Como você definiria “gambiarra”? A palavra refere-se a uma solução improvisada e criativa para resolver um problema, muitas vezes utilizando recursos limitados ou não convencionais. Imagine consertar um chinelo estourado com um prego ou usar palha de aço na antena da televisão para melhorar o sinal. Esses são exemplos clássicos.
O termo tem origem no teatro, relacionado à fiação elétrica. Originalmente, a palavra se referia a uma extensão de luz de fio longo que podia ser movida para diversos pontos do palco conforme a necessidade de cada cena. Com o tempo, esse termo saiu dos palcos para as extensões fraudulentas de energia, os famosos “gatos”, e logo passou a simbolizar todo tipo de improvisação/falcatrua.
No entanto, esse conceito é mais complexo do que parece. Nesta edição do claro! gambiarra, vamos desconstruir e ampliar os múltiplos significados dessa palavra, afastando-nos do tom pejorativo que ela geralmente carrega. Buscamos entender a prática não apenas como uma resposta à falta de recursos, mas também como uma forma de arte ou intervenção na esfera social, por isso, queremos destacar soluções criativas e bem executadas.
A inventividade surge como uma forma de adaptação à realidade local, seja ela física, institucional, legal ou cultural, e também pode oferecer alternativas transformadoras, promovendo uma realidade mais inclusiva, sustentável e acessível. Porém, isso não significa que essas atividades sejam sempre ideais. Em algumas situações, elas podem conflitar com regulamentações vigentes ou serem vistas como medidas temporárias em vez de soluções permanentes.
Nesta edição, convidamos você, leitor, a explorar as gambiarras sob uma nova perspectiva, tanto em seus aspectos mais clássicos quanto nos mais inusitados, seja numa partida de futebol ou na confraternização de domingo.
Expediente: Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Junior. Diretora da ECA-USP: Brasilina Passarelli. Chefe do departamento: Luciano Guimarães. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Sofia Lanza. Editoras de conteúdo: Elaine Borges e Guilherme Castro Sousa. Editora de Arte: Sofia Lanza. Editora Online: Danilo Queiroz. Ilustradoras: Gabriel Eid e Yasmin Araújo. Diagramadores: Caroline Santana, Emanuely Benjamim, Felipe Velames, Lorena Corona, Maria Trombini, Mariana Zancanelli, Nathalie Rodrigues, Osmar Neto, Ricardo Thomé. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508 920. Telefone: (11) . Redação: Ana Mércia Brandão, Camilla Almeida, Gabriel Cillo, Gabriel Tavares, Gabrielle da Luz Melo, Julia Magalhães, Laura Pereira Lima, Laisa Dias, Livia Lemos, Marília Monitchele, Melannie Silva, Mariana Krunfli, Thaís Helena Moraes. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508 920. Telefone: (11) 3091- 4112. O claro! é produzido pelos alunos do quinto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso-Suplemento.
Campo Minado
 
Por Ana Mércia Brandão
 
Arte: Yasmin Araújo
Pelé recebe a bola na pequena área. Sem deixá-la tocar no chão, ele aplica um “chapéu” no zagueiro, chuta a bola ainda no ar e marca seu primeiro gol na final da Copa do Mundo de 1958, que rendeu o primeiro título mundial ao Brasil. Aquela seleção ficou marcada por seu futebol mágico e ofensivo, representado pelo Rei do Futebol e, também, por outros jogadores negros, como Garrincha, Didi e Djalma Santos.
Mesmo responsáveis por garantir um espetáculo ao público durante os jogos, esses atletas tiveram que driblar o racismo para garantir seu lugar no pódio – uma metáfora com um fundo de verdade. Isso porque, quando negros e brancos passam a jogar juntos, com a profissionalização do futebol na década de 30, o preconceito racial é transportado para os campos. Havia pouca tolerância para o “tranco”, o contato entre oponentes. Para os negros, o mínimo toque significava punição, que, muitas vezes, vinha na forma de violência física.
É, então, que o drible adquire um significado histórico, afirma Mauricio Murad, fundador do Núcleo de Sociologia do Futebol da UERJ. Em suas pesquisas, ele concluiu que o drible era usado como um instrumento de resistência dos jogadores negros contra o racismo dentro de campo, já que, com sua ginga, eles evitavam tocar no oponente branco.
De estratégia de sobrevivência, ao longo do século XX, o drible virou paixão nacional e contribuiu para a construção do estilo de jogar espontâneo do brasileiro. O Rei Pelé jogou sua última Copa do Mundo em 1970, que rendeu ao Brasil o tricampeonato. O racismo só passou a ser considerado um crime por lei, na Constituição de 1988, 18 anos depois.
De lá para cá, o Brasil foi campeão do mundo mais duas vezes, em 1994 e 2002, mas segue perdendo a partida contra o racismo. Segundo o Observatório da Discriminação Racial, em pesquisa realizada entre julho e agosto de 2023, 41,8% dos trabalhadores negros do futebol disseram terem sido vítimas de racismo durante o exercício de atividade relacionada ao esporte. Em 2022, foram 111 casos noticiados pela mídia brasileira. Dentro de campo, muitos ainda precisam encontrar formas de dar uma “caneta” no preconceito, que não se resolve com um simples cartão vermelho.
Colaboradores: Fábio Nunes, treinador; Fernando Lourenço, historiador; Gabriela Leveque, atleta; Paolo Demuru, pesquisador.
É proibido permitir
 
