Dentro da tela, as horas parecem minutos. Tudo acontece rápido, fácil, imediato. Fora dela, o tempo parece devagar. Assistir a um filme inteiro? Difícil. Ler um livro? Um desafio. Cozinhar? Demora demais. É como se o mundo real tivesse perdido a velocidade certa e as pessoas, a paciência.
Lucas Sales passa horas nas redes sociais. “Nunca mais uma fila foi entediante para mim”, diz o designer. Para ele, “o tempo de espera fora de uma tela é um inferno”.
Esse comportamento tem nome: nomofobia, o medo de ficar desconectado. Lucas explica que o TikTok funciona como uma aposta, em que o usuário desliza esperando que o próximo vídeo seja mais interessante. E quase sempre é.
A psiquiatra Julia Khoury compara os vídeos curtos às drogas, ao dizer que “é como o crack — quanto mais rápido e intenso o pico de prazer, maior a chance de vício”.
Em sua tese de doutorado, a psiquiatra comparou cérebros de dependentes digitais com os de usuários de drogas como a cocaína e encontrou alterações semelhantes.
Segundo a psiquiatra, o consumo de conteúdos curtos e rápidos impede que o cérebro desenvolva a capacidade de manter o foco, habilidade de concentração que é aprendida. “Se desde cedo a pessoa só é exposta a estímulos rápidos, ela não vai conseguir se concentrar por muito tempo em uma única tarefa”.
Pesquisa das universidades de Portsmouth e Surrey, no Reino Unido, analisou como hábitos noturnos influenciam o vício em redes sociais. Foram entrevistados 407 participantes, de 18 a 25 anos, que responderam a testes sobre padrão de sono e uso de tecnologia. Os resultados mostraram que quem dorme mais tarde tende a se viciar mais, especialmente quando há solidão e ansiedade.
Conforme a Comscore, empresa que analisa audiência de mídias, o Brasil é o país latino-americano que mais passa tempo online. Em 2024, os brasileiros passaram 70 bilhões de horas nas redes sociais.
Com mais tempo no mundo digital, a psicóloga Leihge Roselle afirma que “o nosso tempo de conservação da atenção está muito fragilizado”. Ela explica que a dificuldade em escutar áudios ou assistir a vídeos na velocidade normal pode ser um indicativo de uma disfunção na atenção concentrada.
As plataformas também são responsáveis pelas horas de tela. Fernanda*, desenvolvedora no TikTok, diz que curtidas e compartilhamentos ajudam o algoritmo a prever preferências. “A retenção de usuários deveria ser consequência de uma boa experiência, não o objetivo final”, defende Letícia Maestri, designer de interfaces. Ela explica que para muitas empresas, quanto maior o tempo de uso, maior é o lucro e mais sofisticadas são as estratégias para segurar a atenção.
*nome fictício
Esse bolo tá me olhando…
 
Por Caroline Aragaki e Samantha Prado
 
Favor não se desconectar
 
Por Leticia Fuentes
 
Jovens de 18 a 34 anos (mais conhecidos como geração millennial) passam, em média, 6 horas e 19 minutos por dia conectados às redes sociais. É o que revelou um relatório anual divulgado no início do ano pela empresa americana Nielsen.
Como uma entre os 1,8 bilhão de millennials espalhados pelo globo, decidi desafiar os dados e lançar meu próprio “experimento”, usando a mim mesma como cobaia: sobreviver a 24 horas sem internet. Recrutei também dois voluntários, Catarina e Daniel, para me ajudar na empreitada (quase) científica.
Catarina foi a primeira a desistir. Depois de algumas horas de abstinência, me enviou uma mensagem — que só vi no dia seguinte — dizendo que fracassara. Tecnologia um, millennials zero.
Daniel chegou até o final, mas com um pouquinho de dificuldade. Ao acordar, seu primeiro impulso foi alcançar o smartphone ao lado da cama, mas conseguiu resistir e mantê-lo desligado. Concluiu que chegar ao almoço de família sem o Google Maps é uma tarefa quase impossível — mas conseguiu sobreviver para retornar à segurança da internet em seguida.
Quanto a mim, estava me sentindo bem durante as primeiras horas. Talvez conseguisse ficar assim por um bom tempo, pensei. Mas fui interrompida por uma ligação.
“Por que você não respondeu o post que te marquei no Facebook?”, pergunta uma colega.
“Porque não vi”, respondo. O aborrecimento na voz dela dá lugar à preocupação. Sinto como se estivesse sendo interrogada em uma consulta médica.
Ao completar o período longe das redes, pego o celular e vejo que outros também mandaram mensagens, preocupados. Afinal, se você passa mais de três horas sem responder, alguma tragédia deve ter acontecido.
Avaliando minha experiência, tenho três considerações a fazer. A primeira é que a abstinência virtual parece ser uma patologia grave — quer dizer, médicos mais velhos ainda não reconhecem seus sintomas, mas devem estar desatualizados. Todo millennial sabe das sérias consequências desse mal. Melhor não arriscar. Inclusive, recomendarei que Daniel faça alguns exames, por precaução.
A segunda é que millennials tratam a desconexão como uma traição — por isso, fiscalizam a vida alheia o tempo todo. Afinal, se as pessoas começarem a se desconectar, quem dará a elas a atenção que precisam? Proibir que você se desligue pode parecer uma decisão arbitrária, mas é para o seu próprio bem — e da sociedade também.
E a terceira é que, se alguém, mesmo assim, quisesse burlar o sistema (por sua conta e risco, claro), a melhor maneira seria forjar sua morte. Bastariam dois dias sem usar a internet — nenhum millennial acreditaria que é possível sobreviver a isso.
Azarado tem sete letras
 
