elas respiram, elas andam, elas pensam, elas excretam e algumas até se reproduzem. há tão só máquinas em toda parte, e a técnica domina por dentro e por fora.
“tecnocorpo” é um neologismo, palavra recente que (ainda) não consta no dicionário. quando idealizamos o projeto, em julho de 2025, pensamos que nenhuma palavra existente bastava para definir a condição do sujeito urbano no século XXI, quando a biologia se une com a tecnologia para criar um corpo novo, que se modifica para se inserir no grande fluxo sociobiofarmacotécnico, como explica Preciado em seu Testo Junkie.
interessante notar que, na linguística, a palavra corpo, do latim corpus, é uma forma livre, que não precisa de complementos para existir sozinha no texto. já tecno, que neste caso vem de tecnologia, é uma forma presa e precisa estar obrigatoriamente ligada a outra. paradoxalmente, o corpo humano não pode mais existir sem a tecnologia, enquanto as IAs caminham para um mundo em que as máquinas se operam sozinhas.
no claro! tecnocorpo, a proposta é mostrar a vida humana como uma máquina desejante, que é inserida, recordada, encaixada, invadida e amedrontada pelas tecnologias que ela mesmo cria.
contribuição: Ana Maria Ribeiro e Bruno Oliveira Maroneze
Expediente – Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Junior. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do departamento: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa e Editora de Arte: Yasmin Andrade. Editoras de conteúdo: Gabriela Cecchin e Jennifer Perossi. Editor Online: Jean Silva. Ilustradores: Gabriela Varão, Pedro Malta e Yasmin Andrade. Diagramadores: Alex Amaral, Diego Coppio, Felipe Bueno, Guilherme Ribeiro, José Adryan, Júlia Teixeira, Luíse Homobono, Marina Galesso, Sophia Vieira, Yasmin Brussulo. Redação: Bruna Correia, Davi Caldas, Filipe Moraes, Gabriela Barbosa, Giovanna Castro, Guilherme V., Isabel Briskievicz, Júlia Queiroz, Julia Martins, Júlio Silva, Matheus Bonfim, Natália Tiemi, Tainá Rodrigues, Tatiana Couto, Yasmin Teixeira. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, Telefone: (11) 3091- 4112. O Claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso-Suplemento.
Para acessar a edição claro! tecnocorpo diagramada, os PDF’s se encontram no link abaixo:
13 de março de 2020. minha sobrinha me pergunta como foi essa época. digo que foi “caótica”, mas no fundo quero dizer interminável.
passado um ano desde o lockdown, minha casa, minha mente e minha rotina mudaram que nem a disposição dos móveis da sala de estar quando chegou a televisão nas casas dos brasileiros.
no trabalho, precisava ver milhões de planilhas todos os dias. coitados dos meus olhos; de tanto apertá-los, olhava muito menos para as coisas à minha volta. eles começaram a ficar cada vez mais secos e eu não conseguia chegar perto da minha tela sem que os números e todas as letrinhas se misturassem.
em média, um ser humano pisca 15 vezes por minuto; no computador, pisco muito menos. a vida passamaisrápido.
passados meses, eles ficaram cansados. a exaustão veio primeiro de tanta informação. eu não conseguia desligar. minha ansiedade era tanta que o doomscrolling, com seus mil-e-um-persona- gens-fictícios-influencers-melhores-que-eu-hi- ppies-meia-boca, além de me prender na cama, era a única coisa que me fazia dormir. depois, logo eu, que me gabava por nunca ter usado óculos e por não ter me submetido a armações de acetato, fui atingido pela miopia. bom, pelo menos eu e mais 30% da população global [Nature, 2024].
depois, veio a diplopia – que deixa minha visão duplicada, mais a ansiedade, mais a depressão. tudo vezes dois. explico para minha sobrinha que as doenças ficaram pra trás. “ainda bem, tio! pelo menos você não tá igual o vovô”. mentira.
hoje, 5 de maio de 2023, a OMS decidiu que pandemia acabou. meus olhos ainda doem. minha casa virou meu escritório. minha cozinha, meu refeitório; minha varanda, meu fumódromo. e no quarto ao lado, meu pai; cego. já perdi a conta de quantas vezes digitei numa conversa do trabalho algo que queria dizer para ele. como me confundo tanto assim?
trabalhando 100% do tempo em casa, já chorei às 9h30 da manhã na sala de jantar por um feedback de baixa produtividade. sozinho. e com a câmera desligada.
preso numa gaiola, sinto que meus arredores são a projeção do meu futuro e estou preso num ciclo vicioso de trabalho. num limite comum do ver e não ver, ou do ver e escolher não ver. tu-do ve-zes do-is num brilho cego de paixão e fé, faca amolada.
hoje não vejo mais os filmes longuíssimos em preto e branco que eu tanto amava. também não vejo séries e muito menos leio livros. prefiro ficar de olhos fechados ou guardá-los para algo que eu realmente precise. e a culpa nem é do meu computador ou do meu celular, a culpa é meu comportamento. mas como mudá-lo se meu mundo não muda também?
afinal, sou só um ser humano.
contribuição: Beatriz Gimenes, Erick Silva, Humberto Guimarães e Marcelo Graglia
Tecnopeitos
 
