
Arte: Maria Luiza Negrão
“Eu e meu namorado gostamos muito da sua vibe. Podemos te dar um beijo?” A frase que viralizou nas redes sociais, com teor de piada, se refere à prática de casais que buscam uma “marmita”. Ou seja, uma terceira pessoa para integrar a relação.
Esse modelo de relacionamento é um dos vários tipos de interações no espectro não monogâmico. Trata-se de uma experiência sexual, pontual e hierárquica do casal — os mediadores da interação — com uma terceira pessoa. Na maioria das vezes, a intenção de envolvimento romântico fica em segundo plano.
“Chamamos de ‘o terceiro’ toda e qualquer pessoa que escape da dupla em questão. Na monogamia, a força dessa coesão do casal depende da exclusão do terceiro”, explica a psicanalista e mestre em psicologia clínica pela USP Mariana Ribeiro.
Renata* trabalha com livros infantis e se identifica como uma mulher lésbica. Ela não se rotula como monogâmica ou não monogâmica: “O importante é ser livre.” Tímida, ela compartilha que gosta da relação a três na posição de marmita, porque se torna “o foco da atenção”.
A psicanalista explica que, apesar da terceira pessoa ser “o foco” e trazer novidade, muitas vezes existem traços que objetificam essa figura. “Se por acaso algum dos membros do casal estiver se sentindo desconfortável, a tendência é excluir a marmita da cena”.
Ela destaca que é frequente não existir o mesmo nível de cuidado com quem está fora do escopo do casal — traço marcante da lógica monogâmica: ao pensar em uma responsabilidade afetiva privatizada em que “o outro torna-se um mero instrumento de prazer”, ela é enxergada como intrusa.
Segundo sexólogos, a sociedade atual se estrutura a partir de uma lógica individualista, o que explica o movimento em que mais pessoas tornam-se adeptas ao modelo não monogâmico. Mariana explica que isso acontece devido à dificuldade de sobrevivência do desejo em um relacionamento exclusivo.
É o caso da Aline, que é noiva e tem uma relação aberta. Mesmo sendo o modelo com o que o casal mais se adapta, é possível se sentir intruso no próprio relacionamento. “A menina e meu namorado tiveram uma atração muito louca e parecia que eu precisava estar presente na cena só para que eles pudessem transar”, conta.
Nem todos os relacionamentos a três precisam se resumir estritamente a sexo. Renata, por exemplo, acredita que é possível envolver carinho, identificação e espaços em comum.
O estigma também é um fator em comum: “Às vezes sinto que para muitas pessoas é algo que foge do real e vira uma piada. Muita gente vê só como safadeza, mas também é sobre experimentar e se conhecer”, explica Renata.
*Os nomes das fontes foram alterados para preservar as identidades