E se você, que acabou de abrir esse claro!, simplesmente o rasgasse e jogasse no chão agora, sem nenhuma razão? E se esses pedaços de papel interrompessem o caminho de outra pessoa e a fizessem escorregar? E se esse tropeço atrapalhasse a reunião acontecendo na sala ao lado? A intromissão pode vir de toda a parte — e um mesmo indivíduo pode ser agente ou receptor da ação.
Às vezes são os nossos pensamentos, outras vezes é outrem. Às vezes é espontâneo, outras vezes é deliberadamente. Às vezes como resistência, outras, sem consentimento. As próximas páginas se constroem em volta de tudo que, em um primeiro momento, parece deslocado e não pertencente. A proposta do claro! Intruso é explorar diferentes situações, ângulos e debates em que o intruso é o protagonista.
Queremos refletir sobre discursos, objetos, pessoas e até palavras que invadem e incomodam: estado nem sempre pejorativo, a depender dos olhos de quem vê, mas sempre presente. O que parece estranho pode abrir novas perspectivas e, de repente, o que era uma certeza passa a não ser mais.
Expediente – Reitor: Aluísio Augusto Cotrim Segurado. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Thamires Aguiar e Yasmin Constante. Editoras de conteúdo: Leticia Yamakami e Louisa Harryman. Editoras de Arte: Thamires Aguiar e Yasmin Constante. Editoras Online: Aline Fiori e Ana Alice Coelho. Ilustradores: Alex Teruel e Maria Luiza Negrão. Diagramadores: Aline Noronha, Amanda Nascimento, Beatriz Hadler, Catarina Bacci, Clara Viterbo Nery, Clara Zamboni, Maria Eduarda Lameza, João Victor Vilasbôas, Júlia Sardinha e Samuel Amaral. Redação: Clara Hanek, Daniela Gonçalves, Davi Alves, Maria Eduarda Oliveira, Emerson May, Fernanda Franco, Gabriel Alegreti, João Pedro Abdo, Lorenzo Souza, Mariana Ricci, Rafael Dourador, Samuel Cerri, Thaís Santana e Theo Schwan. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508920. Telefone: (11) 3091- 4112. O claro! é produzido pelos alunos do quinto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo-Suplemento.
Para acessar a edição claro! Intruso diagramada, o PDF se encontra no link abaixo:
Por mais absurda que a cena pareça, é impossível atender ao comando da frase anterior. Isso acontece porque associações mentais são inevitáveis. Uma simples menção ao elefante pianista torna impossível se esquivar da imagem.
A cena absurda de um mamífero tão grande com habilidades musicais é, de certo modo, engraçada. Mas e se esse elefante esmagasse a cabeça de alguém, espalhando miolos para todos os lados? E se você estivesse empunhando um revólver e matasse o bicho?
De onde vêm esses pensamentos que, como elefantes na sala, incomodam tanta gente?
Na psicanálise, os processos mentais que desembocam nos pensamentos intrusivos e em problemas associados, como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), são os mesmos que originam pensamentos de qualquer natureza, como sonhos, associações e preferências pessoais.
Gabriel Heitzmann, psicanalista e mestre pela PUC-SP, explica que todos são uma consequência de pulsões reprimidas pela vida cultural do indivíduo. Em outras palavras, pensamentos podem ser respostas aos desejos que, muitas vezes, varremos para baixo do tapete.
O consenso sobre o momento de procurar ajuda é quando há “prejuízos para sua própria vida”.
A história do Leo* mostra bem. Aos 11 anos, seus pais passaram uma temporada de três meses viajando. Ele ficou aos cuidados da avó paterna, e o desejo (reprimido) de reencontrar os pais era grande.
Assim, surgiram seus “rituais”. Antes de dormir, precisava fechar as portas pelas quais passava enquanto cantava uma música que inventou. Se errasse, recomeçava.
Ele descreve como “alívio instantâneo” a sensação de realizar a compulsão. “Aos poucos, fui tentando racionalizar, não completar o ritual e aguentar até que nada de mau me ocorresse”, conta ele, que recebeu o diagnóstico de TOC.
“Sempre que eu tô lá em cima, penso que vou escalar o vidro e pular”. É o que passa pela cabeça de Maria* toda vez que está no Farol Santander, edifício muito alto no centro da capital paulista. Apesar de também ser invadida por pensamentos intrusivos, ela não se vê rendida ao pensar demais.
Nunca pulou do prédio, e jamais o faria. Pouco importa se há um desejo reprimido que explica sua divagação. Como ela não vê prejuízos pessoais, não sente necessidade de entender a origem dos pensamentos. São apenas espasmos que qualquer mente às vezes tem.
No fim, todos temos elefantes que, uma hora ou outra, invadem a sala das nossas mentes. Só não podemos deixá-los tocar piano para nossos medos dançarem e tomarem conta da casa.
*Os nomes foram alterados para preservar as identidades
Três é demais!
 
