Arte: Ester de Brito
Eu sei que você tem um segredo. O seu melhor amigo, a pessoa sentada do seu lado no ônibus e até a sua mãe também guardam algum. Todos temos algo a esconder. Algumas coisas pequenas e insignificantes. Outras, tão profundas que mal conseguimos encará-las, quanto mais compartilhá-las. Os segredos nos protegem, nos unem em comunidade e nos instigam. Ao mesmo tempo, nos sufocam e nos fazem prisioneiros de nós mesmos. Eles são parte da nossa humanidade e da nossa essência.
O segredo está dentro de cada um, todos guardamos confidências próprias e de outros. Sabemos de segredos em segredo. É este mistério, por vezes fantasiado de enganação e, em outras, de anonimato, que seduz o interesse de qualquer bisbilhoteiro.
Do padre no confessionário ao detetive particular, abordamos como o segredo é tratado pelas profissões. Investigamos os segredos do cotidiano, nas prateleiras do supermercado e nas redes sociais. Para ir mais a fundo, exploramos sua psicologia e até a personificação do segredo, seja em uma comunidade, ou em uma relação.
Os segredos inspiram nossa imaginação desde crianças. Somos provocados por mistérios e grandes revelações que usam esse recurso, tão humano, para contar histórias. Aqui, tentamos reproduzir o mesmo, sob um olhar objetivo e ao mesmo tempo, sensível, respeitando a intimidade presente nos segredos de cada um.
No Claro! Segredo, convidamos você a ir além das aparências, buscando entender o que se esconde nas entrelinhas. Aqui, cada história e cada reflexão são uma chance de explorar as profundezas do sigilo e deixar em evidência exatamente o oculto.
Expediente - Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Junior. Diretora da ECA-USP: Brasilina Passarelli. Chefe do departamento: Luciano Guimarães. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Beatriz Pecinato. Editores de conteúdo: Cecília de O. Freitas e Tulio Gonzaga. Editora de Arte: Beatriz Pecinato. Editora online: Raquel Tiemi. Ilustradoras: Alessandra Ueno e Ester de Brito. Diagramadores: Billie C. Fernandes, Carolina Sena, Luana Takahashi, Maria Fernanda Barros, Nicolas Vieira e Suelyton Viana. Redação: Bárbara Bigas, Cora Andrade, Camila Sales Machado, Camilly Rosaboni, Gustavo R. Silva, Ingrid Gonzaga, Julia Ayumi Takeashi, Júlia Galvão e Julia Estanislau. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 - Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508 920. Telefone: (11) 3091- 4112. O Claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso-Suplemento.
Arte: Ester de Brito
“Promete que não conta pra ninguém?” É o que se diz quando se está prestes a arrancar do peito aquilo que está te perturbando faz tempo. O ato de compartilhar um segredo tem um quê de ilicitude, como dividir um tesouro roubado, ou uma maldição. O ditado popular diz que essa promessa foi feita para ser quebrada.
Há todo um gênero de programas – geralmente podcasts ou vídeos – em que as pessoas voluntariamente expõem suas histórias pessoais, ocultando a identidade, para o mundo todo. É o caso do Clube do Erro, podcast em que Agnes Brichta, Ana Hikari e Nina Tomsic leem todos os dias um relato enviado pelos ouvintes, lidando com dilemas emocionais e éticos.
Naturalmente, uma boa audiência nesses quadros gera lucro para quem faz e é entretenimento para quem ouve as fofocas – mas e quem manda seus casos, o que tem a ganhar? Por que alguém revelaria que se esqueceu do Dia dos Namorados naquele ano e acabou presenteando com um pão caseiro dado por uma colega? As apresentadoras do Clube acreditam que o programa dá ao público um espaço para desabafar e se sentir menos sozinho nos seus conflitos, no espírito do “todo mundo erra”.
A psicanalista Priscila Gasparini explica que, embora os segredos tenham o seu motivo de ser – para manter a harmonia social ou a segurança de alguém, por exemplo –, eles podem ser um fardo emocional para quem os guarda. O impulso de contar existe porque buscamos modos de aliviar isso: com validação e apoio.
