São quatro da manhã quando Giulia Pezarim vê o céu clarear. Joga no computador, assiste a vídeos, trabalha, checa as redes e… o sol nasceu. Para a geração hiperconectada, descansar bem virou um desafio diário e, às vezes, uma culpa: dormir é “perder tempo” que poderia estar dedicado a outras atividades.
Giulia e a estudante Anna Silva já viveram o descompasso entre sono e rotina. Ambas funcionam bem quando podem seguir horários próprios, mas sentem no corpo ao se adaptar a horários convencionais. Anna conta que houve períodos em que dormia quatro horas por noite ao conciliar trabalho, faculdade e academia. O resultado? Mau humor, cansaço e falta de energia.
Para o psicólogo Léo Paulos Guarnieri, os casos ilustram o desencontro entre ritmos biológicos e exigências sociais. “O sono é biológico, individual e social. Cada pessoa tem uma necessidade e um cronotipo que é como o corpo regula naturalmente o sono e a vigília”, diz.
Ele explica os cronotipos: há pessoas matutinas, que rendem mais pela manhã; vespertinas, que funcionam melhor à noite; e intermediárias, que se adaptam com mais facilidade. “Rotinas matinais pesam mais para quem tem dificuldade nas manhãs. Mas as jornadas flexíveis também vêm com cobrança por produtividade, o que faz muitos extrapolarem limites e trocarem sono por trabalho”, conta.
A pesquisadora e professora do Instituto do Sono Júlia Vallim menciona um estudo do Laboratório de Cronobiologia Humana (Labcrono) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que indicou que, durante a pandemia, com horários mais flexíveis, o tempo médio de sono entre jovens aumentou em duas horas, e a sonolência diurna caiu.
Para a especialista, os horários escolares e de trabalho impõe restrições de sono, causando um jetlag social: “É como viver em um fuso horário diferente do corpo”. Assim como o jetlag de viagens, o descompasso impacta além do cansaço. “Uma noite mal dormida afeta memória, humor, concentração e causa fadiga. Ficar 17 horas acordado equivale a ter 0,05% de álcool no sangue”, explica.
Júlia aponta o uso constante de telas em lazer e trabalho como um dos vilões do sono. A luz azul emitida por celulares e computadores inibe a produção de melatonina, hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir. Além disso, o conteúdo estimulante das redes sociais, notícias e mensagens mantém o cérebro em alerta, impedindo o relaxamento. A combinação “confunde o relógio biológico” e reforça tendências noturnas de jovens e adultos, prejudicando a qualidade do descanso.
Léo pontua que a lógica produtivista rivaliza com o sono. No entanto, ele é biologicamente essencial. “Nele consolidamos memórias, eliminamos toxinas cerebrais e sintetizamos hormônios. Para funcionarmos, o sono precisa funcionar. É preciso equilibrar rotina com necessidades biológicas e entender o descanso como cuidado, não perda”, diz.
Para mitigar prejuízos, os especialistas destacam a importância da higiene do sono: manter horários regulares para dormir e acordar, evitar telas e luz forte antes de deitar, não consumir cafeína à noite e buscar exposição à luz natural pela manhã. Para o psicólogo, o sono não é uma pausa na vida, é parte essencial dela.
Júlia conclui: “Respeitar o próprio ritmo é essencial à saúde. Dormir não é perda de tempo, é investimento. Uma geração privada de sono é mais ansiosa, menos criativa e mais doente. Achar o contrário é o maior autoengano.”
Magreza em doses diárias
 