Por Mariana Ricci
 
Arte: Maria Luiza Negrão
“Eu e meu namorado gostamos muito da sua vibe. Podemos te dar um beijo?” A frase que viralizou nas redes sociais, com teor de piada, se refere à prática de casais que buscam uma “marmita”. Ou seja, uma terceira pessoa para integrar a relação.
Esse modelo de relacionamento é um dos vários tipos de interações no espectro não monogâmico. Trata-se de uma experiência sexual, pontual e hierárquica do casal — os mediadores da interação — com uma terceira pessoa. Na maioria das vezes, a intenção de envolvimento romântico fica em segundo plano.
“Chamamos de ‘o terceiro’ toda e qualquer pessoa que escape da dupla em questão. Na monogamia, a força dessa coesão do casal depende da exclusão do terceiro”, explica a psicanalista e mestre em psicologia clínica pela USP Mariana Ribeiro.
Renata* trabalha com livros infantis e se identifica como uma mulher lésbica. Ela não se rotula como monogâmica ou não monogâmica: “O importante é ser livre.” Tímida, ela compartilha que gosta da relação a três na posição de marmita, porque se torna “o foco da atenção”.
A psicanalista explica que, apesar da terceira pessoa ser “o foco” e trazer novidade, muitas vezes existem traços que objetificam essa figura. “Se por acaso algum dos membros do casal estiver se sentindo desconfortável, a tendência é excluir a marmita da cena”.
Ela destaca que é frequente não existir o mesmo nível de cuidado com quem está fora do escopo do casal — traço marcante da lógica monogâmica: ao pensar em uma responsabilidade afetiva privatizada em que “o outro torna-se um mero instrumento de prazer”, ela é enxergada como intrusa.
Segundo sexólogos, a sociedade atual se estrutura a partir de uma lógica individualista, o que explica o movimento em que mais pessoas tornam-se adeptas ao modelo não monogâmico. Mariana explica que isso acontece devido à dificuldade de sobrevivência do desejo em um relacionamento exclusivo.
É o caso da Aline, que é noiva e tem uma relação aberta. Mesmo sendo o modelo com o que o casal mais se adapta, é possível se sentir intruso no próprio relacionamento. “A menina e meu namorado tiveram uma atração muito louca e parecia que eu precisava estar presente na cena só para que eles pudessem transar”, conta.
Nem todos os relacionamentos a três precisam se resumir estritamente a sexo. Renata, por exemplo, acredita que é possível envolver carinho, identificação e espaços em comum.
O estigma também é um fator em comum: “Às vezes sinto que para muitas pessoas é algo que foge do real e vira uma piada. Muita gente vê só como safadeza, mas também é sobre experimentar e se conhecer”, explica Renata.
*Os nomes das fontes foram alterados para preservar as identidades
Fala minha language!
 
