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Elefantes na sala da mente

 

Por Joao Pedro Abdo

 

Arte: Alex Teruel

Não pense em um elefante tocando piano!

Por mais absurda que a cena pareça, é impossível atender ao comando da frase anterior. Isso acontece porque associações mentais são inevitáveis. Uma simples menção ao elefante pianista torna impossível se esquivar da imagem.

A cena absurda de um mamífero tão grande com habilidades musicais é, de certo modo, engraçada. Mas e se esse elefante esmagasse a cabeça de alguém, espalhando miolos para todos os lados? E se você estivesse empunhando um revólver e matasse o bicho?

De onde vêm esses pensamentos que, como elefantes na sala, incomodam tanta gente?

Na psicanálise, os processos mentais que desembocam nos pensamentos intrusivos e em problemas associados, como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), são os mesmos que originam pensamentos de qualquer natureza, como sonhos, associações e preferências pessoais.

Gabriel Heitzmann, psicanalista e mestre pela PUC-SP, explica que todos são uma consequência de pulsões reprimidas pela vida cultural do indivíduo. Em outras palavras, pensamentos podem ser respostas aos desejos que, muitas vezes, varremos para baixo do tapete.

O consenso sobre o momento de procurar ajuda é quando há “prejuízos para sua própria vida”.

A história do Leo* mostra bem. Aos 11 anos, seus pais passaram uma temporada de três meses viajando. Ele ficou aos cuidados da avó paterna, e o desejo (reprimido) de reencontrar os pais era grande.

Assim, surgiram seus “rituais”. Antes de dormir, precisava fechar as portas pelas quais passava enquanto cantava uma música que inventou. Se errasse, recomeçava.

Ele descreve como “alívio instantâneo” a sensação de realizar a compulsão. “Aos poucos, fui tentando racionalizar, não completar o ritual e aguentar até que nada de mau me ocorresse”, conta ele, que recebeu o diagnóstico de TOC.

“Sempre que eu tô lá em cima, penso que vou escalar o vidro e pular”. É o que passa pela cabeça de Maria* toda vez que está no Farol Santander, edifício muito alto no centro da capital paulista. Apesar de também ser invadida por pensamentos intrusivos, ela não se vê rendida ao pensar demais.

Nunca pulou do prédio, e jamais o faria. Pouco importa se há um desejo reprimido que explica sua divagação. Como ela não vê prejuízos pessoais, não sente necessidade de entender a origem dos pensamentos. São apenas espasmos que qualquer mente às vezes tem.

No fim, todos temos elefantes que, uma hora ou outra, invadem a sala das nossas mentes. Só não podemos deixá-los tocar piano para nossos medos dançarem e tomarem conta da casa.

*Os nomes foram alterados para preservar as identidades

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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