O que corrobora com essa resposta são os estudos do professor Michael Slepian, da Universidade de Columbia. De 2012 a 2021, ele investigou a psicologia dos segredos. Ele concluiu que guardá-los a sete chaves é capaz de causar estresse, isolamento, queda na produtividade e falta de disposição física. A neuropsicanalista também destaca que a pressão interna pode ser tão grande que acaba afetando a autoestima, a identidade e a sensação de autenticidade.
No fundo, todos nós, em algum nível, somos como a personagem cujo namorado está fingindo ter amado a focaccia improvisada de segunda mão, enquanto ela finge que pensou com todo o carinho no presente. Compartilhar histórias é essencial e constitui as relações humanas, seja em particular ou anonimamente, para uma ampla audiência. O segredo tem a ânsia de se expandir além do baú em que é contido.
Arte: Alessandra Ueno
No ano de 2011, a atriz brasileira Carolina Dieckmann teve seus segredos roubados. Seu computador pessoal foi invadido por um criminoso, que vazou na internet suas fotos íntimas após tentativa de extorsão. Diante disso, a justiça brasileira reagiu, dando luz à lei que leva o nome da atriz, que criminaliza a invasão de dispositivos digitais a fim de obter ou adulterar informações pessoais.
O caso foi o início de um olhar mais aprofundado para os crimes cibernéticos, que por vezes tem no anonimato a sua principal característica. Este, no entanto, não garante total segurança ao criminoso que por trás dele se esconde.
A justiça pode solicitar a quebra de um anonimato. O usuário afetado também consegue, com uma notificação extrajudicial, solicitar que os dados desse perfil sejam mantidos. “A preservação é importante, porque se o criminoso deletar as informações que estão na internet, você tem isso guardado”, afirma Leandro Morales, perito forense computacional.
O segundo passo é buscar o número de IP do usuário anônimo e descobrir sua real identidade. “Quando uma delegacia de crimes cibernéticos recebe uma denúncia, ela tem que entender quais são os aplicativos e as pessoas envolvidas”, explica Leandro. Uma vez que essas informações são apresentadas à justiça ou à polícia, uma ordem judicial pode ser enviada às plataformas — como o WhatsApp ou TikTok — para a obtenção de dados que ajudarão na investigação.
Do ponto de vista da lei, o Marco Civil da Internet determina que um conteúdo como o que prejudicou Carolina Dieckmann deve ser derrubado por ação judicial. Em casos de pornografia contra a vontade do usuário, a plataforma é responsabilizada judicialmente pela retirada do conteúdo.
Apesar dessa determinação, outras lacunas permanecem na garantia de privacidade dos usuários, especialmente em situações que não tiveram o mesmo destaque do caso Dieckmann. “As empresas, na iniciativa de moderação de conteúdo, falavam que o material não violava as regras em termos de privacidade”, comenta Verônica Barros, advogada de Direito Regulatório e Digital. Isso dificulta a retirada de conteúdos desagradáveis a certos usuários. Paulo Sarmento, advogado de Privacidade e Proteção de Dados, afirma: “Casos midiáticos têm esse apelo por respostas mais imediatas”.
Arte: Suelyton Viana
“Tá vendo esses cookies?”, pergunta Davi, segurando embalagens conhecidas de biscoito. Aqueles crocantes, com gotas de chocolate que derretem na boca e que dão vontade de comer só de lembrar. “Vou te provar que eles não são feitos de chocolate”, continua Davi, puxando o espectador para a realidade. Ele está certo: enquanto na frente do rótulo está escrito “cookie com gotas sabor chocolate”, atrás, na lista de ingredientes, descobre-se que o “sabor” é feito de açúcar e gordura vegetal – e nada de chocolate.
Esse é apenas um dos segredos nos rótulos dos alimentos que o gastrólogo e influencer Davi Laranjeira leva seu 1,3 milhão de seguidores a desvendar. Em 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) implementou mudanças na rotulagem para melhorar a qualidade das informações disponíveis. O destaque foi a adoção da lupa na parte frontal da embalagem, que revela se um produto é alto em sódio, açúcar ou gordura saturada. Ainda sem estudo oficial, ela já parece dar resultados.
