“seu filho vai nascer com uma aparência horrível, tem certeza que não quer abortar?”. foi o que Thaís Emília ouviu dos médicos no sétimo mês de gestação de seu filho Jacob, uma criança intersexo. segundo dados do DataSus, do Ministério da Saúde, de 2021 a 2023, foram registrados 1.198 nascidos vivos com o sexo “ignorado” na certidão de nascimento no Brasil.
Thaís discordou da sugestão, um genital diferente não justificaria o aborto. as pessoas intersexo nascem com gônadas, genitálias ou cromossomos sexuais atípicos, causadas por alterações genéticas ou hormonais.
a resolução 1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina (CFM) define que pacientes com anomalias de diferenciação sexual devem passar por uma avaliação precoce para a definição do gênero. depois do nascimento, os exames genéticos não definiram o sexo biológico de Jacob e a equipe médica concluiu que fazer uma vagina era mais fácil. Thaís e seu marido disseram não.
“no CFM se fala em uma urgência social de adequar esse corpo para ser menino ou menina”, explica a cirurgiã Mila Leme, “mas, dificilmente, essa genitália ambígua vai levar a algum dano ou agravar a saúde do paciente”, argumenta e defende apenas cirurgias de urgência.
em um caso atendido juridicamente pela Associação Brasileira Intersexo (ABRAI), um bebê nasceu com extrofia, malformação grave que expõe a bexiga e a uretra na superfície do abdômen. ele também era intersexo e possuía útero e testículos, mas sem genital externo definido.
sem o consentimento da mãe, os médicos fizeram uma vagina na criança. a cirurgia trouxe complicações e resultou em infecções durante seu desenvolvimento. aos nove anos, ela apresentava uma estatura menor que a média.
“é um debate muito complexo. nós pensamos no ponto de vista hormonal e fazemos um estudo especializado, mas ainda normatizamos os corpos muito cedo”, afirma Mila. ela aponta que a falta de pesquisas sobre as consequências psicológicas de cirurgias em pessoas intersexo é uma barreira para o avanço da pauta no país.
contribuição: Mila Torii Corrêa Leme, Thaís Emília
O espelho e os olhares
 
Por Isabella Galante
 
Os primeiros casos de estranhamento em relação ao meu corpo foram logo que comecei minha vida social, ao entrar na pré-escola. Eu não sabia o que estava acontecendo. A gente nunca sabe. Se sente fora do lugar, mas não sabe dizer onde é seu lugar, já que esse nem sequer é apresentado.
As pessoas riem, contrariam, estranham, enquanto você está simplesmente existindo, sendo. Fui chamada de louca por conta do que sentia. De qualquer maneira, eu precisava me descobrir, me desvencilhar do que “deveria ser” e dos preconceitos internalizados. Era preciso que eu me desse outra opção.
Vez ou outra, encontrava uma maneira “segura” de expressar um pouquinho daquilo que era inerente, seja por uma peça de vestuário, uma atitude ou até mesmo um sentimento que, diriam eles, não deveria estar ali. Porém, isso, na realidade, servia mais como um jeito de me disfarçar, varria a dor para debaixo do tapete.
Todo esse processo, que parece tão natural e leve para quem observa, é uma agressividade psicológica tremenda. Eu me sentia sozinha. Triste. A angústia aumentava. E eu sempre achei que merecia menos. Menos amor.
A partir do fim da adolescência, fui aos poucos me informando o suficiente para saber dar um nome, uma definição àquilo que eu era. Eu ainda me negava fortemente e, nos momentos que me permitia me assumir como algo fora do padrão, logo cortava a ideia. “Sofreria muito preconceito, nunca seria amada, seria lida como aberração”. “O mundo não vai aceitar, minha família não vai aceitar, eu precisaria ter uma estabilidade social, financeira e psicológica muito grande para ir à frente. Quem sabe daqui a algumas décadas?”. Fui construindo minha confiança e segurança. A autonegação perdia espaço.
À medida que crescia dentro de mim a compreensão de que a vida que me fizeram viver era pesada, de que havia uma necessidade de encarnar uma personagem 24h por dia, junto vinha o desejo de me livrar de tudo que impedia que o outro me lesse como eu ia me entendendo. Eu estava sufocando a minha real identidade. Então, me lembrei da criança que pedia todas as noites: “Deus, me faz ser menina, por favor. Sei que deve ter mais menino que pede isso, não deve? Mas eu queria tanto, juro que vou ser uma menina boa”.
Um dia meu nome de registro deixou de me contemplar. E aí veio a primeira vez que depilei meu corpo e o impacto que senti ao vê-lo no espelho, difícil descrever, mas me vi feminina. Depois, a descoberta das pílulas anticoncepcionais, do bloqueador de testosterona, os seios começando a se desenhar, doídos, marcando a blusa, e eu tendo que escondê-los com faixa enquanto me faltava a coragem, a força para me assumir. Nesse período de mudanças, cada uma era comemorada, só que o desejo de me ver outra por inteiro fazia com que nada fosse o bastante.
Decidi colocar um vestido e pintar as unhas. Ao mesmo tempo, era difícil me olhar no espelho nua. O medo de o que pensariam ao me ver sem roupas, a insegurança por sentir que meu corpo não estava nem lá nem cá, a transição tardia, os efeitos por demais irreversíveis da testosterona.
Demorou meses para eu parar com a peruca, exibir meus cabelos cacheados, então curtos, e me sentir bem dessa forma. Mais de um ano para eu ficar sem maquiagem alguma e me achar bonita, tão bonita quanto nos meus primeiros dias de superprodução.
Antes de resolver fazer a cirurgia de mama, passei dois anos decidindo se era um desejo meu ou uma imposição social. Enfim, meu desejo venceu. Por muito tempo pensei: “Sou uma menina, meu coração, cabeça, mas… não quero mutilar meu corpo, tenho medo”. É muito forte eu me olhar no espelho e ver: cintura, seios e pênis; e ainda assim gostar do meu corpo, ainda assim ver uma mulher.
Ao final, me assumir foi a maior liberdade de que tenho lembrança. Eu estava tendo o direito de ser eu, algo que deveria ter tido muito antes, mas me foi negado. Respirava um ar diferente, porque não era mais aquele fantoche perseguidor de padrões, carregando o peso de várias pessoas nas costas. Me veriam com bons e maus olhos, porém, ao menos, dessa vez estariam olhando para quem eu sou de verdade.
* Baseado nos relatos de Sarah, Helena, Amara e Neon.
Por Isabella Galante
Serviço de mulherzinha
 
