
Arte: Alex Teruel
Fazia calor. Fora do local de nascimento de Nur, onde gelo se forma e a paisagem ártica se impõe, São Paulo beirava os 30 graus celsius no dia 17 de novembro de 2024. Foi a primeira ursa-polar nascida na América Latina.
Por si só, o fato carrega uma contradição difícil de se contornar: Nur veio ao mundo em um lugar onde, naturalmente, jamais pisaria. Invasora a contragosto, o espaço humano apoderou-se da vida dela.
Ela nunca teve escolha. Em nota, o Aquário de São Paulo explica que seus pais, Aurora e Peregrino, também nasceram em cativeiro, na Rússia. Os animais chegaram a São Paulo em 2014, como parte de uma cooperação global para preservação da espécie.
Apesar do contraste entre o ártico e os trópicos, o recinto de 1.500 m² é climatizado com temperaturas que variam entre -10ºC e 0ºC e é monitorado por dezenas de profissionais. A reprodução do espaço natural em recintos faz parte de um esforço para garantir o bem-estar dos animais, segundo Mara Marques, bióloga do Zoológico de São Paulo.
“Quando o bem-estar está garantido, os animais tendem a expressar comportamentos naturais. Como consequência, há maior probabilidade de reprodução bem-sucedida”. Apesar do ambiente ser irreproduzível em sua totalidade, o papel da equipe é garantir condições físicas e comportamentais adequadas.
Assim como o aquário, a organização integra um programa de conservação internacional. O zoológico envia animais brasileiros e recebe estrangeiros, como orangotangos, chimpanzés e zebras. Dessa forma, mantém a variabilidade genética de espécies ameaçadas, ainda que em cativeiro.
O nascimento de Nur é um grande indicativo da adaptabilidade de seus pais. Para o Aquário de São Paulo, o episódio simboliza um passo para a conservação dos ursos polares, e a reprodução fora do habitat natural é um movimento em prol da sua preservação. Mas vai além.
Nur simboliza a sobrevivência da espécie em ambientes controlados — uma existência adaptada, monitorada e limitada. Ainda assim, ursos-polares nascidos em cativeiro não possuem condições de sobreviver na natureza. Sem saber caçar ou navegar, não conseguem se adaptar à vida livre.
“Mas quando você traz um urso-polar e explica porquê ele está ali — praticamente não tem mais habitat natural —, você sensibiliza o público para a necessidade de conservação”, afirma Joana Ikeda, vice-presidente do Instituto Mamíferos Marinhos, voltado ao resgate e ao monitoramento desses animais.
“O zoológico ou o aquário não são expositores, são educadores. E a educação ambiental é o melhor caminho para a conservação da natureza, só que a longo prazo.”