Perder é inevitável. Às vezes, é um objeto que desaparece, um plano que não se cumpre, uma pessoa que não volta, uma porta que se fecha. Há quem se perca em uma nova cidade, no tempo, na rotina, na tela do próprio celular. E há quem se perca dentro de si, nas profundezas dos próprios pensamentos.
Como diria Paulo Coelho, “quanta coisa perdemos por medo de perder?” E talvez seja justamente esse temor que mais nos confunde, porque, no fundo, mesmo sem sabermos, há perdas que libertam. Perder peso, uma relação que machuca ou um emprego exaustivo.
O Claro! Perdido nasce da tentativa de entender o que significa se sentir sem destino num mundo que exige direções. Cada pauta desta edição parte de um tipo de perda: a da memória, da liberdade, do sono, do controle, do próprio futuro. Juntas, elas formam o retrato de uma humanidade que vive na dúvida entre o que éramos e o que ainda nem sabemos ser.
Talvez estar sem rumo não seja um estado, mas um processo. Você se sente achado ou perdido? A resposta pode não ser simples, mas só tem um jeito de encontrá-la: procurando. E para te ajudar nessa busca… Claro! Perdido
Expediente – Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Junior. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do departamento: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Natália Tiemi. Editores de conteúdo: José Adryan e Júlio Silva. Editora de Arte: Natalia Tiemi. Editor Online: Alex Amaral. Ilustradores: Giovanna Castro e Yasmin Andrade. Diagramadores: Felipe Bueno, Gabriela Barbosa, Guilherme Ribeiro, Isabel Briskievicz, Julia Martins, Júlia Queiroz, Pedro Malta, Tainá Rodrigues, Tatiana Couto, Yasmin Teixeira. Redação: Bruna Correia, Davi Caldas, Diego Coppio, Filipe Moraes, Gabriela Cecchin, Gabriela Varão, Guilherme V., Jean Silva, Jennifer Perossi, Julia Teixeira, Luíse Homobono, Marina Galesso, Matheus Bomfim, Sophia Vieira, Yasmin Brussulo. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508920. Telefone: (11) 3091- 4112. O Claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso-Suplemento.
Para acessar a edição Claro! Perdido diagramada, os PDF’s se encontram no link abaixo:
Fazer aniversário na infância é sinônimo de festa e alegria. Na adolescência, vira uma contagem regressiva para a tão sonhada maioridade e seus privilégios. Beber sem precisar esconder, dirigir, ter mais liberdade e começar a sonhar com voos mais distantes.
Até aqui, foi traçada uma trajetória de vida: ir para a escola, escolher uma carreira e trabalhar. No entanto, ao entrar na fase adulta, fazer aniversário pode mostrar que esse roteiro não é tão organizado quanto parece.
Uma pesquisa do LinkedIn, de 2018, mostrou que 80% dos brasileiros de 25 a 33 anos passam pela “crise do quarto de vida”, fenômeno que ocorre devido a desconexão entre expectativas e a realidade da carreira, e que leva jovens adultos a se sentirem perdidos e repensarem suas escolhas de vida. Em casos mais intensos, pode acarretar em quadros de adoecimento mental, com sintomas de burnout, estresse e ansiedade.
Apesar do nome, é uma situação que não está necessariamente ligada à idade, mas ao momento da vida. Na opinião de Danieli Silva, analista de RH, isso acontece em momentos de mudanças significativas e reavaliações de prioridades.
Na última década, esse fenômeno passou a ocorrer frequentemente com pessoas mais jovens, devido ao acesso antecipado à faculdade e ao mercado de trabalho — com maior acesso à informação —, à flexibilidade dos empregos atuais e à mudança no significado de trabalho para essa população, que busca ter um propósito em sua ocupação, ao invés de priorizar os ganhos financeiros.
“A carreira deixou de ser uma escada vertical e passou a ser mais horizontal, com foco em experiências diversas, equilíbrio de vida e propósito. Muitos valorizam mais a flexibilidade, o bem-estar e a cultura organizacional do que um plano de carreira tradicional ou altos salários”, opina Danieli.
Ao atribuir a necessidade de um propósito de vida à esfera profissional, os jovens acabam por romantizar a carreira, podendo interpretar cada defeito como um problema intolerável. E com o crescimento das redes sociais, a comparação com influenciadores aumenta essa idealização. Para a psicóloga orientadora de carreiras Ananda Gama, “aquele profissional que ela acompanha na internet não compartilha o estresse, a burocracia, os desafios concretos do dia-a-dia de trabalho”.
Um caminho para evitar essa crise é entender que não existe uma carreira ideal, e ter clareza em quais são seus valores e no que é inegociável em um trabalho. A orientação profissional também é importante, pois trabalha com o autoconhecimento e mostra que estar perdido na carreira, independente da idade, não é sinônimo de fracasso.
Contribuição: Ana Carolinna Gimenez, estrategista de dados; Pedro Boldino, estudante de Educação Física; Virgínia Fernandes, assistente administrativo
Cadê meu filho?
 