Por Julia Magalhaes e Thaís Helena Moraes
 
Arte: Gabriel Eid
Em 1967, os brasileiros foram surpreendidos pela Lei de Censura, que decretava que qualquer cidadão seria livre para manifestar seu pensamento. Em letras miúdas, se contrariava: o disposto não se aplica a espetáculos, diversões públicas, jornais e rádios.
Com a sanção, surgia um aparato burocrático chamado Divisão de Censura de Diversões Públicas. Concurso ou nomeação era o meio de se tornar funcionário do órgão. Assumido o cargo, o censor tinha a função de analisar montes de papelada diariamente, rasurando o que perturbasse a moral pública.
Sua lista de itens reprováveis era razoavelmente longa, e variava de funcionário para funcionário. As obras vetadas pelo censor poderiam ser, no futuro, liberadas por um outro com poucas alterações, desde que o artista lançasse mão de certas gambiarras. Duplo sentido, cenas sexuais e palavrões buscavam distraí-lo para preservar trechos mais fulcrais da obra.
Ledo engano, o censor percebia. Quem ousava no vocabulário recebia rasuras enérgicas e até proibição, e assim foram vetadas mais de 13 mil músicas. Expressões fora da norma culta irritavam-no, porque além de ter uma pilha enorme de trabalho, ainda tinha de ler obras de quem “não sabia escrever”, explica a professora da UFPR Miliandre Garcia. Mas os “erros” por vezes eram propositais, como na música “Tiro ao Álvaro”, letra de Adoniran Barbosa que fala em “tauba” e “revorve” para simular um sotaque popular.
O que o aborrecia mais ainda era ter que ouvir esse vocabulário fora do escritório. Durante a ditadura, surgiram linguagens nas ruas que reagiam à repressão da sociedade, explica a pesquisadora em letras Lívia Marins, como a Gualín do TTK, dialeto carioca do bairro do Catete que inverte sílabas (“língua” vira “gualín” e “Catete” é TTK). Havia também vocabulários de identificação, como o Pajubá, popularizado no período pela comunidade trans. “O dialeto teve um papel de resistência cultural, mais do que de proteção contra a polícia”, esclarece o professor da ECA-USP Eneus Trindade.
O censor só foi questionado quando o Conselho Superior de Censura (CSC) permitiu que a classe artística recorresse aos pareceres. Um dos membros do CSC foi Ricardo Albin, pesquisador de MPB. Ele conta que cada vez foi ficando mais simples refutá-lo, pois o cargo não exigia formação, e por isso eram despreparados.
Mesmo quando recorrer não dava certo, nem tudo estava perdido. Ainda existiam lugares como os cineclubes, onde filmes como os do documentarista Jorge Bodanzky circulavam clandestinamente pela Dinafilmes. “Não tinha jeito de proibir; quem queria ver, via”, conta Jorge.
Luz, câmera e vish…quebrou
 
