em uma noite qualquer, ela decide tentar. se deita, fecha os olhos e imagina que está subindo um lance de degraus. ao final da escada, vê uma porta. calma, só devo abrir se estiver pronta, diz para si mesma. quando finalmente o faz, liz* chega “lá”. sente um clarão muito forte. seus olhos se acostumam e então percebe que não está no mundo que sempre conheceu. é assim que a tiktoker narra sua primeira experiência com o shifting — conceito baseado na visita a realidades paralelas.
a partir da auto-hipnose, a prática visa a vivência em uma realidade desejada — que pode ser desde uma versão melhorada da vida neste plano até um universo fictício, como o de harry potter. cativando principalmente adolescentes, o shifting viralizou nas redes sociais durante a pandemia, como alternativa à reclusão.
a técnica não tem comprovação científica e seus efeitos são variados, segundo a psicóloga ana maria rios. é positiva caso funcione como imaginação: “a fantasia é valiosa quando promove experiência. não tem nada criado que não tivesse sido fantasiado antes”. o sinal de alerta acende quando o hábito vira uma fuga do mundo real, podendo levar ao distúrbio de devaneio excessivo.
existem, no entanto, formas mais conhecidas de se deslocar para outros planos, como a projeção astral — em que a consciência se desprende do corpo físico durante o sono, vivendo suas próprias experiências em uma dimensão espiritual.
embora as viagens da consciência pareçam espantosas aos mais céticos, todos nós vagamos pelo espaço liminar entre o consciente e o inconsciente. durante os sonhos, a atividade cerebral produz centenas de imagens, provocações e ideias. você pode até não se lembrar delas da mesma forma lúcida como os shifters dizem se recordar de suas experiências, mas a psicóloga garante que “a consciência sempre retoma os materiais inconscientes em busca de soluções aos dilemas da vida”.
se atrasar para uma reunião no trabalho, voltar às aulas chatas de matemática na escola ou até correr de monstros de um filme de terror: são inúmeros os cenários. cotidianos, místicos ou premonitórios, os sonhos transcendem a dimensão consciente e trazem à tona conteúdos das profundezas da psique. rios destaca que, ao retomar o que sonhamos, como em um “reflexo neurológico de fuçar o desconhecido”, somos capazes de encontrar no inconsciente diferentes formas de renovar perspectivas e visões de mundo.
além das funções psíquicas, sonhar traz benefícios como fixação de memórias, estímulo à criatividade e flexibilização cognitiva. mas como desfrutar do inconsciente se temos sonhado menos? uma pesquisa de 2022 na revista sleep epidemiology apontou que 65,5% dos brasileiros dormem mal, o que está associado a diminuição da qualidade do sono REM, fase do descanso em que acontecem os sonhos vívidos.
esse déficit, causado por um estilo de vida acelerado, gera mais do que prejuízos individuais. perdemos também a chance de acessar descobertas coletivas, que emergem do compartilhamento simbólico e da reflexão trazida pelos sonhos, como afirma o cientista sidarta ribeiro: “que futuro sonhamos para nós, se nem temos tempo para imaginar uma realidade diferente dessa que vivemos?”.
colaboradores: fernanda côrrea, produtora de conteúdo shifter; patrícia francisco, projetora astral;rodrigo krause, médium; sérgio arthuro e eric amaral, professor e doutorando do instituto do cérebro da ufrn
*nome alterado para preservar identidade da entrevistada
Mais estranho que a ficção
 