Por Rafael Dourador
 
Arte: Alex Teruel
Da Faria Lima para toda a Grande São Paulo, os anglicismos entraram em nosso cotidiano e formaram a chamada cultura “faria limer”. Para quem não conhece, aqui vai um briefing deste lifestyle: start no mundo corporativo, use muitos termos técnicos em inglês até que você consiga atender um customer com um project muito impactante! Sounds good?
Essa trend ultrapassou o mundo corporativo e atingiu diferentes camadas da população. No Brasil, já não pedimos mais comida em domicílio… Só delivery. Usar termos em inglês, no entanto, não nos torna o novo Tio Sam. Apesar dos “faria limers”, o país sul-americano possui baixa proficiência no idioma e figura o 75° lugar em uma pesquisa da Education First.
Lis Rangel é estudante de Nutrição e ingressou há um ano no marketing de uma multinacional de alimentos. Sabendo apenas o basic, ela conta que sempre utiliza termos técnicos em inglês. Com ajuda de ferramentas como a Inteligência Artificial (IA), Lis se adaptou para fazer calls corporativas e confessa que já deixou de “tomar café da manhã para tomar um brunch com as amigas”.
Esses estrangeirismos surgem da interação entre culturas e se intensificam com a globalização. Clarice Corbari, doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que o resultado é a importação de vocábulos e modelos de negócios do exterior: “é um processo natural nas línguas”.
Referências empresariais não faltam. Oito das empresas mais valiosas do mundo estão nos United States. O aprendizado também cresce no exterior. O Relatório de Idiomas Duolingo 2025 revelou que o idioma é o mais estudado em 79% dos países, registrando um aumento de 14% em relação a 2024.
Com a alta da procura, Corbari alerta para “uma fetichização da língua estrangeira, onde usar uma palavra, supostamente, vai dar mais valor ao produto”. Na prática, o consultor Maycon Saranti observa: “o problema é usar o anglicismo sem saber o significado. Infelizmente, isso é bem comum no mercado”. Got it?
Colaboradores:
Beatriz Leite, sócia da Zabaione Gastronomia
Isabel Ribeiro, analista financeira
Museu sem portas
 
Por Daniela Goncalves e Fernanda Franco
 
Arte: Maria Luiza Negrão
Em um sábado de manhã, no Minhocão, centro de São Paulo, — entre corredores, bicicletas, patins e cachorros — grafites nas laterais dos prédios observam quem passa. É algo que todo mundo vê, mas quase ninguém pausa para admirar. É assim que a arte urbana opera: sem convite nem aviso, e, muitas vezes, sem que o público perceba que está dentro de um Museu de Arte a Céu Aberto (MuseuCéu).
Em um país onde apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu tradicional de 2024 a 2025, de acordo com levantamento do Observatório Fundação Itaú, levar a arte para a rua é, ao mesmo tempo, democratizar e provocar a realidade. No Minhocão, essa percepção é comum entre os visitantes. Das sete pessoas entrevistadas no local, todas afirmaram gostar da arte urbana e destacaram que ela “traz cor, vida e respiro para a cidade” em meio ao concreto. Mas apenas uma sabia que o espaço integra um museu.
Mas as intervenções artísticas vão muito além do grafite. Para o diretor do MuseuCéu, Kléber Pagu, elas incluem todas as linguagens que ocupam o espaço público, como pintura, dança, música e circo. Mais do que estética, trata-se de uma ação que rompe com a lógica urbana. “Intervir na cidade é um ato muitas vezes de resistência, como foi durante a ditadura.”
Saindo do Minhocão, em um vagão da Linha Vermelha do metrô entra Sebastião, mais conhecido por “Tim Max Bossa Nova”. Enquanto canta “Garota de Ipanema”, passa o chapéu para os passageiros. O artista conta que o público é sempre receptivo: “a ideia é interagir, entreter. O papel da arte é esse. O pessoal colabora comigo e eu com eles. É uma troca mútua.”
No sentido à Zona Norte da cidade, a artista plástica Simone Siss diz que a recepção imediata é parte essencial — e única — da arte urbana. Diferente do ateliê, onde a obra é construída em silêncio, a rua transforma a criação em diálogo coletivo. “Quando estamos na rua, nem terminamos a arte e as pessoas já olharam, gostaram, odiaram, entenderam, ou entenderam diferente do que eu quis passar.”
O trabalho de Simone, marcado por frases feitas em muros livres e figuras femininas, busca chacoalhar o olhar cotidiano com humor ou incômodo, com perguntas para a sociedade e para ela mesma. “Como mulher, estar na rua já é um ato de afirmação e ocupação de um espaço que historicamente não era para ser frequentado por nós.”
Entre o improviso e o planejamento, as intervenções artísticas seguem redesenhando São Paulo. Se há limites? Para Pagu, deve haver diálogo para que o responsável pelo muro autorize. “É arte na rua porque é o lugar mais legal do mundo para se fazer uma obra. É onde se potencializa os encontros. É onde todo mundo vai ter acesso”, afirma. Intrusas ou não, a arte urbana continua interrompendo trajetos automáticos do cotidiano.
COLABORAÇÕES:
Nadja Xavier, atendente ao cliente
Thaís, técnica em eletrotécnica
André Luiz Raimundo, auxiliar de limpeza
Anderson Carvalho, engenheiro de software
Luana Freitas, vendedora
Carol Castro, fotógrafa
Marcelo Rios, redator
O morar às vezes é ocupar
 