Por Davi Caldas
 
Arte: Yasmin Andrade
Abre
O Brasil registrou 90.256 casos de desaparecimento de menores entre 2021 e abril de 2025, dos quais 34 mil ficaram sem solução, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Com isso em mente, alguns pais optam por usar tecnologias de rastreamento, como tags ou aplicativos de celular. E mesmo com diferentes perspectivas sobre o assunto, todas convergem em um mesmo propósito: o desejo de manter seus filhos seguros. Em 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente foi sancionado, o que consolidou um equilíbrio delicado entre cuidar e vigiar — no qual o uso de ferramentas de monitoramento é autorizado, mas com limites claros em relação à vigilância excessiva, ao rastreamento oculto e à coleta desnecessária de dados sensíveis.
Bloco 1
Para Saylane da Conceição, a tecnologia de rastreamento veio como um alívio. Em concordância com a filha de 13 anos e sem tempo livre para acompanhá-la no seu caminho à escola, a mãe encontrou em um aplicativo de celular a segurança de deixá-la ir e vir sozinha ao conseguir reconhecer possíveis desvios de rota. “Foi o que proporcionou essa confiança mútua, para manter mais tranquilidade e dar mais liberdade à ela”, conclui. Camila Alves, mãe de três jovens, usa a tecnologia de maneira esporádica, quando eles fogem de suas rotinas habituais. Os filhos, por sua vez, também podem acompanhar a localização dos pais. “Mesmo quando a nossa filha mais velha não quis mais usar o aplicativo, não questionamos. Da mesma maneira, ela frequentemente está se comunicando, é um hábito da família”, diz.
Bloco 2
Sheyla Werner, pedagoga especialista em educação inclusiva, entende como ético e saudável o uso de tecnologia para localização quando construído coletivamente nas famílias, e não imposto de forma unilateral pelos pais. A prática deixa de atravessar a ideia de controle e passa a ser de acompanhamento, em que a transparência é vital: “Independente da idade, essa comunicação deve existir. Não pode ser uma informação, mas uma construção”. Ultrapassados os limites, podem começar a surgir prejuízos para a autonomia, independência e até mesmo auto-segurança do sujeito, que se torna alguém com menos confiança em si mesmo e nas suas tomadas de decisões.
Bloco 3
A experiência de Leandro Sperandio como delegado o permitiu analisar situações exitosas com o uso do mecanismo. “Houve um caso em que a criança e a mãe foram vítimas de assalto mediante restrição de liberdade. Por meio do pai, conseguimos acessar o mecanismo e frustramos os bandidos”, relata. A técnica garante uma resposta mais ágil, pois a polícia consegue iniciar o seu trabalho com a linha de investigação certeira, diferente dos demais casos em que há uma perda do “tempo de resposta” e se torna necessário realizar outras técnicas mais burocráticas e menos assertivas. Mesmo nos casos de insucesso, não há prejuízo comprometedor, pois é comum a utilização de ferramentas que acabam não levando ao resultado desejado em uma investigação.
Contribuição: Chiara de Teffé, professora de Direito Civil e Direito Digital na UFRJ
Por aí
 