Por Filipe Moraes e Julia Teixeira
 
Arte: Giovanna Castro
No livro “Mito da Beleza”(1990), Naomi Wolf mostra que o ideal estético funciona como instrumento de controle social, transferindo a opressão das leis para o corpo das mulheres. Essa lógica se mantém na cultura da magreza e na medicalização do corpo, com as “canetas emagrecedoras” prometendo autocuidado enquanto lucram com a insatisfação corporal.
Ramon Marcelino, endocrinologista, explica que as “canetas” agem nos mecanismos que controlam a fome e a saciedade. “Compostas por semaglutida, imitam o hormônio GLP-1, produzido no intestino após as refeições, enviando sinais de saciedade ao cérebro”.
Apesar da eficácia, o uso sem prescrição é arriscado. Segundo Ramon, os efeitos colaterais incluem náuseas, refluxo e constipação. Podem ocorrer perda de massa magra, queda de cabelo e, mais raramente, pancreatite. O tratamento deve ser acompanhado por profissionais e associado a uma rotina saudável, já que o medicamento não queima gordura.
Laura Ronson, que está no seu terceiro tratamento com o auxílio de remédios, conta que a rotina atual ajuda no processo. “Não foi só o remédio: alimentação, exercícios e outra maneira de me relacionar com a comida também fazem parte”.
Para Laura, a estética foi determinante para iniciar o tratamento. Segundo estudo da plataforma estadunidense DrFirst, especializada em saúde e bem-estar, as prescrições do remédio cresceram 150% nos Estados Unidos entre dezembro de 2022 e junho de 2023, impulsionadas pelo marketing viral nas redes sociais. Famosos transformaram o uso em símbolo de emagrecimento rápido, estimulando a febre das canetas.
Criadas para tratar diabetes tipo 2, essas drogas causam perda de peso e, atualmente, são usadas para estética. A fabricante então lançou versões para combater a obesidade e investiu em marketing. Um estudo da revista “Demetra” sobre as capas da “Boa Forma” de 2015 revela que a mídia feminina costuma associar magreza à beleza, saúde e sucesso. O reflexo disso ainda permeia o cotidiano e os dados: segundo o relatório de inclusão de tamanhos, feito pela Vogue Business em 2025, apenas 2% das modelos usavam tamanhos médios nos 198 desfiles e apresentações analisados.
As imagens reforçam o ideal de um corpo jovem e perfeito, sugerindo que alcançá-lo é só questão de esforço. “Quando repetimos o que é o corpo bonito e vendemos fórmulas mágicas, reproduzimos um ideal inalcançável. Isso produz crises ansiosas, depressivas e transtornos alimentares”, afirma a psicóloga Liane Dahás.
Contribuição: Brenda Vieira, estudante de jornalismo
A jornada solitária das brasileiras que abortam
 
Por Marina Reis e Renata Souza
 
Arte por Gabriella Sales e Mariana Catacci
O início da vida humana é estudado pela ciência há séculos. Sem respostas concretas, quando se fala em aborto, a discussão é centrada no que sente — ou não — o embrião. Mas o conceito atual de embrião é recente, de meados do século 19. Há algumas décadas, saber se o bebê era saudável, por exemplo, dependia do nascimento. Hoje, até os traços físicos são vistos no pré-natal.
O acompanhamento da gestação mudou por causa do avanço da tecnologia
Mesmo com a tecnologia, o nascimento ainda é um marco do início da experiência que é estar vivo. E, para nascer, é preciso alguém ter condições e vontade de gestar. A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), de 2016, revela que uma entre cinco mulheres aos 40 anos já fez pelo menos um aborto. Enquanto algo em torno de 10% das gestações evoluem para o aborto espontâneo, segundo o Ministério da Saúde.
O número expressivo de abortos está ligado a uma série de fatores. A decisão de tornar-se mãe, que para muitas mulheres é um sonho, um novo rumo que adiciona sentido à vida, depende de ter condições propícias.
Cena do filme Juno (2007), em que a personagem descobre uma gravidez indesejada
Pela lei brasileira, o aborto pode acontecer em três casos: gravidez anencefálica; fruto de violência sexual ou que ofereça risco à vida da mulher. A criminalização não impede, porém, que abortos inseguros aconteçam todos os dias.
Escolher abortar no Brasil dói. Abortar sem escolha também dói. Mas o aborto espontâneo acontece mais do que ouvimos. Tantas vezes o sangramento ocorre antes que a mulher saiba que estava grávida. As junções cromossômicas, essenciais para a nossa existência, dão errado. Ou o embrião não se fixa corretamente. É a natureza.
Pelo menos 10% das gestações no Brasil evoluem para o abortamento espontâneo
Apesar de o aborto ser mais comum na fase inicial da gravidez, para a mulher que escolhe gerar e se prepara para receber um filho, um vínculo é quebrado. Segundo o DataSUS (2019), a cada 100 internações por aborto, 99 são espontâneos e indeterminados e uma é caso de aborto legal.
O Ministério da Saúde aponta 89 instituições autorizadas a realizar o procedimento, mas um estudo da ONG pelos direitos humanos Artigo 19, que defende o acesso à informação em todo o mundo, diz que apenas 42 de fato o fazem.
Os medicamentos são usados como método abortivo legal e clandestinamente.
Com as restrições para o aborto legal, abre-se um mercado clandestino. Apesar de sua eficácia ter sido descoberta por brasileiras, um dos medicamentos abortivos mais populares do mundo é ilegal no país. Por aqui, os procedimentos clandestinos prevalecem, embora sejam arriscados, causando a morte de uma mulher a cada dois dias.
A decisão pelo aborto pode estar ligada a diversos fatores: pouca idade, falta de estrutura financeira e familiar, falta de apoio do parceiro e outros. Para muitas mulheres, ter um filho pode significar um desvio do caminho que elas se vêem traçando. Para todas que abortam, entretanto, há uma avalanche de sentimentos. Alívio, culpa, vergonha, medo, tristeza, vontade de recomeçar. Cada processo é diferente, mas algo que permeia todos esses caminhos é a sensação de julgamento sob o olhar público.
Histórias que inspiraram essa reportagem
Karina Cirqueira é estudante de fonoaudiologia e não tem filhos
Raquel Kaveski é bancária e mãe de uma filha
Maria Silva* é dona de casa e mãe de dois filhos
*Nome fictício
Colaboraram
Bruna Falleiros, psicóloga e ex-colaboradora do projeto “Milhas pela Vida das Mulheres”
Helena Paro, obstetra e líder da equipe de aborto legal para mulheres vítimas de violência sexual do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia
Mariana Ribeiro, embriologista clínica especializada em fertilização in vitro
Maiara Benedito, psicóloga atuante no apoio de gestantes e puérperas com ênfase às questões raciais
Roseli Nomura, advogada, obstetra e professora da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP
Esse bolo tá me olhando…
 
