Em um sábado de manhã, no Minhocão, centro de São Paulo, — entre corredores, bicicletas, patins e cachorros — grafites nas laterais dos prédios observam quem passa. É algo que todo mundo vê, mas quase ninguém pausa para admirar. É assim que a arte urbana opera: sem convite nem aviso, e, muitas vezes, sem que o público perceba que está dentro de um Museu de Arte a Céu Aberto (MuseuCéu).
Em um país onde apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu tradicional de 2024 a 2025, de acordo com levantamento do Observatório Fundação Itaú, levar a arte para a rua é, ao mesmo tempo, democratizar e provocar a realidade. No Minhocão, essa percepção é comum entre os visitantes. Das sete pessoas entrevistadas no local, todas afirmaram gostar da arte urbana e destacaram que ela “traz cor, vida e respiro para a cidade” em meio ao concreto. Mas apenas uma sabia que o espaço integra um museu.
Mas as intervenções artísticas vão muito além do grafite. Para o diretor do MuseuCéu, Kléber Pagu, elas incluem todas as linguagens que ocupam o espaço público, como pintura, dança, música e circo. Mais do que estética, trata-se de uma ação que rompe com a lógica urbana. “Intervir na cidade é um ato muitas vezes de resistência, como foi durante a ditadura.”
Saindo do Minhocão, em um vagão da Linha Vermelha do metrô entra Sebastião, mais conhecido por “Tim Max Bossa Nova”. Enquanto canta “Garota de Ipanema”, passa o chapéu para os passageiros. O artista conta que o público é sempre receptivo: “a ideia é interagir, entreter. O papel da arte é esse. O pessoal colabora comigo e eu com eles. É uma troca mútua.”
No sentido à Zona Norte da cidade, a artista plástica Simone Siss diz que a recepção imediata é parte essencial — e única — da arte urbana. Diferente do ateliê, onde a obra é construída em silêncio, a rua transforma a criação em diálogo coletivo. “Quando estamos na rua, nem terminamos a arte e as pessoas já olharam, gostaram, odiaram, entenderam, ou entenderam diferente do que eu quis passar.”
O trabalho de Simone, marcado por frases feitas em muros livres e figuras femininas, busca chacoalhar o olhar cotidiano com humor ou incômodo, com perguntas para a sociedade e para ela mesma. “Como mulher, estar na rua já é um ato de afirmação e ocupação de um espaço que historicamente não era para ser frequentado por nós.”
Entre o improviso e o planejamento, as intervenções artísticas seguem redesenhando São Paulo. Se há limites? Para Pagu, deve haver diálogo para que o responsável pelo muro autorize. “É arte na rua porque é o lugar mais legal do mundo para se fazer uma obra. É onde se potencializa os encontros. É onde todo mundo vai ter acesso”, afirma. Intrusas ou não, a arte urbana continua interrompendo trajetos automáticos do cotidiano.
COLABORAÇÕES:
Nadja Xavier, atendente ao cliente
Thaís, técnica em eletrotécnica
André Luiz Raimundo, auxiliar de limpeza
Anderson Carvalho, engenheiro de software
Luana Freitas, vendedora
Carol Castro, fotógrafa
Marcelo Rios, redator
O morar às vezes é ocupar
 