Por Gabriela Cecchin
 
Arte: Giovanna Castro
Às vezes dá vontade de largar tudo e sumir. Esta sensação é comum e foi o que passou pela cabeça de Lívia Sousa* quando arrumava a bagunça do filho de seis anos, arteiro e curioso, na casa da avó. Por dificuldades financeiras, ela é voluntária há três meses em um hostel na Vila Madalena, na capital paulista, em troca de abrigo e R$ 30 por semana para alimentação. A convivência com viajantes fez crescer o desejo de sair por aí.
“Acho que eu começaria pela Europa”, dizia ela à hóspede francesa Lilune Bocher, estilista contratada pela renomada marca de grife Chanel — mas em uma área administrativa. “Moda é expressão da personalidade, e aquela não era a minha.” Largou o emprego e partiu para um mochilão pela América Latina. “O Brasil foi meu primeiro destino e estou adorando, ótimo para minha criatividade”. Segundo a Revista Turismo em Análise (2022), mais da metade dos mochileiros que viajam pelo Brasil são mulheres entre 24 e 35 anos.
Apenas 3% começam antes dos 23, mas Eliezer Tymniak, do canal do YouTube Via Infinda, contrariou os dados e começou aos 18, pois achava Brasília fechada demais. “Já tinha tudo comprado antes de contar pra família”. Ficou conhecido por desafios radicais, como ir à Argentina com R$ 4 ou comer restos de McDonald’s em Paris. “É uma lista gigante de coisas que aprendi. O mundo é bem maior do que parece”, diz.
Os imprevistos são parte do caminho. Renan Greinert e Michele Martins, do canal do YouTube Mundo Sem Fim, viajam há dez anos e relatam que na última jornada, ao Líbano, foram revistados por soldados do Hezbollah.
“Ficamos menos medrosos, porém mais cautelosos. Aprendemos a diferenciar o perigo real do simples desconhecimento e perdemos muitos preconceitos”, diz Renan.
A socióloga Samira Petry, que estuda a vida itinerante, afirma que cortar raízes geográficas faz perder as grandes certezas do cotidiano. “Na estrada, nada tem muito controle. Na mochila, não cabe tudo; é preciso abrir mão de objetos queridos. Isso muda a forma de se relacionar com a vida.”
Alguns desafios são silenciosos. No inverno europeu, cercado por casais, Eliezer percebeu-se sozinho após dois anos de estrada. Lilune tentou evitar o mesmo e levou uma amiga a Paraty (RJ), mas fez tantos amigos que mal precisou da companhia. Michele, mesmo com Renan por perto, nota que conversar é mais difícil com europeus. “Se você está começando, a América Latina é o melhor lugar pra viajar.”
Mas dá pra ir sozinho e encontrar alguém por aí. Jonas Duarte* pegou um ônibus para o litoral paulista com a roupa do corpo. Lá conheceu uma mulher com história parecida, casou-se e vive de esculturas de arame na orla de Ilhabela (SP). Hoje, sonham em ter um filho arteiro e curioso — como o de Lívia — para bagunçar a areia da praia. Mantinha contato com a família até deixar o celular cair no oceano, o que relata com um sorriso: “Melhor assim.”
*nomes fictícios
Paciência é perda de tempo?
 