Por Davi Alves e Maria Eduarda Oliveira
 
Arte: Maria Luiza Negrão
De Salvador, Lucas Cruz chegou a São Paulo em 2013 para cursar faculdade. Seis anos depois de chegar à cidade e passar por repúblicas e casas compartilhadas, decidiu se mudar para a ocupação artística Ouvidor 63. Lá, encontrou um espaço para viver e produzir seu trabalho, que envolve pintura, serigrafia e circo.
Dois andares abaixo, vive a argentina Mica Yañez, artista e pós-graduanda em História da Arte na Unifesp, que está na ocupação há nove anos. Antes de se estabelecer no prédio, ela viajou durante cinco meses pelo Brasil, até encontrar um lugar que oferecesse estabilidade.
O prédio, que pertence ao Governo do Estado, fica à 170 metros da Faculdade de Direito da USP. Cada andar abriga diferentes expressões artísticas. Ao longo de 13 pavimentos, os quartos são preenchidos com exposições, ateliês e outros espaços voltados às artes. Segundo Lucas, lá moram cerca de 80 pessoas, entre elas brasileiros, argentinos, colombianos e chilenos. Em comum, todos artistas.
E não é preciso ir muito distante para encontrar outros edifícios apropriados no centro de São Paulo. A menos de 1 km fica a ocupação 9 de Julho, onde vivem cerca de 400 famílias, de acordo com o Movimento Sem Teto do Centro.
Para além da representação artística vista na Ouvidor, a professora de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, Denise Antonucci, observa um perfil “não muito definido” entre os moradores de ocupações: há pessoas que trabalham, mas em geral sem vínculo formal, indivíduos com diferentes níveis de escolaridade, incluindo formação técnica e ensino superior, além de mulheres que são chefes de família.
Ela também avalia que a ocupação de prédios ociosos cumpre um papel político para visibilizar problemas estruturais, como o déficit habitacional. “Não é que a política de moradia não tenha dado certo, mas a demanda é muito maior do que a oferta de unidades habitacionais”, aponta.
Dados da Agência Pública, obtidos por meio da Secretaria de Habitação, mostram que mais de 115 mil famílias vivem em 567 ocupações na cidade de São Paulo até agosto de 2023. Lucas e Mica são parte deste cenário.
Para eles, a percepção é de estar na contramão — em uma realidade em que o direito à cidade não é o mesmo para todas as pessoas e nem em todos os lugares. “O centro está programado para que outras pessoas morem aqui, e não as pessoas trabalhadoras e de baixa renda”, diz Mica.
Para o vereador Nabil Bonduki, as soluções para o problema já são conhecidas. Entre as medidas possíveis e utilizadas, ele destaca a recuperação de prédios antigos e a adaptação de edifícios ocupados para habitações de interesse social. “O caminho para enfrentar esse problema existe. O que não existe é uma vontade política de fazer isso na escala que seria necessária para mudarmos o quadro atual”, afirma.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que tem ampliado ações para enfrentar o déficit habitacional e melhorar as condições de moradia. Afirma ainda que acompanha 366 ocupações, sendo 42 localizadas na região central, mas que não possui um levantamento consolidado dos imóveis ocupados.
Como vim parar aqui?
 