Por Thais Morimoto
 
Arte: Gabriel Eid
No fim de 2023, com a regulamentação da Lei Paulo Gustavo, o setor cultural do Brasil recebeu quase R$ 4 bilhões, o maior investimento na área da história do país. Apesar da marca, nem todas as produções cinematográficas nacionais são contempladas com os recursos, muitas ainda dependem de improvisos nos sets de filmagem.
É o caso do cinema de guerrilha, feito com baixo orçamento. O cineasta Gabriel Castro explica que, com a limitação dos recursos e a competição acirrada entre as produtoras pequenas, há uma barreira de entrada no mercado audiovisual. O cineasta André Okuma, por exemplo, que faz cinema em áreas periféricas, somente conseguiu investimento do governo com essa lei de 2024.
“Como fazer um filme que seja interessante do ponto de vista estético ou narrativo sem o equipamento necessário?”, questiona Okuma. Uma das soluções é recorrer a improvisos. Com uma câmera em cima de uma caixa de papelão e um skate ele conseguia fazer cenas de movimentos em lugares planos sem ficar aquela tremedeira. “A gambiarra é elemento fundamental para a construção estética e política desse tipo de cinema”, explica.
Mesmo com mais alternativas, produtoras mais consolidadas também têm dificuldades em fazer cinema no Brasil. Segundo o cineasta Roberto Moreira, as gambiarras se tornaram menos necessárias com a entrada de novas tecnologias e profissionalização do cinema nacional, a partir dos anos 1990, mas ainda não é suficiente. Para ele, o Brasil não dispõe de recursos para fazer cenas como explosões e acidentes e o improviso poderia colocar em risco a equipe e os atores.
Mas há pequenos truques: a fita crepe sempre está nos sets de filmagens e é comum colocar na hora da montagem palavras na boca dos atores que eles não disseram nas gravações. Mesmo assim, Moreira diz que não se pode definir algumas soluções como gambiarra. No filme “Cidade de Deus”, na cena em que a galinha foge e as pessoas correm atrás, foi usado um cabo de vassoura preso em uma câmera e uma pessoa da equipe foi atrás da galinha em uma cadeira de rodas. Apesar de parecer uma gambiarra, Moreira diz que houve um grande domínio técnico e que a equipe sabia o que estava fazendo.
Com entraves ou não, o cinema continua a se reinventar e tornar possível “fazer chover” com uma mangueira. De acordo com a roteirista Luiza Fazio, “independentemente do processo, é muito emocionante ver o resultado final”.
Colaboradores: Carolina Durão, Giuliano Cedroni e Josafá Veloso, cineastas; Vinícius Nascimento, diretor de efeitos especiais; Letícia Pereira, crítica de cinema; Fábio Leão, técnico de som
Quanta luta, quanta gente
 