Por Thaís Matos
 
Mediadora: Nossa mesa redonda de hoje vai tratar da divisão de profissões por gênero e
como essa classificação prejudica a todos, mas principalmente às mulheres, que sofrem
opressão e exploração no ambiente de trabalho. Quem quer começar?
Damiana: Posso começar? (todos assentem). Trabalho como pintora de casas há três
anos e as mulheres para quem eu trabalhei sempre me admiraram por desempenhar essa
função. Elas me dizem “nossa, você é muito corajosa, uma guerreira”. Já os homens
olham sempre com curiosidade e um pouco ressabiados. Quando estou fazendo a parte
de fora das casas, as pessoas param para olhar. Mas eu amo a minha profissão, não
tenho vergonha.
Manoel: Eu estou desempregado há três meses. Faço faxina e essa é uma área que ainda
oferece bastante vaga. Mas tenho certeza que serei rejeitado se oferecer meus serviços
individualmente. As pessoas estão acostumadas com mulheres fazendo isso. Não sei se
elas deixariam um homem entrar na casa delas.
Giulia: Essa diferença entre essas profissões consideradas femininas ou masculinas tem
a ver com a maneira que as pessoas são criadas. Professor de ensino infantil, que cuida
de criança, é uma categoria esmagadoramente feminina e se enquadra na ideologia de
que as mulheres são mães por natureza e nasceram pra cuidar de crianças. No ensino
universitário, tem muito mais homens, porque tem a ver com a intelectualidade, que não
está ligada à ideia da mulher emocional e não racional. É uma ideologia falsa, porque os
homens podem sim, e devem, cuidar das crianças e têm totais condições de serem
professores infantis. E as mulheres têm capacidade de serem professoras universitárias e
não são inferiores.
Márcia: Eu sou a Márcia, trabalho na construção civil, no estado do Pará, e sou da
diretoria do sindicato da construção civil. Dentro do canteiro de obras, o sistema
machista é muito opressor e as mulheres sofrem muito assédio moral. A mulher é
considerada o sexo mais frágil, falam que ela não dá conta de carregar as coisas, de
desempenhar as tarefas físicas, que o trabalho da mulher não pode ser classificado por
não ter a função. Nós estamos lutando pra que elas sejam classificadas e qualificadas,
porque nós temos pedreiras, ajudantes de obra, marceneiras, carpinteiras. Fora isso, tem
toda a questão do assédio sexual. Quando a mulher vai atrás de um emprego, ela tem
que ser bonita. Se ela é bonita, tem que sair com o encarregado, o mestre de obras. Se
elas saírem com outros trabalhadores do canteiro, elas são mal faladas. Elas não podem
se relacionar com ninguém. E se elas forem brigar pelos direitos delas, elas são
castigadas. Não podem se envolver com o movimento sindical, é muito difícil angariar
mulheres para a luta.
Mediadora: Que horror, Márcia. É inacreditável que ainda passemos por isso. Para
finalizar as falas, chamamos a Sílvia, membra da executiva nacional do Movimento das
Mulheres em Luta.
Sílvia: É muito grande a opressão que as mulheres sofrem no trabalho e essas pautas
precisam ser incorporadas às reinvindicações dos sindicatos e às lutas por melhores
condições de trabalho no geral. A segregação do trabalho por gênero faz com que as
mulheres que decidem optar por transgredir essa norma sejam vistas como incapazes de
desenvolver a atividade profissional e acuadas dentro do próprio emprego. Para fazer
com que as mulheres se sintam fortalecidas inclusive pra lutar contra a exploração, é
preciso que isso seja combatido nas organizações de trabalhadores e convença os
homens da classe que isso é uma imposição da ideologia machista.
Wana: Mas quando começamos a nos mobilizar, nós mobilizamos também as outras. Eu
trabalho como motorista e já recebi o testemunho de muitas mulheres que tomaram
coragem para tirar habilitação e até procurar esse emprego depois de me verem
dirigindo ônibus. Não podemos perder as esperanças.
Mediadora: Agradecemos a presença de todas e todos e até o próximo debate.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.