Por Clara Hanek
 
Arte: Samuel Amaral
Quando João* conseguiu o primeiro emprego, começou a se sentir uma farsa. “Parecia que tinham me dado uma vaga de consolação, que eu não tinha potencial para assumir.” O sentimento piorou após ingressar na USP. “Comparo a minha realidade com a das pessoas à minha volta e vejo o quão deslocado estou nas conversas e trocas de experiências.” João se identifica com a síndrome do impostor, fenômeno em que o indivíduo possui inseguranças derivadas de uma autopercepção deturpada.
Embora qualificadas, pessoas que lidam com a síndrome sentem um medo constante de serem desmascaradas como impostoras e não pertencentes aos ambientes que ocupam. Adauto Faria, psiquiatra e psicoterapeuta, a descreve como um padrão psicológico de distorção, em que os dados da realidade não são suficientes para o indivíduo acreditar em sua capacidade. Apesar de não ser um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pode desencadear outros sintomas, muitas vezes associados a quadros de depressão, ansiedade e até manifestações psicossomáticas.
A designação “síndrome do impostor” foi elaborada em 1978 por Clance e Imes, psicólogas norte-americanas. Recentemente, o termo se popularizou entre jovens que o utilizam para descrever a insuficiência que sentem. “O uso das redes contribui bastante para a incidência da síndrome, considerando a lógica da performance e a constante comparação”, é o que diz Giovanna Romano, psicóloga. “A cultura de performar na internet por validação, por likes, pode trazer a sensação de fraude também para quem posta.”
Navegar pelo Linkedin e checar as conquistas dos usuários agrava as inseguranças de Flávia*. Ela atua em um escritório de advocacia penal, área historicamente masculina, e acredita que ser mulher e jovem é um agravante. Quando elogiam seu trabalho, acha que é por dó. “Já senti que eu era a pessoa mais burra daquele lugar, que só estava copiando o que os outros faziam e não merecia estar ali.”
Em análise aprofundada, a psicóloga associa a síndrome à fase da primeira infância. Considerando a psicologia do desenvolvimento humano, a forma como um adulto se enxerga depende de como ele foi tratado enquanto criança e adolescente. “A autocrítica, seja ela real ou fantasiosa como a síndrome do impostor, em que a pessoa interpreta suas conquistas de modo completamente enviesado, tem muito a ver com a criação”, diz.
A síndrome do impostor leva à autossabotagem, à hesitação em aceitar novas oportunidades, ao perfeccionismo e ao ceticismo no sucesso — afinal, deve ter sido sorte, não mérito. Os pensamentos autodepreciativos que a caracterizam aparecem como invasores, mesmo para os indivíduos objetivamente bem-sucedidos, que pensam: “Como vim parar aqui?”
*Os nomes das fontes foram alterados para preservar suas identidades
Colaborador: Luis*, estudante de jornalismo.
“Você não parece”
 