Por Gabriele da Luz Mello e Laisa Dias
 
Arte: Yasmin Araújo
Em 1971, 153 famílias foram remanejadas das favelas da Vila Prudente e Vergueiro, e originaram a maior favela de São Paulo, Heliópolis. Hoje, são um milhão de metros quadrados construídos pelo trabalho coletivo de famílias e comunidade.
Essa área, mesmo que pareça grande, consegue ser menor que o Parque Ibirapuera, que conta com 1.584.000 metros quadrados. Apesar disso, neste espaço, Heliópolis abriga cerca de 200 mil pessoas, o equivalente a um quinto da população que vive em favelas da cidade de São Paulo, segundo a UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) e ao Mapa da Desigualdade de 2022.
Até chegar nesse número, a favela do Helipa enfrentou confrontos, tentativas de apropriação e até mesmo um grande incêndio, em 1996, ocasionado por questões como as construções em madeira e o pouco espaço entre as casas.
Esses problemas acompanharam Maria Lia e Reginaldo, moradores de Heliópolis. Eles relatam que durante a infância, seus familiares, amigos e vizinhos iniciaram a ocupação do território, começando por barracos de compensado de madeira, evoluindo para casas de alvenaria até chegar aos acabamentos finais, anos depois do início da obra.
As histórias tem início com as primeiras ocupações, quando surgiram líderes comunitários da região, as reivindicações por melhorias e pelo direito de fixar moradia no espaço. As construções ocorriam de forma coletiva entre os próprios moradores, que dividiam a mão de obra e os insumos, desde materiais para levantar a casa até alimentos. Hoje, Heliópolis tem iluminação de LED, ruas asfaltadas, creches e comércios.
É assim que nasce a arquitetura da favela, ou a “arquitetura da necessidade”, segundo a Professora de Planejamento e Gestão do Território da Universidade Federal do ABC, Rosana Denaldi. “A casa não é só da porta para dentro, ela também é o que está do lado de fora. É a rua, a rede de água, a pavimentação”, explica.
Rosana ressalta que mesmo quando há infraestrutura, ela é muito precária, com problemas como umidade, ruas estreitas e o estresse térmico, quando o corpo lida com temperaturas muito extremas, seja frio ou calor.
insegurança no direito à moradia
Além dos problemas estruturais, grande parte das construções de favelas em São Paulo, como a casa da Maria Lia, não tem documentação que comprove a titularidade do imóvel.
Wallace França, membro da UNAS, nasceu em Heliópolis e precisou se mudar para o entorno da favela para conseguir a documentação, sonho da mãe, que chegou a alugar parte da residência em que viviam para poder financiar um imóvel regularizado. “Quando eu entreguei o documento para a minha mãe, ela chorou, porque antes, mesmo tendo uma casa, parecia que ela não era própria, ela era cedida”.
Atualmente, a discussão de regularização das moradias voltou por meio de um projeto da prefeitura com a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB-SP), que em junho de 2024 entregará a escritura definitiva para 35 moradores de Heliópolis. Até 2025, a promessa é que 26 mil unidades habitacionais tenham a documentação.
Mas, para os moradores, o registro da construção não é o suficiente. Ainda falta estrutura e atenção às necessidades da população, que tem dificuldades de encontrar opções de lazer e regularidade na distribuição de água, luz e internet, por exemplo. “Sim, a gente quer a regularização, mas também quer verdadeiramente pertencer à cidade”, completa Wallace.
Colaboradores: Colaboradores: Fernando Pereira, arquiteto e criador do projeto Coletivo das Favelas do Rio de Janeiro.
Plasticidade a seu alcance
 
Por Camilla Almeida
 
Arte: Gabriel Eid
O cérebro é uma parte essencial do sistema nervoso. Contando com mais de 86 milhões de neurônios, é nele que acontecem as sinapses, ligações entre essas células neurais, que possibilitam a transmissão dos impulsos nervosos para a formulação de respostas cognitivas. Elas se formam a partir de estímulos sensoriais, que despertam os sentidos do corpo, e motores, como exercícios físicos.
Essas conexões são realizadas principalmente nos primeiros anos de vida: estima-se que um bebê de um ano pode vir a ter um milhão de novas sinapses por segundo, número que vai se esvaindo conforme a idade avança. Como não existe a possibilidade de se criar novos neurônios, a primeira infância torna-se definitiva para a formação do cérebro humano. Toda vez que a criança passa por novas experiências, como sentir cheiros e texturas diferentes, seu cérebro está se desenvolvendo e sendo modelado.
É aí que entra uma característica fundamental desse órgão: a plasticidade. Com o nome que remete ao plástico, um material moldável, ela é responsável por permitir que novas sinapses sejam formadas, dando, de certa forma, uma nova organização ao órgão.
“Estudos mostram que aqueles que têm um menor risco de ter um quadro demencial, com a perda das capacidades cognitivas, são os que se mantiveram mais ativos durante a vida”, afirma Isabella Barcelos, neuropediatra pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A neuroplasticidade, então, não abarca apenas a desenvoltura nos primeiros anos de vida, mas também para a reabilitação e recuperação de funções cerebrais perdidas.
As doenças neurológicas, como o Alzheimer, atingem determinadas partes do órgão, destruindo as células nervosas e consequentemente inabilitando as sinapses. No Alzheimer, sua destruição pode implicar na perda da memória. Contudo, em outras enfermidades similares, o paciente pode deixar de falar, de ler ou até mesmo de se movimentar.
Infelizmente, essas doenças são progressivas, ou seja, o aparecimento de seus sintomas não pode ser evitado. Mas existe uma maneira de burlar essas manifestações – e a resposta está justamente no conceito de neuroplasticidade. A partir de consultas fisioterápicas, fonoaudiológicas e até mesmo neuropsicológicas, é possível habilitar partes próximas da afetada pela doença para suprir a sua falta, criando assim novas sinapses.
“A reabilitação com fisioterapia, por exemplo, tem o intuito de replicar os movimentos naturais perdidos por aquela pessoa. A atividade irá estimular as proximidades da área lesada, o que faz com que vias alternativas, que podemos até chamar de gambiarras, sejam formadas”, diz Raphael Spera, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
De acordo com os especialistas, contudo, não se pode esperar o aparecimento de sintomas para começar a “exercitar” o cérebro. Os simples atos de aprender uma língua nova, praticar um esporte com regularidade ou tocar um instrumento musical já podem estimular o desenvolvimento cerebral e ajudar a manter o bem-estar físico e mental na velhice.
Colaboradores: André Frazão Helene, professor do Instituto de Biologia (IB) da USP.
Lei e improviso
 
