logotipo do Claro!

 

O morar às vezes é ocupar

 

Por Davi Alves e Maria Eduarda Oliveira

 

Arte: Maria Luiza Negrão

De Salvador, Lucas Cruz chegou a São Paulo em 2013 para cursar faculdade. Seis anos depois de chegar à cidade e passar por repúblicas e casas compartilhadas, decidiu se mudar para a ocupação artística Ouvidor 63. Lá, encontrou um espaço para viver e produzir seu trabalho, que envolve pintura, serigrafia e circo. 

Dois andares abaixo, vive a argentina Mica Yañez, artista e pós-graduanda em História da Arte na Unifesp, que está na ocupação há nove anos. Antes de se estabelecer no prédio, ela viajou durante cinco meses pelo Brasil, até encontrar um lugar que oferecesse estabilidade.

O prédio, que pertence ao Governo do Estado, fica à 170 metros da Faculdade de Direito da USP. Cada andar abriga diferentes expressões artísticas. Ao longo de 13 pavimentos, os quartos são preenchidos com exposições, ateliês e outros espaços voltados às artes. Segundo Lucas, lá moram cerca de 80 pessoas, entre elas brasileiros, argentinos, colombianos e chilenos. Em comum, todos artistas.

E não é preciso ir muito distante para encontrar outros edifícios apropriados no centro de São Paulo. A menos de 1 km fica a ocupação 9 de Julho, onde vivem cerca de 400 famílias, de acordo com o Movimento Sem Teto do Centro.

Para além da representação artística vista na Ouvidor, a professora de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, Denise Antonucci, observa um perfil “não muito definido” entre os moradores de ocupações: há pessoas que trabalham, mas em geral sem vínculo formal, indivíduos com diferentes níveis de escolaridade, incluindo formação técnica e ensino superior, além de mulheres que são chefes de família.

Ela também avalia que a ocupação de prédios ociosos cumpre um papel político para visibilizar problemas estruturais, como o déficit habitacional. “Não é que a política de moradia não tenha dado certo, mas a demanda é muito maior do que a oferta de unidades habitacionais”, aponta.

Dados da Agência Pública, obtidos por meio da Secretaria de Habitação, mostram que mais de 115 mil famílias vivem em 567 ocupações na cidade de São Paulo até agosto de 2023. Lucas e Mica são parte deste cenário.

Para eles, a percepção é de estar na contramão — em uma realidade em que o direito à cidade não é o mesmo para todas as pessoas e nem em todos os lugares. “O centro está programado para que outras pessoas morem aqui, e não as pessoas trabalhadoras e de baixa renda”, diz Mica.

Para o vereador Nabil Bonduki, as soluções para o problema já são conhecidas. Entre as medidas possíveis e utilizadas, ele destaca a recuperação de prédios antigos e a adaptação de edifícios ocupados para habitações de interesse social. “O caminho para enfrentar esse problema existe. O que não existe é uma vontade política de fazer isso na escala que seria necessária para mudarmos o quadro atual”, afirma.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que tem ampliado ações para enfrentar o déficit habitacional e melhorar as condições de moradia. Afirma ainda que acompanha 366 ocupações, sendo 42 localizadas na região central, mas que não possui um levantamento consolidado dos imóveis ocupados.

Vozes da ocupação

 

Por Sérgio Rodas Borges Gomes de Oliveira

 

 
4-2
 
A cidade de São Paulo possui um déficit de 670 mil moradias, de acordo com a prefeitura. Para forçar as autoridades a diminuírem esse número, movimentos sociais mantém cerca de 100 ocupações na capital paulista, sendo aproximadamente 90 no centro. Entre elas, a Ocupação Hotel Columbia Palace, que começou como forma de protesto e virou moradia de 79 famílias. Com cortes em programas municipais e federais, a situação delas não deve ser regularizada tão cedo. Mas os moradores do edifício têm orgulho de sua conquista, e não pretendem abandoná-la facilmente.
 