Por Emerson May e Thais Santana
 
Arte: Aline Noronha
Em um país moldado em séculos de miscigenação, a autodescoberta racial não é linear. Para quem carrega diferentes raças no rosto e no nome, a autodeclaração pode ser um dilema que gera sentimento de intrusão.
Segundo a socióloga Maynara Costa, esse desconforto revela como a sociedade dita o pertencimento. A especialista explica que a percepção como sujeito racializado costuma amadurecer apenas na vida adulta, já que essa identidade também se constrói no olhar externo.
Diferente de outras partes do mundo, no Brasil a raça se baseia nos traços fenótipos, e é por essa percepção que o indivíduo miscigenado é, muitas vezes, julgado como um forasteiro. Filho de um casal inter-racial, o ator Artur Joshua cresceu com a pressão de priorizar uma das suas origens e acredita que essa escolha limitaria sua essência.
A negação da ancestralidade dialoga com a experiência de Maria Clara Santos. A estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) relata que já tentaram associá-la à branquitude por sua pele clara, mesmo ela se autodeclarando parda. Para a universitária, essa leitura invalida sua ascendência.
Ações desse tipo refletem uma tentativa de adequar pessoas miscigenadas a uma hegemonia visualmente branca. Do ponto de vista indígena, o historiador Xipu Puri relata que, embora consciente das suas raízes, era categorizado como “pardo” no cotidiano, por não performar estereótipos do senso comum. “Eu não preciso me emperiquitar com apetrechos para ‘parecer’ qualquer coisa, a memória do meu povo está no meu corpo”, reitera.
A atriz Ana Hikari define o apagamento racial em famílias nipo-brasileiras como a busca pela aceitação em um país que rejeitou esse grupo esteticamente. Filha de pai negro e mãe amarela, ela comenta a própria trajetória: “Eu apaguei um pouco da minha origem nipônica para me sentir mais brasileira”. Liana Nakamura, autora do livro Amarela-manga: uma antologia nipo-poética, também conta que seus traços eram lidos como estrangeiros desde o nascimento.
Maynara avalia que o caminho do “intruso” para pertencer passa pelo letramento racial. Ela compara com o movimento de Sankofa, o pássaro africano que olha para trás para poder seguir adiante. Para a socióloga, entender que a intrusão é uma projeção alheia e um esforço de fragmentar histórias plurais é fundamental para habitar o próprio corpo com consciência em coletividade.
Ursa-tropical
 
Por Theo Schwan
 
Arte: Alex Teruel
Fazia calor. Fora do local de nascimento de Nur, onde gelo se forma e a paisagem ártica se impõe, São Paulo beirava os 30 graus celsius no dia 17 de novembro de 2024. Foi a primeira ursa-polar nascida na América Latina.
Por si só, o fato carrega uma contradição difícil de se contornar: Nur veio ao mundo em um lugar onde, naturalmente, jamais pisaria. Invasora a contragosto, o espaço humano apoderou-se da vida dela.
Ela nunca teve escolha. Em nota, o Aquário de São Paulo explica que seus pais, Aurora e Peregrino, também nasceram em cativeiro, na Rússia. Os animais chegaram a São Paulo em 2014, como parte de uma cooperação global para preservação da espécie.
Apesar do contraste entre o ártico e os trópicos, o recinto de 1.500 m² é climatizado com temperaturas que variam entre -10ºC e 0ºC e é monitorado por dezenas de profissionais. A reprodução do espaço natural em recintos faz parte de um esforço para garantir o bem-estar dos animais, segundo Mara Marques, bióloga do Zoológico de São Paulo.
“Quando o bem-estar está garantido, os animais tendem a expressar comportamentos naturais. Como consequência, há maior probabilidade de reprodução bem-sucedida”. Apesar do ambiente ser irreproduzível em sua totalidade, o papel da equipe é garantir condições físicas e comportamentais adequadas.
Assim como o aquário, a organização integra um programa de conservação internacional. O zoológico envia animais brasileiros e recebe estrangeiros, como orangotangos, chimpanzés e zebras. Dessa forma, mantém a variabilidade genética de espécies ameaçadas, ainda que em cativeiro.
O nascimento de Nur é um grande indicativo da adaptabilidade de seus pais. Para o Aquário de São Paulo, o episódio simboliza um passo para a conservação dos ursos polares, e a reprodução fora do habitat natural é um movimento em prol da sua preservação. Mas vai além.
Nur simboliza a sobrevivência da espécie em ambientes controlados — uma existência adaptada, monitorada e limitada. Ainda assim, ursos-polares nascidos em cativeiro não possuem condições de sobreviver na natureza. Sem saber caçar ou navegar, não conseguem se adaptar à vida livre.
“Mas quando você traz um urso-polar e explica porquê ele está ali — praticamente não tem mais habitat natural —, você sensibiliza o público para a necessidade de conservação”, afirma Joana Ikeda, vice-presidente do Instituto Mamíferos Marinhos, voltado ao resgate e ao monitoramento desses animais.
“O zoológico ou o aquário não são expositores, são educadores. E a educação ambiental é o melhor caminho para a conservação da natureza, só que a longo prazo.”
Times Square em Sampa
 