Por Gabriel Tavares e Melannie Silva
 
Arte: Yasmin Araújo
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu atos ofensivos contra pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ como equiparáveis ao crime de injúria racial. A decisão gerou debates em relação aos limites de interpretação de uma lei e qual deveria ser a atuação do judiciário quando as normas estabelecidas pelo Poder Legislativo são insuficientes diante da realidade nos tribunais.
Entre os profissionais do direito, há divergências quanto ao papel de magistrados no julgamento de casos complexos. O jurista Lenio Streck argumenta que, ao tomar decisões que ampliam o escopo de uma lei previamente estipulada pelo Congresso Nacional, o Judiciário assume uma posição ativista.“Você tem direitos fundamentais que devem ser cumpridos e efetivados e, nesse caso, o Judiciário é chamado. Mas ao criar um tipo penal, como o caso da homofobia, estamos permitindo que o Judiciário legisle. Temos um problema de democracia”, afirma.
Já Maria Paula Dallari Bucci, docente da Faculdade de Direito da USP, discorda desta visão. Segundo ela, a Constituição de 1988, inspirada na Lei Fundamental da Alemanha no pós-guerra mundial, trouxe mais poder político para os tribunais superiores para defenderem direitos fundamentais, especialmente em situações de opressão.
Para ela, nestes casos, a justiça atua preenchendo lacunas e fortalecendo preceitos básicos da Carta Magna. “Vamos ficar vendo os jovens serem mortos por causa da homofobia? Eu considero favorável a decisão que o Supremo Tribunal tomou, é uma interpretação alargada da Constituição para preservar valores e direitos que estão assegurados pelo próprio texto constitucional. Não é uma questão de criar o direito do zero”, defende.
Mesmo no direito tributário, os magistrados frequentemente se deparam com gambiarras utilizadas por acusados para ocultar patrimônios e evitar cobranças fiscais, afirma o professor e juiz federal Sérgio Nojiri. Essa realidade expõe o caráter interpretativo do direito, já que as leis não conseguem prever todas as situações. “Aquilo que está nos livros não é exatamente o que se passa nos tribunais”, diz.
Segundo Nojiri, o direito é impactado por questões econômicas, culturais e políticas ideológicas. Por isso, segundo ele, “o direito nunca vai ser objetivo e totalmente previsível. A incerteza e a margem de interpretação são próprias do direito. Como vamos querer que pessoas diferentes tenham conclusões parecidas?”.
Moda em retalhos
 