Pesquisa da Bain & Company, publicada pela Folha de S. Paulo em março, revelou que 56% dos consumidores repararam no novo rótulo. Destes, 46% desistiram de comprar o produto ou pretendem reduzir o consumo – por mais delicioso que seja. Apesar do avanço, vídeos como o de Davi revelam que há ainda o que melhorar.
Para Mariana Ribeiro, analista de pesquisa do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), as novas regras ficaram aquém das evidências que a ciência já tinha no início das discussões, em 2014. A escolha da lupa em detrimento de outros símbolos de alerta, a comunicação falsa (como o “sabor” chocolate) e a lista de ingredientes em letras miúdas são apenas alguns dos mecanismos que mantêm os mistérios das prateleiras.
Como informação nunca é demais, a leitura do Guia Alimentar para a População Brasileira é recomendada, além da regra de ouro: evite os ultraprocessados. Para identificá-los, leia a lista de ingredientes. Nela, os elementos são declarados por sua proporção no produto, então, se começar com “açúcar”, vale a atenção, assim como a presença das palavras corantes, aromatizantes e edulcorantes (adoçantes).
Colaboradores: João Peres, co-fundador do Joio e o Trigo, Tiago Rauber, coordenador de Padrões e Regulação de Alimentos da ANVISA
Arte: Ester de Brito
Um assassinato é cometido e o assassino, arrependido, vai em busca de ajuda. E, para que ele tenha coragem de revelar seus segredos mais obscuros, precisa confiar que nada do que disser será ouvido por uma terceira pessoa. O sigilo é essencial.
A reação natural de muitos, ao ouvir o relato do crime cometido, seria a de contar às autoridades. Mas, profissionalmente, alguns ouvidos não têm essa permissão, podendo, salvo algumas exceções, somente aconselhar o confessante.
O assassino vai até uma igreja. “Perdoe-me, padre, pois eu pequei”, diz. Para os católicos, é essa a frase que inicia um processo de reconciliação com o divino. A confissão é o sacramento em que os pecadores contam aos padres suas faltas, para serem desculpados.
O Direito Canônico da Igreja Católica, conjunto de regras da instituição, em concordância da lei brasileira, proíbe os padres de revelar qualquer tópico dito no confessionário — a mera insinuação de algo confessado pode destituí-los de seus deveres como sacerdotes, se denunciados.
Ali, o próprio Deus, além do padre, é quem está na escuta. Mas nem tudo que é confessado é imediatamente absolvido e o sacerdote, nesse caso, instrui o pecador a pedir ajuda — uma que só encontrará fora dos limites da igreja. Instrução é, principalmente, o que o criminoso irá encontrar ao confessar seu crime a outros profissionais. O que talvez não encontre seja o sigilo absoluto, que obteve do padre.
Conversando com um psicólogo ou contando o que fez a um advogado, se algum deles julgar que há possibilidade de futuros prejuízos ao próprio assassino ou a terceiros, o segredo pode ser revelado às autoridades, como previsto nos códigos de ética de ambas as profissões. O criminoso, nas sessões de terapia e nos encontros com seu advogado, será alertado sobre as implicações de seus atos e, ainda, não terá sua culpa absolvida.
Um profissional que poderia denunciar qualquer caso de crime, sem ferir o seu código de ética, seria o jornalista. Embora ele conte com um resguardo legal para não revelar as fontes que pedem para ficarem ocultas, em casos de interesse público — como a resolução de um assassinato — os nomes podem ser mencionados. Como aos psicólogos e advogados, cabe ao jornalista fazer uma análise e entender os riscos que a fonte pode correr, caso seu nome venha a público.
Agora orientado, o assassino pode confessar-se para a única que, de fato, pode resolver a situação e fazer com que o criminoso lide com o que foi feito: a Justiça. É ela que tem a competência de julgar o ato e aplicar as penas cabíveis a cada caso, de acordo com a lei dos homens.