Por Guilherme Eler
 
O sexto páreo da noite tinha como palco o Hipódromo da Gávea, na capital carioca, mas era atentamente acompanhado a centenas de quilômetros por um inquieto grupo de vinte e poucos homens. Senhores de idade, todos eles, impreterivelmente. Dispostos em mesas, formavam uma telha de esparsos fios grisalhos logo abaixo das duas tevês, posicionadas no alto da parede. Os olhos, vidrados. Conhecedores do jogo, debruçavam-se a analisar os números e estatísticas que se revezavam em faixas coloridas nas telas.
Canetas e tabelas nas mãos. Recibos, planilhas. Estavam ali para apostar. “A partir de três reais já dá para jogar”, me explica um deles. “Se apostar agora no número cinco e ele vencer, cê ganha R$ 170”. O homem, funcionário do local durante o dia, não tinha muita paciência para meus questionamentos amadores. Agora à noite, estava lá de novo também para tentar a sorte. Com o suntuoso salão de eventos do Jockey Club de São Paulo de pano de fundo, reclamava da falta de habilidade de um dos jóqueis e da pouca sorte no último páreo.
Bastante amplo e todo na cor marfim, o espaço contava com dezenas de bilheterias e atendentes mobilizados para computar as apostas. As conversas sobre o jogo e o clima de descontração eram interrompidos só no momento em que os animais começavam a ser alinhados para o início da corrida. Xaquira Thunder, Garota Levada, Futurosa, Hora Fatal, e outros tantos. Cada nome exótico trazia consigo certa probabilidade de vitória e uma possível recompensa para o sortudo da vez.
“Largou mal de novo, é brincadeira?”, se irritava um no começo da corrida. Mais para o fim, gritos ritmados passavam a preencher totalmente o salão. A torcida era efusiva. Dorinha Bacana, com uma impressionante arrancada na última reta, foi a primeira a cumprir o percurso de 1.300 m, sob lamentos e comemorações. “Só vou fazer mais essa de R$ 50 e aí eu paro”, pontua desacreditado um outro, que acompanhava ao lado.
Resolvi que entraria no sétimo páreo. Só pra ver como era. O cavalo escolhido foi o de número três. Assim, sem motivo ou simbologia nenhuma. Na verdade, a atendente confundira a minha intenção de fazer a aposta mínima, e tinha entendido “três” como o número escolhido, e não como a quantidade de reais que pretendia por no jogo. Aniche, o nome da égua que defenderia meus três contos.
Exatamente antes do início da corrida, uma pane elétrica, fruto do grande volume de chuva, deixa tudo no escuro. A frustração geral era agora minha também. A energia só volta quando Heart-free, o sete, era anunciado como primeiro lugar. Aniche tinha sido a segunda colocada. Ainda pude acompanhar o oitavo páreo, agora sim vencido, para minha descrença, pelo animal que levava o número três no lombo. Fora eu experiente, teria esperado mais uma única rodada e saído de lá com o valor da aposta duplicado trinta ou mais vezes. Ou não. A sorte tem dessas.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.