Por Bruna Correia e Gabriela Varao
 
Arte: Pedro Malta
Dentro da tela, as horas parecem minutos. Tudo acontece rápido, fácil, imediato. Fora dela, o tempo parece devagar. Assistir a um filme inteiro? Difícil. Ler um livro? Um desafio. Cozinhar? Demora demais. É como se o mundo real tivesse perdido a velocidade certa e as pessoas, a paciência.
Lucas Sales passa horas nas redes sociais. “Nunca mais uma fila foi entediante para mim”, diz o designer. Para ele, “o tempo de espera fora de uma tela é um inferno”.
Esse comportamento tem nome: nomofobia, o medo de ficar desconectado. Lucas explica que o TikTok funciona como uma aposta, em que o usuário desliza esperando que o próximo vídeo seja mais interessante. E quase sempre é.
A psiquiatra Julia Khoury compara os vídeos curtos às drogas, ao dizer que “é como o crack — quanto mais rápido e intenso o pico de prazer, maior a chance de vício”.
Em sua tese de doutorado, a psiquiatra comparou cérebros de dependentes digitais com os de usuários de drogas como a cocaína e encontrou alterações semelhantes.
Segundo a psiquiatra, o consumo de conteúdos curtos e rápidos impede que o cérebro desenvolva a capacidade de manter o foco, habilidade de concentração que é aprendida. “Se desde cedo a pessoa só é exposta a estímulos rápidos, ela não vai conseguir se concentrar por muito tempo em uma única tarefa”.
Pesquisa das universidades de Portsmouth e Surrey, no Reino Unido, analisou como hábitos noturnos influenciam o vício em redes sociais. Foram entrevistados 407 participantes, de 18 a 25 anos, que responderam a testes sobre padrão de sono e uso de tecnologia. Os resultados mostraram que quem dorme mais tarde tende a se viciar mais, especialmente quando há solidão e ansiedade.
Conforme a Comscore, empresa que analisa audiência de mídias, o Brasil é o país latino-americano que mais passa tempo online. Em 2024, os brasileiros passaram 70 bilhões de horas nas redes sociais.
Com mais tempo no mundo digital, a psicóloga Leihge Roselle afirma que “o nosso tempo de conservação da atenção está muito fragilizado”. Ela explica que a dificuldade em escutar áudios ou assistir a vídeos na velocidade normal pode ser um indicativo de uma disfunção na atenção concentrada.
As plataformas também são responsáveis pelas horas de tela. Fernanda*, desenvolvedora no TikTok, diz que curtidas e compartilhamentos ajudam o algoritmo a prever preferências. “A retenção de usuários deveria ser consequência de uma boa experiência, não o objetivo final”, defende Letícia Maestri, designer de interfaces. Ela explica que para muitas empresas, quanto maior o tempo de uso, maior é o lucro e mais sofisticadas são as estratégias para segurar a atenção.
*nome fictício
Dormir não é para os fracos
 
Por Marina Galesso
 
Arte: Yasmin Andrade
São quatro da manhã quando Giulia Pezarim vê o céu clarear. Joga no computador, assiste a vídeos, trabalha, checa as redes e… o sol nasceu. Para a geração hiperconectada, descansar bem virou um desafio diário e, às vezes, uma culpa: dormir é “perder tempo” que poderia estar dedicado a outras atividades.
Giulia e a estudante Anna Silva já viveram o descompasso entre sono e rotina. Ambas funcionam bem quando podem seguir horários próprios, mas sentem no corpo ao se adaptar a horários convencionais. Anna conta que houve períodos em que dormia quatro horas por noite ao conciliar trabalho, faculdade e academia. O resultado? Mau humor, cansaço e falta de energia.
Para o psicólogo Léo Paulos Guarnieri, os casos ilustram o desencontro entre ritmos biológicos e exigências sociais. “O sono é biológico, individual e social. Cada pessoa tem uma necessidade e um cronotipo que é como o corpo regula naturalmente o sono e a vigília”, diz.
Ele explica os cronotipos: há pessoas matutinas, que rendem mais pela manhã; vespertinas, que funcionam melhor à noite; e intermediárias, que se adaptam com mais facilidade. “Rotinas matinais pesam mais para quem tem dificuldade nas manhãs. Mas as jornadas flexíveis também vêm com cobrança por produtividade, o que faz muitos extrapolarem limites e trocarem sono por trabalho”, conta.
A pesquisadora e professora do Instituto do Sono Júlia Vallim menciona um estudo do Laboratório de Cronobiologia Humana (Labcrono) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que indicou que, durante a pandemia, com horários mais flexíveis, o tempo médio de sono entre jovens aumentou em duas horas, e a sonolência diurna caiu.
Para a especialista, os horários escolares e de trabalho impõe restrições de sono, causando um jetlag social: “É como viver em um fuso horário diferente do corpo”. Assim como o jetlag de viagens, o descompasso impacta além do cansaço. “Uma noite mal dormida afeta memória, humor, concentração e causa fadiga. Ficar 17 horas acordado equivale a ter 0,05% de álcool no sangue”, explica.
Júlia aponta o uso constante de telas em lazer e trabalho como um dos vilões do sono. A luz azul emitida por celulares e computadores inibe a produção de melatonina, hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir. Além disso, o conteúdo estimulante das redes sociais, notícias e mensagens mantém o cérebro em alerta, impedindo o relaxamento. A combinação “confunde o relógio biológico” e reforça tendências noturnas de jovens e adultos, prejudicando a qualidade do descanso.
Léo pontua que a lógica produtivista rivaliza com o sono. No entanto, ele é biologicamente essencial. “Nele consolidamos memórias, eliminamos toxinas cerebrais e sintetizamos hormônios. Para funcionarmos, o sono precisa funcionar. É preciso equilibrar rotina com necessidades biológicas e entender o descanso como cuidado, não perda”, diz.
Para mitigar prejuízos, os especialistas destacam a importância da higiene do sono: manter horários regulares para dormir e acordar, evitar telas e luz forte antes de deitar, não consumir cafeína à noite e buscar exposição à luz natural pela manhã. Para o psicólogo, o sono não é uma pausa na vida, é parte essencial dela.
Júlia conclui: “Respeitar o próprio ritmo é essencial à saúde. Dormir não é perda de tempo, é investimento. Uma geração privada de sono é mais ansiosa, menos criativa e mais doente. Achar o contrário é o maior autoengano.”
530 dias de injustiça
 