Por Laura Pereira Lima e Marília Monitchele
 
Arte: Gabriel Eid
Calças se transformam em bermudas, camisas viram bolsas. Pneus podem se tornar pufes ou solas de sapato. Alguns chamam isso de criatividade; outros, de upcycling. Para muitas pessoas, essa técnica era uma alternativa econômica. Na década de 1990, ganhou o nome pomposo e ares sustentáveis, em meio às discussões que resultaram na Conferência Eco 92, uma das primeiras a abordar os impactos globais da poluição.
Upcycling se refere à prática que visa evitar o desperdício de materiais, reduzir o consumo de matérias-primas e diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Embora possa ser aplicada em diversas áreas, como arte, decoração, arquitetura e indústria, foi na moda que teve o maior impacto. “A melhor roupa é aquela que já foi feita”, resume Lourrani Bass, fundadora do Liga Transforma, projeto que cria produtos têxteis a partir de material reaproveitado.
Dados de 2021 da Fundação Getúlio Vargas mostram que em 2018 o Brasil produziu mais de nove bilhões de peças novas. O mesmo relatório aponta que menos de 1% das roupas produzidas globalmente são reaproveitadas. O método surge, então, como uma alternativa sustentável, e atrai os consumidores também pelo apelo à exclusividade, afinal, cada peça é única.
A dificuldade de produzir em grandes escalas, porém, afasta o upcycling do uso comum. “As pessoas acham que é mais barato, porque não precisa gastar com matéria-prima. Mas não é bem assim. A roupa chega para nós como um resíduo e precisamos transformá-la em matéria-prima, o que é caro”, conta Jonas Lessa, do Retalhar, projeto que auxilia empresas a reaproveitar os resíduos têxteis. A título de comparação, uma bolsa feita a partir do reúso de tecidos jeans da grife espanhola Balenciaga pode custar quase R$ 10 mil, enquanto um acessório feito com a mesma técnica pode ser encontrado por até R$ 170,00 no marketplace brasileiro Ecoaliza Store.
Apesar desses desafios, algumas alternativas podem tornar as peças mais acessíveis. Andres Felipe Torres, pesquisador do curso de moda da USP e especialista em upcycling, cita, por exemplo, a confecção em maior escala de produtos mais simples, como necessaires e estojos. “Mas nunca vai poder competir com os preços do fast-fashion [como Shein e Zara], que usa mão de obra escrava e não tem preocupação ambiental”, completa. Ainda assim, este tipo de produção mostra que cada retalho pode abrir um novo mundo de possibilidades.
Melhor que original
 
Por Livia Lemos e Mariana Krunfli
 
Arte: Yasmin Araújo
É domingo de tarde. Como um bom final de semana, o que não pode faltar na casa do brasileiro é o futebol. Para acompanhar o jogo, os telespectadores contam com aquela cerveja, a camisa do time para entrar no clima e um chinelinho Havaianas.
O que muitos não sabem é que até nessa confraternização a pirataria pode estar presente. De acordo com o Anuário da Associação Brasileira de Combate à Falsificação, o Brasil perdeu 345 bilhões em 2022 por causa dessa prática. Alguns dos segmentos mais afetados foram alimentos e bebidas, tecnologia e vestuário. “Já vi casos de falsificação da Brahma, Skol e Havaianas”, conta a advogada Thais de Matos, especialista em marcas e patentes.
Ela explica que, no Brasil, a Havaianas é a marca mais pirateada: “sua falsificação já chegou até fora do país”. Basta uma busca rápida na Shopee e o consumidor encontra o chinelo por R$ 7,90. David Rodrigues, advogado especializado em propriedade intelectual, explica que a aquisição do produto falso não é pela indisposição de arcar com o preço original, uma vez que a Havaianas oficial custa a partir de R$ 49, mas sim pela atratividade de encontrar um modelo similar por um valor mais barato.
Por isso, como destaca Thais, é injusto afirmar que apenas pessoas de baixa renda recorrem a pirataria: “quantas famílias de classe média não tem aquele ‘TV Box’ com séries e filmes? Todos dão um jeitinho. É enraizado”.
Assim como os chinelos, outro produto que faz parte do guarda-roupa dos brasileiros e dos índices de pirataria são as camisetas de times de futebol. No site oficial da Nike, uma blusa da Seleção custa cerca de R$ 300. O preço não cabe no bolso de boa parte da população que depende de um salário mínimo para se manter: “nesses casos, é muito comum vermos pessoas recorrendo a blusas falsificadas”, comenta David. “Se ela não se sente participante desse mundo social e quer se sentir inserida, ela parte para a aquisição de produtos paralelos”. Na Shopee, o modelo copiado sai por R$ 27.
O relógio tocou! São 15h e a partida do Palmeiras já vai começar. Para não perder o jogo do seu time favorito, João Almeida* acessa um site pirata porque não quer desembolsar R$ 59,90 para assinar mais um streaming. Mas a camisa para acompanhar a vitória, ah… “essa tem que ser original! Faço questão”.
Colaboradores: *preferiu não informar o nome; Fábio Tozi, geógrafo com pesquisa no avanço da pirataria.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.