Por mais absurda que a cena pareça, é impossível atender ao comando da frase anterior. Isso acontece porque associações mentais são inevitáveis. Uma simples menção ao elefante pianista torna impossível se esquivar da imagem.
A cena absurda de um mamífero tão grande com habilidades musicais é, de certo modo, engraçada. Mas e se esse elefante esmagasse a cabeça de alguém, espalhando miolos para todos os lados? E se você estivesse empunhando um revólver e matasse o bicho?
De onde vêm esses pensamentos que, como elefantes na sala, incomodam tanta gente?
Na psicanálise, os processos mentais que desembocam nos pensamentos intrusivos e em problemas associados, como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), são os mesmos que originam pensamentos de qualquer natureza, como sonhos, associações e preferências pessoais.
Gabriel Heitzmann, psicanalista e mestre pela PUC-SP, explica que todos são uma consequência de pulsões reprimidas pela vida cultural do indivíduo. Em outras palavras, pensamentos podem ser respostas aos desejos que, muitas vezes, varremos para baixo do tapete.
O consenso sobre o momento de procurar ajuda é quando há “prejuízos para sua própria vida”.
A história do Leo* mostra bem. Aos 11 anos, seus pais passaram uma temporada de três meses viajando. Ele ficou aos cuidados da avó paterna, e o desejo (reprimido) de reencontrar os pais era grande.
Assim, surgiram seus “rituais”. Antes de dormir, precisava fechar as portas pelas quais passava enquanto cantava uma música que inventou. Se errasse, recomeçava.
Ele descreve como “alívio instantâneo” a sensação de realizar a compulsão. “Aos poucos, fui tentando racionalizar, não completar o ritual e aguentar até que nada de mau me ocorresse”, conta ele, que recebeu o diagnóstico de TOC.
“Sempre que eu tô lá em cima, penso que vou escalar o vidro e pular”. É o que passa pela cabeça de Maria* toda vez que está no Farol Santander, edifício muito alto no centro da capital paulista. Apesar de também ser invadida por pensamentos intrusivos, ela não se vê rendida ao pensar demais.
Nunca pulou do prédio, e jamais o faria. Pouco importa se há um desejo reprimido que explica sua divagação. Como ela não vê prejuízos pessoais, não sente necessidade de entender a origem dos pensamentos. São apenas espasmos que qualquer mente às vezes tem.
No fim, todos temos elefantes que, uma hora ou outra, invadem a sala das nossas mentes. Só não podemos deixá-los tocar piano para nossos medos dançarem e tomarem conta da casa.
*Os nomes foram alterados para preservar as identidades
Como vim parar aqui?
 
Por Clara Hanek
 
Arte: Samuel Amaral
Quando João* conseguiu o primeiro emprego, começou a se sentir uma farsa. “Parecia que tinham me dado uma vaga de consolação, que eu não tinha potencial para assumir.” O sentimento piorou após ingressar na USP. “Comparo a minha realidade com a das pessoas à minha volta e vejo o quão deslocado estou nas conversas e trocas de experiências.” João se identifica com a síndrome do impostor, fenômeno em que o indivíduo possui inseguranças derivadas de uma autopercepção deturpada.
Embora qualificadas, pessoas que lidam com a síndrome sentem um medo constante de serem desmascaradas como impostoras e não pertencentes aos ambientes que ocupam. Adauto Faria, psiquiatra e psicoterapeuta, a descreve como um padrão psicológico de distorção, em que os dados da realidade não são suficientes para o indivíduo acreditar em sua capacidade. Apesar de não ser um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pode desencadear outros sintomas, muitas vezes associados a quadros de depressão, ansiedade e até manifestações psicossomáticas.
A designação “síndrome do impostor” foi elaborada em 1978 por Clance e Imes, psicólogas norte-americanas. Recentemente, o termo se popularizou entre jovens que o utilizam para descrever a insuficiência que sentem. “O uso das redes contribui bastante para a incidência da síndrome, considerando a lógica da performance e a constante comparação”, é o que diz Giovanna Romano, psicóloga. “A cultura de performar na internet por validação, por likes, pode trazer a sensação de fraude também para quem posta.”
Navegar pelo Linkedin e checar as conquistas dos usuários agrava as inseguranças de Flávia*. Ela atua em um escritório de advocacia penal, área historicamente masculina, e acredita que ser mulher e jovem é um agravante. Quando elogiam seu trabalho, acha que é por dó. “Já senti que eu era a pessoa mais burra daquele lugar, que só estava copiando o que os outros faziam e não merecia estar ali.”
Em análise aprofundada, a psicóloga associa a síndrome à fase da primeira infância. Considerando a psicologia do desenvolvimento humano, a forma como um adulto se enxerga depende de como ele foi tratado enquanto criança e adolescente. “A autocrítica, seja ela real ou fantasiosa como a síndrome do impostor, em que a pessoa interpreta suas conquistas de modo completamente enviesado, tem muito a ver com a criação”, diz.
A síndrome do impostor leva à autossabotagem, à hesitação em aceitar novas oportunidades, ao perfeccionismo e ao ceticismo no sucesso — afinal, deve ter sido sorte, não mérito. Os pensamentos autodepreciativos que a caracterizam aparecem como invasores, mesmo para os indivíduos objetivamente bem-sucedidos, que pensam: “Como vim parar aqui?”
*Os nomes das fontes foram alterados para preservar suas identidades
Colaborador: Luis*, estudante de jornalismo.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.