Por Lorenzo Souza e Samuel Cerri
 
Arte: Alex Teruel
Ao cruzar a Ipiranga e a São João, referências a uma São Paulo de outro tempo permanecem vivas nas esquinas que formam o Centro. Neste espaço emblemático, constituído por uma arquitetura nostálgica preenchida com estátuas de bronze e postes em estilo clássico, propõe-se a modernidade através da criação do “Boulevard São João”. Enquanto isso, a Câmara dos Vereadores promove a modernização da Lei Cidade Limpa para permitir mais anúncios em espaços públicos, através do PL 239/2023, de autoria do vereador Rubinho Nunes (União).
O Boulevard prevê a instalação de quatro painéis luminosos no cruzamento das avenidas, contrastando o ar histórico do Centro de São Paulo com iluminações coloridas típicas das mídias contemporâneas. O Termo de Compromisso do projeto prevê um investimento de R$39 milhões para os telões, sem contar o possível lucro com publicidade de empresas apoiadoras. Por outro lado, para a restauração do local, o investimento foi limitado a R$6 mi em três anos. O proponente foi a Fábrica de Bares, empresa que tem revitalizado espaços de São Paulo como o Bar Brahma, localizado na própria Ipiranga.
A principal comparação com o que a região pode se tornar é a Times Square, em Nova York, em que até os anos 90 reinava a desordem urbana e degradação. Para a vereadora Amanda Vettorazzo (União), pós-graduada em Cidades Inteligentes, as telas foram protagonistas da transformação: “a partir de um planejamento estruturado, que combinou segurança, desenvolvimento urbano e estímulo econômico, o local foi completamente revitalizado”, afirma.
Pedro Manuel Rivaben, docente da Escola da Cidade, explica que os anúncios funcionam como símbolos e são parte da paisagem que abriga, além dos painéis, teatros, boates, cinemas, bares e restaurantes. Ele considera que a instalação dos painéis é a implantação de “uma camada visual auto-referente, banal e banalizante […], desvinculada de lógicas, critérios e processos do bom urbanismo”.
Entre a população local, a proposta é popular, em especial pela possível iluminação do espaço. Anderson Bruno, segurança da Igreja dos Homens Pretos, vê os projetos com otimismo. Já Kaite Morim, vendedora que mora na região, acredita que “essa mistura da arquitetura do centro com telões pode estranhar no começo, mas no geral considero o projeto positivo”.
O Boulevard São João e a modernização da Lei Cidade Limpa ainda são realidades incertas. Ambos estão em tramitação e partes envolvidas encontram motivos variados para apoiar ou rechaçar o que, em um futuro ainda hipotético, talvez seja a revitalização dessas avenidas.
Colaboradores: Fernando, Julieta, Maria Helena, Maria Elizabeth, Priscila Pereira da Silva, e três pedestres que preferiram não se identificar
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.