trás do problema
 
Por Vinicius Almeida
 
A adolescência é um momento muito difícil de lidar. Estima-se que cerca de 45% dos jovens em idade escolar querem ser mais magros. O corpo muda, e isso nos incomoda. Queremos nos mostrar perfeitos, atender às expectativas que nos são dadas.
O ambiente familiar talvez seja o maior responsável por tal situação. É comum que problemas como o seu se iniciem pela cobrança dos pais. Como não seguir aquilo que dizem?. Não podemos culpá-los completamente, mas é um fato que também erram. Se um tema como obesidade ou controle de peso é recorrente, o desgaste emocional é grande. Julgamentos ocorrem, e isso pode levar a um quadro mais complicado, a um transtorno alimentar. O desconforto com o corpo também pode ser gerado por forças externas. A influência da “cultura do corpo” e da pressão para a magreza que as mulheres sofrem na sociedade está associada com o desencadeamento desse tipo de comportamento.
A busca por exercícios e dietas mirabolantes é um dos primeiros problemas que surgem. O exercício físico por demanda estética agride o corpo. As pessoas se machucam, comprometem a saúde, sentem dor deliberadamente. Praticá-lo sem alimentação para emagrecer pode causar desnutrição, perda de massa muscular e até diminuir a imunidade. Emagrecer não deveria ser o único fim a ser buscado, até porque exercícios melhoram a capacidade respiratória, a saúde cardiovascular, preservam os ossos. São inúmeros benefícios, mas a sociedade continua a nos encorajar na busca por um corpo emagrecido.
As expectativas, as mídias, o ambiente familiar podem também causar isolamento. É um quadro muito comum em pessoas com transtorno alimentar. Com o tempo as pessoas passam a viver exclusivamente em função das dietas e exercícios, levando ao isolamento social. É comum que ouçamos falar do crescimento da obesidade, da hipertensão. Mas pouco se fala do outro lado, da obsessão pela magreza, pela “saúde”. O estilo de vida contemporâneo favorece vários problemas decorrentes do sedentarismo e má alimentação, mas a proposta de enfrentamento deles não ajuda as pessoas.
Felizmente, entretanto, percebemos que aos poucos as amarras sociais vão se quebrando. Vemos todos os dias pessoas lutando pela libertação dos padrões, criticando-os, problematizando a questão. É triste saber que eles ainda existem e causam um mal muito grande, mas pessoas que passaram por esses problemas não estão sozinhas, e podem e devem tentar mudar o que está estabelecido, evitando assim, que mais pessoas passem por situações terríveis como essa.
*Texto baseado nos relatos de Paola Altheia, nutricionista, e Daniela Carvalho, psicóloga.
Por Vinícius Almeida
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.