Por Davi Alves e Maria Eduarda Oliveira
 
Arte: Maria Luiza Negrão
De Salvador, Lucas Cruz chegou a São Paulo em 2013 para cursar faculdade. Seis anos depois de chegar à cidade e passar por repúblicas e casas compartilhadas, decidiu se mudar para a ocupação artística Ouvidor 63. Lá, encontrou um espaço para viver e produzir seu trabalho, que envolve pintura, serigrafia e circo.
Dois andares abaixo, vive a argentina Mica Yañez, artista e pós-graduanda em História da Arte na Unifesp, que está na ocupação há nove anos. Antes de se estabelecer no prédio, ela viajou durante cinco meses pelo Brasil, até encontrar um lugar que oferecesse estabilidade.
O prédio, que pertence ao Governo do Estado, fica à 170 metros da Faculdade de Direito da USP. Cada andar abriga diferentes expressões artísticas. Ao longo de 13 pavimentos, os quartos são preenchidos com exposições, ateliês e outros espaços voltados às artes. Segundo Lucas, lá moram cerca de 80 pessoas, entre elas brasileiros, argentinos, colombianos e chilenos. Em comum, todos artistas.
E não é preciso ir muito distante para encontrar outros edifícios apropriados no centro de São Paulo. A menos de 1 km fica a ocupação 9 de Julho, onde vivem cerca de 400 famílias, de acordo com o Movimento Sem Teto do Centro.
Para além da representação artística vista na Ouvidor, a professora de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, Denise Antonucci, observa um perfil “não muito definido” entre os moradores de ocupações: há pessoas que trabalham, mas em geral sem vínculo formal, indivíduos com diferentes níveis de escolaridade, incluindo formação técnica e ensino superior, além de mulheres que são chefes de família.
Ela também avalia que a ocupação de prédios ociosos cumpre um papel político para visibilizar problemas estruturais, como o déficit habitacional. “Não é que a política de moradia não tenha dado certo, mas a demanda é muito maior do que a oferta de unidades habitacionais”, aponta.
Dados da Agência Pública, obtidos por meio da Secretaria de Habitação, mostram que mais de 115 mil famílias vivem em 567 ocupações na cidade de São Paulo até agosto de 2023. Lucas e Mica são parte deste cenário.
Para eles, a percepção é de estar na contramão — em uma realidade em que o direito à cidade não é o mesmo para todas as pessoas e nem em todos os lugares. “O centro está programado para que outras pessoas morem aqui, e não as pessoas trabalhadoras e de baixa renda”, diz Mica.
Para o vereador Nabil Bonduki, as soluções para o problema já são conhecidas. Entre as medidas possíveis e utilizadas, ele destaca a recuperação de prédios antigos e a adaptação de edifícios ocupados para habitações de interesse social. “O caminho para enfrentar esse problema existe. O que não existe é uma vontade política de fazer isso na escala que seria necessária para mudarmos o quadro atual”, afirma.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que tem ampliado ações para enfrentar o déficit habitacional e melhorar as condições de moradia. Afirma ainda que acompanha 366 ocupações, sendo 42 localizadas na região central, mas que não possui um levantamento consolidado dos imóveis ocupados.
mundo em síntese
 
Por Bruno Miliozi e Lucas Zacari
 
Muito mais que um hobbie, a arte em miniatura demanda um olhar extremamente atento para sua confecção, seja ela desde uma tela clássica, uma fotografia ou uma escultura, tudo isso com objetos em tamanho reduzido. E é realmente possível de reproduzir de tudo nesse estilo de arte, com os mais diversos materiais que se possa imaginar.
Conheça mais sobre o miniaturismo e os motivos de tamanho encantamento pelas miniaturas na reportagem visual de Bruno Miliozi e Lucas Zacari.
Uma viagem pela arte e o cérebro
 
Por Isabel Teles e Mariana Catacci
 
Você já percebeu que arte e ciência muitas vezes andam juntas? A arte afeta nossa cabeça diretamente, intensificando a atividade cerebral e gerando fenômenos como a catarse e a empatia. Além disso, é uma ferramenta usada no tratamento de pacientes com perda de memória. Entenda como isso acontece.
Colaboraram:
Samir Zeki, neurocientista
Norberto Garcia-Cairasco, neurofisiologista e professor da USP-RP
Cora Laszlo, bailarina e professora de dança
Carlos Becker, ator
Lucas Daher, cinéfilo
Fontes:
Estudo “Arte e o Cérebro”, desenvolvido na University College London por Semir Zeki
Relatórios do The MoMA Alzheimer Project
Outros caminhos de dança: Técnica Klauss Vianna para adolescentes e para adolescer
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.