Resolvendo-se com a Justiça por conta própria, o fiel pode, enfim, retornar ao padre e solucionar suas pendências com Deus. A entidade superior sempre perdoa a todos os arrependidos. “Eu te absolvo de teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
Colaboradores: Katria Brabat, presidenta da Abraji; Marcelo Dentello, advogado; Maria da Glória Amados, conselheira do CRP-SP; Padre Manoel de Godoy, professor na Faculdade de Teologia dos Jesuítas de Belo Horizonte; e Talita Fabiano de Carvalho, conselheira e presidenta do CRP-SP.
Arte: Luana Takahashi
“Você é a pessoa mais importante daqui hoje, foi bom você ter vindo”, começa o coordenador. Essa é a primeira coisa que um adicto ouve em uma reunião de Alcoólicos Anônimos. Caso a mensagem ressoe, o único requisito para virar membro é desejar parar de beber.
Foi esse desejo que, em 1935, moveu dois alcoólicos nos Estados Unidos a fundarem essa Irmandade e a estruturarem em 12 passos, 12 tradições e 12 conceitos, traduzidos em recuperação, unidade e serviço.
Autossuficiente e independente de instituições, profissionais da saúde ou crenças, o A.A é mantido pelos próprios membros. Presente em mais de 180 países, no Brasil são cerca de 3,9 mil grupos presenciais e 92 online, nascidos na pandemia.
Às 19h30, todos já estão sentados. Com exceção de uma mulher, o resto é homem. “Se o grupo perecer, o indivíduo morre”, declara um deles. Para evitar isso, todos mantêm-se anônimos nos meios de comunicação e na internet.
Para amigos de A.A e não-alcoólicos, revelar a identidade não é problema. Aos membros, manter segredo é a forma de preservar o processo de recuperação e criar um espaço seguro para compartilhar histórias de vida. Para a Irmandade, é o que garante sua sobrevivência.
“Toda a base do programa é a deflação do ego”, diz Lívia Guimarães, presidente da Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil (Junaab). E o anonimato foi a grande sacada para isso.
Ao Claro!, anônimos relatam que nesse processo abdicam da autopromoção e da ânsia por poder, prestígio social e dinheiro. Isso protege o A.A. dos estigmas e das críticas ao comportamento dos que usam a filiação para benefício próprio e mancham a reputação do programa.
A humildade praticada ao aceitar essa condição os ajuda a manter a sobriedade. “Não é só parar de beber, é poder fazer algo sem esperar nada em troca. Isso é o anonimato”, explica um membro.
“Dar de graça o que de graça recebemos” é o propósito primordial do grupo. O único momento em que o anonimato permite uma abertura — e não uma quebra —, é quando um membro transmite a mensagem do A.A. para um alcoólico que ainda sofre.
Final da reunião, todos os participantes em pé. Em uníssono todos recitam, alguns emocionados, outros de forma protocolar: “quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. esteja sempre ali”.
Colaboradores: Membros do Alcoólicos Anônimos, Gabriela Henrique, vice-presidente da Junaab, Alessandra Calixto, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas.
Arte: Luana Takahashi
Em um dia comum de trabalho, Ben* recebe um pedido inusitado em seu WhatsApp: “Você pode seguir o meu marido até uma rodoviária?”. A solicitação é feita por uma mulher que jura saber que seu companheiro há 20 anos esconde algo.
O pedido, apesar de estranho, é atendido e a constatação chega após algumas horas: o homem está a traindo com um de seus melhores amigos. A descoberta foi feita por um detetive particular e, mesmo sendo incomum, é só um dos casos coletados por esses investigadores.
A profissão, além de lidar com a delicadeza dessas situações, enfrenta a ausência de detalhamento em sua regulamentação. A ocupação foi reconhecida no país em 2017, com a Lei nº 13.432, mas a legislação ainda não determina aspectos importantes sobre o seu exercício — como um curso ou especialização de formação.
Anderson Araújo, detetive da Alfa Investigações, explica que isso faz com que a aplicação de golpes por parte de indivíduos que se passam por investigadores seja costumeiro.
