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“Você não parece”

 

Por Emerson May e Thais Santana

 

Arte: Aline Noronha

Em um país moldado em séculos de miscigenação, a autodescoberta racial não é linear. Para quem carrega diferentes raças no rosto e no nome, a autodeclaração pode ser um dilema que gera sentimento de intrusão.

Segundo a socióloga Maynara Costa, esse desconforto revela como a sociedade dita o pertencimento. A especialista explica que a percepção como sujeito racializado costuma amadurecer apenas na vida adulta, já que essa identidade também se constrói no olhar externo. 

Diferente de outras partes do mundo, no Brasil a raça se baseia nos traços fenótipos, e é por essa percepção que o indivíduo miscigenado é, muitas vezes, julgado como um forasteiro. Filho de um casal inter-racial, o ator Artur Joshua cresceu com a pressão de priorizar uma das suas origens e acredita que essa escolha limitaria sua essência.

A negação da ancestralidade dialoga com a experiência de Maria Clara Santos. A estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) relata que já tentaram associá-la à branquitude por sua pele clara, mesmo ela se autodeclarando parda. Para a universitária, essa leitura invalida sua ascendência.

Ações desse tipo refletem uma tentativa de adequar pessoas miscigenadas a uma hegemonia visualmente branca. Do ponto de vista indígena, o historiador Xipu Puri relata que, embora consciente das suas raízes, era categorizado como “pardo” no cotidiano, por não performar estereótipos do senso comum. “Eu não preciso me emperiquitar com apetrechos para ‘parecer’ qualquer coisa, a memória do meu povo está no meu corpo”, reitera. 

A atriz Ana Hikari define o apagamento racial em famílias nipo-brasileiras como a busca pela aceitação em um país que rejeitou esse grupo esteticamente. Filha de pai negro e mãe amarela, ela comenta a própria trajetória: “Eu apaguei um pouco da minha origem nipônica para me sentir mais brasileira”. Liana Nakamura, autora do livro Amarela-manga: uma antologia nipo-poética, também conta que seus traços eram lidos como estrangeiros desde o nascimento.

Maynara avalia que o caminho do “intruso” para pertencer passa pelo letramento racial. Ela compara com o movimento de Sankofa, o pássaro africano que olha para trás para poder seguir adiante. Para a socióloga, entender que a intrusão é uma projeção alheia e um esforço de fragmentar histórias plurais é fundamental para habitar o próprio corpo com consciência em coletividade. 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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