Por Caroline Aragaki e Samantha Prado
 
Procrastinar pode ser um problema de saúde
 
Por João Paulo Almeida
 
“Amanhã eu faço. Depois eu vejo.” Esse é o lema da procrastinação, o adiamento das tarefas, geralmente relacionadas às obrigações e apontada como uma falha de produtividade ou compromisso.
Adiar é normal, uma vez que nem tudo precisa ser feito na hora, mas, a partir de determinado grau, a procrastinação, associada a fatores como depressão, ansiedade e baixa autoestima pode ser considerada uma patologia, explica a psicóloga clínica Heloísa Beazim.
O indivíduo não consegue realizar suas tarefas, não cumpre os prazos no trabalho, empurra para depois as atividades domésticas, com danos em todas as áreas de sua vida. “Ocorre quando a pessoa deixa de realizar atividades importantes e passa a ter prejuízo.”
Sob pressão, a situação agrava-se, porque ele pode questionar sua própria capacidade: “será que vou dar conta? Eu não consigo, eu não sirvo para nada”.
O tratamento é por meio de terapia ou até mesmo com uso de medicamentos, já que pode envolver também deficiências da própria fisiologia.
A psicóloga Graça Maria de Oliveira relata o caso em que um paciente trabalhava como freelancer, mas perdeu os clientes por não cumprir os prazos e entregar trabalhos sem qualidade. Com a crise econômica, ele buscava alternativas, mas foi muito prejudicado pela procrastinação. Graça explica a necessidade de haver harmonia entre as funções cognitivas, como atenção, sensibilidade, memória e que, quando ocorrem falhas entre elas, é que os problemas se intensificam, dependendo do perfil do indivíduo.
Ela também esclarece o porquê, teoricamente, um adulto é mais responsável do que um adolescente: “Na área frontal do cérebro, estão as funções mais avançadas, que amadurecem ao longo da vida. Uma criança e um adolescente ainda não atingiram a maturidade de um adulto.”
Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade também podem ser sintomas da procrastinação, afirma o terapeuta comportamental Túlio Andrade, da equipe D20, que trabalha com diversos grupos terapêuticos. “O momento que devemos nos atentar é quando ela passa a “tomar conta” da nossa vida, quando passamos a evitar tarefas que não poderiam ser evitadas”, finaliza.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.