Luiz Gomes, presidente da Associação Nacional dos Detetives e Investigadores Privados do Brasil (Anadip), indica que a falta de detalhamento da lei muitas vezes afasta a sociedade da profissão. “As pessoas ainda enxergam o detetive como uma pessoa que faz coisas erradas. Uma mudança deve ser feita para a profissão passar a ser vista como aliada”.
O processo de investigação enfrenta, assim, a falta de reconhecimento, a manutenção de uma série de segredos e grandes custos para garantir o sucesso da operação. Os detetives explicam que as investigações conjugais, por exemplo, costumam custar uma média de R$ 5 mil reais, mas trabalhos mais complexos — como aqueles que necessitam de dispositivos específicos — podem ultrapassar os R$ 50 mil.
O caso descrito no início do texto chama atenção para o fato da profissão envolver uma condição humana delicada: o sentimento de traição. Nesse cenário, os entrevistados apontam que é necessário que os investigadores humanizem o processo.
“O detetive particular não está na lista de prioridades de ninguém. Quando a pessoa busca esse serviço, ela já está muito fragilizada e, por isso, tomar cuidado durante a investigação é essencial”, complementa Gomes.
*O nome da fonte foi alterado para preservar sua identidade
Arte: Alessandra Ueno
Não é novidade que conteúdos de todos os tipos podem ser encontrados na internet. Mas recentemente, conteúdos extremamente problemáticos ganharam espaço nas redes sociais. Competição de jejum entre jovens com transtornos alimentares, incentivo a automutilação, instruções de como praticar furtos e até mesmo vilipêndio de cadáveres são alguns exemplos.
Um relatório do Núcleo Jornalismo (2023), revelou subcomunidades virtuais acessadas majoritariamente por jovens, de forma anônima, com fotos e nomes fictícios. Segundo Tatiana Azevedo, uma das autoras da pesquisa, as “subs” não são necessariamente criminosas, já que podem ser constituídas por pessoas com alguma condição patológica, como transtornos alimentares. Porém, algumas delas infringem a lei com frequência.
“A gente mandou muito bem nessa, tá maluco. Quase fomos pegos na leitura, tavam muito em cima da gente mas deu tudo certo. Não faço ideia de quanto deu, chuto uns 400-500 reais”, diz uma publicação no X, acompanhada de uma foto com vários produtos, supostamente furtados. A pesquisa estima mais de 10 mil usuários envolvidos nesses grupos apenas no X.
Adolescentes, em fase de construção de identidade, são especialmente vulneráveis e se conectam a essas subcomunidades em busca de conexões. Para o psicólogo Gerson Alves, “a condição de criança e adolescente é um campo minado para ser e para se ter influência de terceiros, porque ainda são mentes em construção”.
Esses grupos preferem operar discretamente, sem autopropaganda, criando espaços de pertencimento que escapam à supervisão pública. Plataformas como o X e TikTok utilizam algoritmos que recomendam conteúdo com base nas interações dos usuários, que acabam formando grupos de interesse comum. “Por exemplo, se eu sigo as contas A e B e a conta C também interage com A e B, o aplicativo irá me recomendar que eu siga a conta C”, conta Tatiana.
A forma que os membros encontram para se “proteger” é não interagir com contas que não façam parte das subcomunidades, evitando o vazamento de suas postagens. A prática tende a funcionar, mas não impede que alguma postagem seja descoberta pelo mecanismo de busca da plataforma, por exemplo. Nesses casos, mesmo ocorrendo exposeds, as postagens costumam ser deletadas, perfis são brevemente trancados e logo tudo retorna à ‘normalidade’.
Colaboradora: Sofia Schurig, repórter de tecnologia do Núcleo Jornalismo.
Arte: Alessandra Ueno
Seitas, cerimônias secretas, organizações fechadas. A forma com que o outro lida com o divino e a espiritualidade pode causar curiosidade ou aversão de quem não conhece ou não se identifica. Quando se trata de tradições religiosas menos habituais, mistérios e teorias do que ocorre dentro dos templos e sobre as pessoas que os frequentam podem surgir.
É como se houvesse uma porta guardando aquela tradição. Se aberta de uma vez, pode ofuscar, como sair de um ambiente escuro para um muito claro. Algo que atinge não só quem está de fora, mas quem está dentro também.