Antônia Nascimento, 45, assistente social e coordenadora da Ocupação Hotel Columbia Palace: No fim dos anos 90, houve uma grande leva de ocupações, mas em pouco tempo as ações dos movimentos sociais voltaram a diminuir. Em 2010, diversos grupos se reuniram e passaram a discutir maneiras para chamar a atenção dos governantes sobre o déficit habitacional.
 
5
 
Nazaret Brasil, 50, cenógrafa: Eu não participava de nenhum movimento social até 2010, mas as minhas irmãs sempre estiveram envolvidas com grupos ativistas. Num certo dia de outubro, elas me ligaram e disseram que coletivos estavam preparando uma grande ação no centro de São Paulo. Do dia para a noite, deixei Campo Grande (MS) e vim ajudá-las na manifestação.
 
Marinalva Euclides da Silva, 49, cozinheira: Quando o terreno da ocupação onde eu morava, em Suzano (SP), caiu, fiquei sem ter para onde ir. Nessa época, soube dos planos de ocuparem prédios desabitados no centro, e resolvi me juntar ao grupo.
 
Nazaret Brasil: Assim que ocupamos o Hotel Columbia Palace, a Polícia Militar fez um cerco em volta do prédio. Quem saísse seria detido. Assim, ficamos presos em um local abandonado, em condições inóspitas.
 
Antônia Nascimento: O objetivo era protestar, não queríamos que as pessoas permanecessem no hotel, afinal, aqui não tinha nem água, nem luz, nem esgoto. Porém, quem veio para cá não tinha outra opção. Era ficar aqui ou dormir na rua. Então, aprendemos o básico com técnicos e montamos nossa própria infraestrutura.
 
9
 
Marinalva Euclides da Silva: Tudo aqui funciona em sistema de mutirão – o pessoal se junta e faz consertos, lavagens, planta hortas de batata e cenoura. A gente vai se virando.
 
Nazaret Brasil: Eu estava insatisfeita em Campo Grande. Não conseguia arranjar trabalho na minha área. Depois que cheguei para ajudar na ocupação, percebi que poderia ficar aqui, ajudando na luta, e ainda trabalhar como cenógrafa. Então, em dezembro de 2010 trouxe a minha família para cá. No começo, minhas filhas ficaram em choque, mas logo se acostumaram. Hoje as duas estudam na USP.
 
Jandira Brasil, 79, aposentada e mãe de Nazaret: Foi difícil. Foi muito, muito difícil. Não é fácil dividir sua casa com várias outras pessoas, especialmente a essa altura da vida. Mas eu me acostumei. Hoje sou a mais velha daqui.
 
2
 
Mildo Ferreira, 33, professor de música: Vim para a ocupação em 2012, com o meu companheiro, mas hoje moro sozinho. Mobiliei todo o meu apartamento com coisas que achei na rua, e gosto de como ele ficou. Mas aqui é uma ocupação bem mais organizada do que a maioria.
 
Antônia Nascimento: A ocupação é organizada por militantes da Frente de Luta por Moradia, que têm consciência da luta e sabem como atender às necessidades de todos. Cerca de 300 pessoas moram aqui hoje, mas eu não moro mais. A situação é instável. Já recebemos 4 ordens de reintegração de posse, mas estamos conseguindo adiar nossa saída. A nossa esperança é que a Prefeitura compre o imóvel e o destine para fins sociais. O Haddad já disse que vai tentar se o dono quiser vender, mas a gente sabe que isso é difícil. Porém, não podemos desistir.
 
8
 
Nazaret Brasil: Nós promovemos debates para discutir problemas da cidade e mostrar nossos objetivos para a sociedade. É preciso acreditar na luta. Se eu não acreditasse, não estaria mais aqui.
 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

Expediente

Contato

Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Bloco A.

Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900

Telefone: (11) 3091-4211

clarousp@gmail.com