Por Guilherme Valle e Jean Silva
 
Arte: Yasmin Andrade
No Brasil, 384.586 pessoas estão presas em regime fechado. 66% são negras. 200.426 estão presas provisoriamente, apesar do déficit de vagas nos presídios ser de 202.296. Os dados são do último levantamento do Sistema de Informações Penitenciárias.
530 dias foi o tempo que Jonathan Santana Macedo ficou nessa superlotação. Na manhã fria em que a polícia entrou em sua casa, teria sido levado de cueca e camiseta, não fosse sua esposa.
Também teria sido surpreendente se Jonathan não soubesse que sua foto circulava em grupos de policiais que o acusavam de ser responsável por 18 roubos. Foi denunciado por três. Viraram zero.
O único indício de autoria era a suposta existência de imagens dos objetos roubados em seu celular — não encontradas quando o aparelho foi submetido à perícia.
Nos primeiros 17 dias de cárcere mais de 20 pessoas foram levadas para reconhecê-lo. “Eu ouvia os policiais mandando as vítimas me acusarem”, conta.
Nos próximos 513 dias, Jonathan esperou o desfecho do caso, preso. Nesse meio tempo, perdeu o nascimento do seu filho. Nos primeiros dias de vida, a criança apresentou problemas de insuficiência respiratória. A única forma que Jonathan tinha para falar com a mãe era um email.
Segundo Débora Nachmanowicz de Lima, advogada de Jonathan: “Alegam a garantia da ordem pública. Razões muito abstratas. Não é que a pessoa tentou fugir ou que era uma criminosa em série”.
Em uma série de audiências de custódia, Carin Carrer, pesquisadora do sistema prisional brasileiro, presenciou vários casos de pessoas presas sob a alegação de garantia da ordem pública. “São pessoas em situação de vulnerabilidade sendo geridas pelo Estado via sistema penal”, ela comenta.
Jonathan teve sorte de ser alocado a 20km de casa. Carin conta que essa não é a regra, os novos presídios de São Paulo avançam para o interior, o que dificulta o acesso à defesa e a seus familiares.
A geógrafa explica: “Os números de prisões provisórias flutuam de 30 a 60% nos últimos anos. A maior parte dos presídios são para esses casos. Isso mostra uma ilegalidade. A prisão deveria ser na última instância”.
No mapeamento que fez em sua pesquisa, os estabelecimentos destinados ao regime fechado superam os dedicados ao regime aberto e semiaberto, mais propensos à ressocialização da população carcerária — objetivo do sistema penal.
Depois de provada sua inocência, Jonathan ganhou o pedido de indenização pelo erro judicial. A sentença previa R$ 350 mil, mas a Fazenda Pública recorreu e alegou que R$ 10 mil seriam suficientes. O processo aguarda uma resolução.
“Entra lá e fica uma semana. Me fala depois se é merecida [a indenização] ou se não é”, diz Jonathan.
Mas não existe uma regra nem grandes precedentes de o Estado conceder indenização como um direito amplamente reconhecido pelo Judiciário, explica Patrick Cacicedo, defensor público e professor de direito penal.
“Além de ter cor, [as pessoas em cárcere e parentes] têm menor acesso ao ir e vir, a provocar o estado, dialogar com a defensoria, às digitais possibilidades técnicas”, afirma Carin.
Por você, perdi a mim
 