Comumente chamado de “Mórmon”, Daniel Costa, integrante da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conta que templo é um lugar sagrado e até membros batizados precisam passar por um processo de dignificação antes de entrar, o que pode colaborar para a sensação de mistério em torno da religião, mas não que haja algo escondido.
Durante a pré-adolescência, ele diz que omitia sua religião dos amigos. De roupa social e cabelos penteados, ele não gostava dos apelidos que recebia. “Eu voltava da Igreja aos domingos e logo tirava a gravata”.
Ser adepto de uma religião que envolve personalidades conhecidas, como Tom Cruise, membro da Scientology, gera ainda mais curiosidade. Diretora da unidade de Cientologia do Tatuapé, Luciana Santos conta que não existem rituais ocultos, mas que por ser menos tradicional, pode causar medo. “Você tem que estudar, testar e ver por você, pois ninguém vai impor. Se cada um permitir, chamamos todos para nossas atividades”.
Para Daniel e Luciana, essas concepções populares se dão pela falta de esclarecimento e distanciamento por parte da população que acaba confundindo-os com outras religiões ou dizendo que fazem parte de uma seita. Entretanto, eles afirmam, “não somos um grupo fechado”.
Apesar dos estigmas relacionados a essas restrições, há tradições religiosas intencionalmente fechadas, chamadas de “Escolas Iniciáticas”, como a Maçonaria. Paulo Henrique Lopes, doutor em Ciência da Religião, diz que nestes casos, o limite é colocado na própria estrutura institucional e hierarquização destas tradições.
Além disso, ele explica que até mesmo grupos autodeclarados ou vistos como abertos podem ter instâncias vedadas e desconhecidas. “É uma dinâmica análoga ao de grupos culturais que se organizam em determinada comunidade. E toda comunidade é relativamente fechada”.
Arte: Ester Brito
Namorar escondido remete a lembranças da adolescência. Beijos roubados, cartas de amor, encontros escondidos e por aí vai. A adrenalina de não ser descoberto deixa tudo mais excitante. Por outro lado, construir uma relação madura em segredo é viver com medo, e ter que lidar com isso pode trazer consequências para a integridade de algumas pessoas.
O receio do julgamento, da desaprovação, da invalidação e insegurança frente à exposição faz com que muitos optem por manter relacionamentos em segredo. Em alguns casos, o preconceito se torna uma desculpa velada para não seguir com a relação.
No Brasil, onde pessoas negras são 80% das vítimas de homicídio*, a discriminação racial as obriga a traçar um caminho mais longo e dolorido em busca do amor.
Dona Vera**, por exemplo, sentiu a dor de se envolver às escondidas em sua juventude por sua cor e condições econômicas. Naquela época, meados de 1960, ela, empregada doméstica, mantinha relações com o filho da patroa em segredo. Quando engravidou, percebeu que sempre seria vista como a empregada negra, com uma filha bastarda para criar sozinha.
A dificuldade de expor e sustentar relacionamentos com mulheres negras e pobres não se atém à época de Vera. Amanda, com metade de sua idade, já quis esconder seus traços de preta retinta com medo de não ser assumida.
O racismo não é o único motivo para ser o segredo de alguém. Casais homoafetivos também convivem com dificuldades para viver um amor livre de preconceitos.
Apesar de ter alcançado muitas conquistas ao longo dos anos, como os 25 anos de Parada LGBT em 2024, essa população ainda enfrenta desafios diários, sobretudo em um país que mais mata LGBTI+ no mundo***.
Após viver quase dois anos às escondidas com sua amada, Ana** conta que os olhares ácidos por aí não lhe incomodam tanto quanto dizer “amiga” aos seus pais.
O preconceito ainda limita o relacionamento de muitas pessoas. Mas movimentos e lutas continuam para que a necessidade de amar escondido fique apenas nas peripécias da juventude.
Colaboração: psicóloga Beatriz Bonfim e Amanda Nefer.
*Atlas da violência
**O nome da fonte foi alterado para preservar sua identidade
***Dossiê da Violência contra LGBTI+ no Brasil