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Fala minha language!

 

Por Rafael Dourador

 

Arte: Alex Teruel

Da Faria Lima para toda a Grande São Paulo, os anglicismos entraram em nosso cotidiano e formaram a chamada cultura “faria limer”. Para quem não conhece, aqui vai um briefing deste lifestyle: start no mundo corporativo, use muitos termos técnicos em inglês até que você consiga atender um customer com um project muito impactante! Sounds good?

Essa trend ultrapassou o mundo corporativo e atingiu diferentes camadas da população. No Brasil, já não pedimos mais comida em domicílio… Só delivery. Usar termos em inglês, no entanto, não nos torna o novo Tio Sam. Apesar dos “faria limers”, o país sul-americano possui baixa proficiência no idioma e figura o 75° lugar em uma pesquisa da Education First.

Lis Rangel é estudante de Nutrição e ingressou há um ano no marketing de uma multinacional de alimentos. Sabendo apenas o basic, ela conta que sempre utiliza termos técnicos em inglês. Com ajuda de ferramentas como a Inteligência Artificial (IA), Lis se adaptou para fazer calls corporativas e confessa que já deixou de “tomar café da manhã para tomar um brunch com as amigas”.

Esses estrangeirismos surgem da interação entre culturas e se intensificam com a globalização. Clarice Corbari, doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que o resultado é a importação de vocábulos e modelos de negócios do exterior: “é um processo natural nas línguas”.

Referências empresariais não faltam. Oito das empresas mais valiosas do mundo estão nos United States. O aprendizado também cresce no exterior. O Relatório de Idiomas Duolingo 2025 revelou que o idioma é o mais estudado em 79% dos países, registrando um aumento de 14% em relação a 2024.

Com a alta da procura, Corbari alerta para “uma fetichização da língua estrangeira, onde usar uma palavra, supostamente, vai dar mais valor ao produto”. Na prática, o consultor Maycon Saranti observa: “o problema é usar o anglicismo sem saber o significado. Infelizmente, isso é bem comum no mercado”. Got it?

Colaboradores:

Beatriz Leite, sócia da Zabaione Gastronomia

Isabel Ribeiro, analista financeira

Cultura estrangeira por todo lado

 

Por Daniel Terra e Marcelo Canquerino

 

Basta ligar o rádio ou abrir o catálogo da Netflix para você enxergar a grande quantidade de produções culturais dos mais diversos países. Músicas como Sour Candy, parceria entre Lady Gaga, cantora americana e BLACKPINK, grupo sul-coreano, e séries como Dark, da Alemanha, e Elite, da Espanha, são alguns exemplos. 

Pensar na forma como a cultura estrangeira adentra no Brasil é falar sobre como são estabelecidas relações entre as nações. Essa influência ocorre de modo sutil, a partir de inserções culturais externas capazes de formar projeções de outros países no imaginário popular. Uma moeda de dominação definida como soft power.

 

Infográfico - Marcelo e Daniel (Novo)

 

A era dos streamings e os mecanismos de influência do soft power

 

“A principal arma do soft power atualmente é a tecnologia computacional, ou seja, o mundo integrado a partir da internet e das redes sociais”, explica Wagner Pereira, professor de história da UFRJ e do programa de pós graduação em psicologia social da USP. Acesso a filmes, séries e músicas através dos streamings é cada vez mais comum no mundo e, a partir destas plataformas, a disseminação cultural tornou-se uma das maiores da história. 

A mídia também é outro fator importante. Por meio dela a população conhece as produções culturais de massa. Antônio Xavier, doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP, explica que os meios de comunicação são veículos não só de disseminação de cultura, mas também de esquecimento. “A partir do momento que tomamos a mídia como ponto de partida para conhecer culturas, tudo que não está veiculado/midiatizado passa por um apagamento.” 

No nosso dia a dia, esse poder fica até mais claro em algumas situações, como a influência de uma crítica na hora de escolher o que ver no cinema ou em casa. Neste caso, o poder de sedução do soft power também está atrelado a psicologia. Quando muitas pessoas estão consumindo um produto, a música ou série do momento, aquele que “está de fora”, vai buscar consumi-lo. Isso é instintivo do ser humano, segundo Wagner. 

 

 

O resultado da influência 

 

Atualmente, é possível falar de certo hibridismo cultural, uma junção entre elementos estrangeiros e brasileiros. A forma como consumimos, por exemplo, foi sendo assimilada a partir de um modelo dos Estados Unidos. Ao longo do tempo comer fast foods e comprar na tão esperada black friday se tornou muito comum na vida do brasileiro.

A influência cultural dos Estados Unidos se mantém como uma das mais fortes, não só no Brasil como no mundo, em função de ocorrências histórias, segundo Virgílio Arraes, professor no Departamento de História da UnB. Desde a 2ª Guerra o soft power está presente em sua política revelando seu aspecto não apenas ideológico, mas econômico. A política de boa vizinhança, implantada à partir de 1933, levou nossa imagem para a América do Norte, e trouxe a imagem dos estadunidenses para o Brasil através de ferramentas como filmes. 

No clássico média metragem de Walt Disney “Você já foi à Bahia?”, Pato Donald vem conhecer a Bahia e conhece Zé Carioca, que representa o Brasil, e o Galo Panchito, representando o México. 

https://www.youtube.com/watch?v=NLuHm9x2S14 

A construção dessa visão dos EUA perdura até os dias atuais. A influência que o Brasil sofre vai desde o consumo dos diversos produtos culturais, até a imagem “perfeita” que os brasileiros têm com os estrangeiros, refletindo no que assistimos, ouvimos e comemos.

 

Colaboraram: 

Ernesto Magalhães: Gerente de comunicação no Consulado Britânico do RJ.

Luana Caroline Kunast Polon: Mestre e Licenciada em Geografia (UNIOESTE); Professora Formadora na UNIPAMPA. 

Paulo Henrique Heitor Polon: Mestre em Sociedade, Cultura e Fronteiras (UNIOESTE) e Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais (UEL); Professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). 

João Reino: Vice-Cônsul do Brasil nos EUA.

Thaís Matos: Jornalista Cultural do Portal G1

Eduardo Filho: Jornalista Cultural da Revista Veja 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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