Por Isabelle Almeida
 
É uma noite fria. Mr. Jones está sozinho no quarto. Sentado na poltrona, ele folheia o jornal sem prestar muita atenção. De longe pode-se ouvir o ruído de um disco de jazz tocando. Seus olhos se abrem e fecham, sonolentos. Alguma coisa está acontecendo aqui e você não sabe o que é. Sabe, Mr. Jones?*
É um rapaz de boa aparência, musculoso e de cabelo loiro. Ele não sorri enquanto conta para o repórter como foi assaltado e hostilizado, “fomos parados por bandidos que fingiam ser policiais”, declara sem piscar.
Mr.Jones pode ver o rosto das pessoas reunidas na sala enquanto assistem ao noticiário. “Por isso que não se deve fazer as Olímpiadas em países do terceiro mundo”, ouve alguém dizer.
Mas Mr.Jones se sente inquieto. Ele olha para a mulher ao seu lado e percebe que ela não tem rosto, ninguém ali tem. Vozes se repetem sem parar em sua cabeça, “O americano Ryan Lochte… pobre Ryan Lochte, assaltado em um país de terceiro mundo”. Assustado, ele se afasta até bater a cabeça contra a parede.
Ele abre os olhos e se vê parado em frente a uma casa. Uma menina abre o portão e sai para a rua, passando por Mr. Jones como se ele não existisse. Ela tem o celular em mãos e parece muito entretida olhando para a tela. Mr. Jones demora a entender o que se passa, mas percebe que ela está capturando pokémons. Algo ruim está para acontecer. Ela se afastava mais e mais, indo em direção ao rio. Quando finalmente para, seus olhos estão fixos em uma sombra deitada no chão. É um cadáver.
A televisão estava ligada, mas ele não prestava atenção. Ouvia a mulher reclamar com uma voz rancorosa e apenas concorda sem demonstrar emoção. “É uma piada de mal gosto. Uma piada de mal gosto”, ela repetia inconformada. Como poderia a maior democracia do mundo eleger um bilionário racista como Donald Trump?
Em um estalo, Mr. Jones acorda. Levemente perturbado, se levanta e anda até a janela. Lá fora, a cidade se estende como um aglomerado sem sentido de luzes e barulho. Uma neblina espessa paira pelas ruas como uma doença. Mr. Jones coça a cabeça. São apenas sonhos, ele pensa. Apenas sonhos estranhos.
*Something is happening and you don’t know what it is. Do you, Mr. Jones? (Ballad of a Thin Man- Bob Dylan)
Mente sai, corpo fica
 
Por Nairim Bernardo
 
Você já teve aquela sensação de que o seu sonho parecia muito real ou mesmo que você estava acordado dentro dele? Pois bem, pode ser que não seja coisa da sua cabeça. Ou melhor, pode ter acontecido algo muito além da sua cabeça. O que alguns pensam ser sonho, outros acreditam que seja projeção astral.
Funciona assim: quando dormimos, nossa mente deixa de se manifestar no corpo físico e passa a se manifestar em um plano não material. Caso você esteja inconsciente nesse plano imaterial, irá ter devaneios, fantasias e pensamentos da mente física, ou seja, sonhos. Já se estiver consciente, será como se estivesse acordado no plano material, poderá fazer o que quiser, ir para onde quiser e encontrar pessoas (vivas ou não). As possibilidades são infinitas. Mas se você ainda não conseguiu atingir uma boa consciência e lucidez sobre essas questões, uma experiência astral não muito forte irá te parecer apenas um sonho mais nítido do que outros.
As explicações e usos para esse fenômeno variam. O Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia oferece um curso com material didático, carga horária de 50 horas, aulas teóricas e práticas para quem quer investir na autopesquisa e no desenvolvimento pessoal. Mas, segundo Morgana Pereira, bruxa e astróloga, “A projeção astral faz parte do trabalho mágico no que diz respeito a manipulação de energia. Pode ser para o bem ou mal dependendo de quem e como faz”. Já Roberto Pineda é administrador, tem 64 anos, faz projeções desde bebê e em 2010 criou um blog para esclarecer dúvidas e relatar suas experiências. Para ele, não há nada de espiritual nisso, “As projeções nos proporcionam conhecimento próprio, nos libertando de condicionamentos, formatos, medos e crendices”, defende.
Se toda essa viagem te deixou confuso, é hora de acordar. Mas como voltar do astral? Segundo Roberto, “Basta se concentrar no corpo físico. Além disso, é normal querer continuar lá,mas ser trazido de volta por algum incômodo físico ou por uma emoção mais forte no ambiente astral”. É raro, mas também podem ocorrer dificuldades no retorno. Caso a pessoa acorde e sua consciência ainda se manifeste parcialmente no corpo material, não conseguirá reativar totalmente o corpo físico, ficando paralisada.
O que alguns chamam de “catalepsia projetiva”, a ciência nomeia de “paralisia do sono”. Os sentidos despertam durante o REM- fase mais profunda do sono, onde ocorrem os sonhos – mas os músculos não respondem. A pessoa fica paralisada, sem conseguir abrir os olhos, mas com a sensação de que está vendo o que acontece ao redor. Segundo a literatura médica, é normal ter alucinações durante esses episódios. Se você já teve isso, saiba que não está só. Pesquisas de 2011 da Universidade da Pensilvânia indicam que 8% da população mundial, 28% dos estudantes e 32% dos pacientes psiquiátricos já tiveram pelo menos um episódio de paralisia do sono.
Dependendo da explicação que mais convença, a hora de dormir pode ser apenas um momento de descanso ou a plataforma de embarque para uma grande viagem. Em caso de emergência, é recomendável procurar um especialista (seja ele uma bruxa ou um neurocientista).
Por Nairim Bernardo
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.