Por Sophia Vieira e Yasmin Brussulo
 
Arte: Giovanna Castro
A família é o primeiro local de pertencimento na vida. O psicólogo Bruno Zaidan aponta que, quando esse espaço se torna violento, o sujeito pode ficar com a ideia de que está sozinho e não existe lugar para ele no mundo.
Em um contexto sociocultural em que a sacralidade da família é constantemente afirmada, é difícil entender quais são os caminhos possíveis para essas relações. Isabella Diniz cuidou da avó, diagnosticada narcisista, até o último dia. Os parentes se afastaram, e ela também quis ir embora, mas não queria “ser uma neta ruim”.
A dinâmica de um relacionamento violento costuma ter altos e baixos, momentos de agressão seguidos por outros de carinho e apreço. A violência não é constante, afinal, se fosse, o rompimento seria mais fácil. “Ela me levava até o limite e, depois, passava um tempo sendo boa comigo”, relata Isabella.
A dualidade deixou consequências. Para ela, é difícil reconhecer quando se deve largar relações. Isabella relata ter amigos que a fazem mal num momento, bem em outro, como era com a avó. Mesmo buscando novas relações, a autoconfiança perdida ainda a leva para armadilhas. “Eu me perdi, e é difícil me reconhecer fora da imagem que ela pintou sobre mim. Ainda não conheço meus limites”.
Essas relações, segundo o psicólogo, produzem um impacto subjetivo profundo: muita gente só começa a compreender que caminho trilhar depois que tem acesso a outros espaços ou vai morar sozinho. “Às vezes, leva anos para entender que aquilo que viveu na família foi uma violência, que produziu uma forma de ser com a qual a pessoa não está necessariamente feliz, que traz sofrimento, isolamento e solidão”.
Crenças e preconceitos entram na equação e podem representar obstáculos para que o indivíduo se encontre em quem é ou quer ser. É o caso de Azri Pessoa. Ao se assumir trans, os parentes insistiram em negar sua identidade. Ele se afastou como possível, e precisou adiar a transição hormonal por depender da mãe para se manter. Em sua trajetória, Azri também passou por amizades e relações perigosas, tal como Isabella, mas hoje criou uma nova rede de afetos, que o ajudam a trilhar seus novos rumos. Hoje, mais independente e com limites bem estabelecidos quanto à família, está em busca de quem sempre foi.
Bruno finaliza apontando possíveis caminhos: “a identidade não é fixa, ela se transforma a partir das nossas relações sociais”. Para ele, a possibilidade de se reencontrar passa pela conexão com o outro. Novos amigos, afetos e a construção de uma rede de apoio permitem ressignificar inclusive a violência sofrida. Mesmo no silêncio, o laço continua: não como prisão, mas como lembrança do que se foi e do que ainda é possível ser.
Contribuição: Bernardo Suto, químico
Memórias ao vento
 
Por Jennifer Perossi e Matheus Bomfim
 
Arte: Yasmin Andrade
“Eu me sinto uma inútil”, diz Luciana do Rocilo, sobre a sua relação com a mãe. “Damos comida para ela, mas às vezes ela joga no chão e não quer comer”. A vendedora, que deixou o emprego de balconista e foi obrigada a abrir um brechó online, conta que as pessoas frequentemente se irritam com sua mãe e seu comportamento.
Não adianta irritação, sua mãe possui Alzheimer em estágio intermediário. Seu cérebro sofre com o acúmulo de “placas” da proteína beta-amiloide que se formam e prejudicam a comunicação entre os neurônios. Como conta Claudia Suemoto, geriatra “por começar nos neurônios do hipocampo, a alteração de memória é um dos primeiros sintomas”. A progressão para outras regiões do cérebro causa a perda de funções fisiológicas. O estágio final, após cerca de dez anos, consiste na deficiência do sistema imunológico, que leva à morte em decorrência de pneumonia ou infecções comuns.
A frustração de Luciana é recorrente entre cuidadores, conta Tamires Alves, coordenadora de grupos de apoio da Associação Brasileira de Alzheimer: “Eles precisam deixar de trabalhar para ficar integralmente nos cuidados. Por isso, passam por isolamento social”. A gestão financeira, assunto das rodas de conversa da ABRAz, se torna um grande desafio, ainda mais com o alto preço dos remédios.
Antes da molécula Donanemabe, anticorpo que atua na redução das placas beta-amiloide, receber aprovação pela Anvisa em 2025, a aquisição custava cerca de R$500 mil por 18 meses do fármaco importado. Com a aprovação, o custo caiu para US$ 27 mil por ano. Segundo Raphael Spera, neurologista, o tratamento ainda é ponderável: “Tenho que ser ético e dizer que ainda não há um custo-efetivo que justifique um paciente, por exemplo, vender a casa para conseguir recursos para o medicamento.”
A comunidade científica se esforça para combater o Alzheimer: há 138 drogas sendo testadas em humanos, incluindo canetas emagrecedoras e uma vacina que força a produção de anticorpos que combatem as proteínas, aponta a Universidade de Nevada. Para Tamires, os tratamentos não farmacológicos são importantes. A estimulação cognitiva feita a partir do diagnóstico precoce atrasa a evolução da doença nos estágios iniciais e intermediários. Um estudo de Suemoto indica que reduzir fatores de risco como tabagismo, baixa escolaridade e sedentarismo pode atenuar em até 60% a ocorrência da doença no Brasil.
A redução da incidência só pode acontecer quando a população conseguir “quebrar o estigma e o preconceito sobre envelhecer”, conta Tamires. O maior tratamento para a doença é a difusão do conhecimento e a quebra do tabu sobre o tema, diz.
Contribuição: Damaris do Nascimento, cuidadora da mãe com Alzheimer durante dez anos
Magreza em doses diárias
 
Por Filipe Moraes e Julia Teixeira
 
Arte: Giovanna Castro
No livro “Mito da Beleza”(1990), Naomi Wolf mostra que o ideal estético funciona como instrumento de controle social, transferindo a opressão das leis para o corpo das mulheres. Essa lógica se mantém na cultura da magreza e na medicalização do corpo, com as “canetas emagrecedoras” prometendo autocuidado enquanto lucram com a insatisfação corporal.
Ramon Marcelino, endocrinologista, explica que as “canetas” agem nos mecanismos que controlam a fome e a saciedade. “Compostas por semaglutida, imitam o hormônio GLP-1, produzido no intestino após as refeições, enviando sinais de saciedade ao cérebro”.
Apesar da eficácia, o uso sem prescrição é arriscado. Segundo Ramon, os efeitos colaterais incluem náuseas, refluxo e constipação. Podem ocorrer perda de massa magra, queda de cabelo e, mais raramente, pancreatite. O tratamento deve ser acompanhado por profissionais e associado a uma rotina saudável, já que o medicamento não queima gordura.
Laura Ronson, que está no seu terceiro tratamento com o auxílio de remédios, conta que a rotina atual ajuda no processo. “Não foi só o remédio: alimentação, exercícios e outra maneira de me relacionar com a comida também fazem parte”.
Para Laura, a estética foi determinante para iniciar o tratamento. Segundo estudo da plataforma estadunidense DrFirst, especializada em saúde e bem-estar, as prescrições do remédio cresceram 150% nos Estados Unidos entre dezembro de 2022 e junho de 2023, impulsionadas pelo marketing viral nas redes sociais. Famosos transformaram o uso em símbolo de emagrecimento rápido, estimulando a febre das canetas.
Criadas para tratar diabetes tipo 2, essas drogas causam perda de peso e, atualmente, são usadas para estética. A fabricante então lançou versões para combater a obesidade e investiu em marketing. Um estudo da revista “Demetra” sobre as capas da “Boa Forma” de 2015 revela que a mídia feminina costuma associar magreza à beleza, saúde e sucesso. O reflexo disso ainda permeia o cotidiano e os dados: segundo o relatório de inclusão de tamanhos, feito pela Vogue Business em 2025, apenas 2% das modelos usavam tamanhos médios nos 198 desfiles e apresentações analisados.
As imagens reforçam o ideal de um corpo jovem e perfeito, sugerindo que alcançá-lo é só questão de esforço. “Quando repetimos o que é o corpo bonito e vendemos fórmulas mágicas, reproduzimos um ideal inalcançável. Isso produz crises ansiosas, depressivas e transtornos alimentares”, afirma a psicóloga Liane Dahás.
Contribuição: Brenda Vieira, estudante de jornalismo
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.