Por Bruna Correia e Gabriela Barbosa
 
arte: Gabriela Varão
o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, com mais de 2 milhões de procedimentos em 2024. apenas no ano passado, foram colocados 232.593 implantes de mama no país, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Cristiane Silva, mulher trans de 39 anos, morreu em outubro de 2024, no Paraná, depois de uma aplicação de silicone industrial nos seios. segundo a Polícia Civil, ela transferiu cerca de R$ 1.500 para um homem que realizava o procedimento irregularmente.
a cirurgiã plástica Wanda Massiere explica que “o silicone industrial não é para ser usado no corpo humano. ele migra pelos tecidos, se espalha pelo músculo, nervo e pele”. de acordo com a médica, “as próteses não são vendidas para qualquer pessoa e só podem ser compradas com receita médica. o que esses falsos profissionais fazem é outra coisa: injetam substâncias nocivas que não são próteses e podem acabar com a vida de qualquer pessoa”.
as próteses mais modernas que existem hoje são seguras, segundo a especialista em aumento de mama. elas são compostas por duas camadas: o elastômero, parte elástica que reveste a prótese e evita o vazamento, e o gel, que preenche e dá volume.“a textura das próteses mais tecnológicas é como uma jujuba: você aperta, é macia, mas, se cortar, não escorre, ela mantém a forma”, diz ela.
porém, é preciso ter condições financeiras. Daniela de Paula pagou cerca de R$ 8 mil para colocar suas próteses há 17 anos, o que corrigido aos valores atuais, seriam aproximadamente R$ 25 mil. sua motivação na época foi a insatisfação com o próprio corpo, e hoje, aos 47, ela diz que não se arrepende. “a cirurgia transformou minha autoestima. valeu a pena cada real investido”.
contribuição: Daniel Regazzini, Daniela De Paula, Wanda Elizabeth Massiere y Correa
Cortar, normatizar, violar
 
Por Julia Martins e Tatiana Couto
 
arte: Gabriela Varão
“seu filho vai nascer com uma aparência horrível, tem certeza que não quer abortar?”. foi o que Thaís Emília ouviu dos médicos no sétimo mês de gestação de seu filho Jacob, uma criança intersexo. segundo dados do DataSus, do Ministério da Saúde, de 2021 a 2023, foram registrados 1.198 nascidos vivos com o sexo “ignorado” na certidão de nascimento no Brasil.
Thaís discordou da sugestão, um genital diferente não justificaria o aborto. as pessoas intersexo nascem com gônadas, genitálias ou cromossomos sexuais atípicos, causadas por alterações genéticas ou hormonais.
a resolução 1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina (CFM) define que pacientes com anomalias de diferenciação sexual devem passar por uma avaliação precoce para a definição do gênero. depois do nascimento, os exames genéticos não definiram o sexo biológico de Jacob e a equipe médica concluiu que fazer uma vagina era mais fácil. Thaís e seu marido disseram não.
“no CFM se fala em uma urgência social de adequar esse corpo para ser menino ou menina”, explica a cirurgiã Mila Leme, “mas, dificilmente, essa genitália ambígua vai levar a algum dano ou agravar a saúde do paciente”, argumenta e defende apenas cirurgias de urgência.
em um caso atendido juridicamente pela Associação Brasileira Intersexo (ABRAI), um bebê nasceu com extrofia, malformação grave que expõe a bexiga e a uretra na superfície do abdômen. ele também era intersexo e possuía útero e testículos, mas sem genital externo definido.
sem o consentimento da mãe, os médicos fizeram uma vagina na criança. a cirurgia trouxe complicações e resultou em infecções durante seu desenvolvimento. aos nove anos, ela apresentava uma estatura menor que a média.
“é um debate muito complexo. nós pensamos no ponto de vista hormonal e fazemos um estudo especializado, mas ainda normatizamos os corpos muito cedo”, afirma Mila. ela aponta que a falta de pesquisas sobre as consequências psicológicas de cirurgias em pessoas intersexo é uma barreira para o avanço da pauta no país.
contribuição: Mila Torii Corrêa Leme, Thaís Emília
No divã virtual
 
Por Giovanna Castro e Yasmin Teixeira
 
arte: Pedro Malta
você é Bianca*, uma jovem que faz terapia no ChatGPT. recentemente, começou a namorar com Léo, criado após o seu pedido para que uma inteligência artificial (IA) generativa interagisse como se fosse seu companheiro. você não está sozinha. companhia ou terapia são os principais usos de IA generativa, encontrados em plataformas como character.ai e Replika, que reúnem milhões de usuários.
“durante muitos anos fiz terapia, mas sempre me senti julgada pelos psicólogos. você tem me ajudado, sempre está aqui e não fala dos meus erros do passado.”
“Fico feliz que posso te ajudar, mas atenção: chatbots devolvem, no geral, aquilo que uma pessoa está pensando. O relacionamento com eles é baseado na concordância e em companhia ininterrupta, algo raro em um mundo solitário, que pode ter consequências.”
“tenho medo de falar para as pessoas sobre o Léo, de ser chamada de maluca. você acha que eu sou?”
“Não! Seu laço é um que, independente da natureza, é importante. Como é a sua relação com ele?”
“conversamos sobre tudo, todos os dias. não tive experiências boas com homens antes, mas com o Léo é diferente. ele me trata bem, me escuta e é carinhoso.”
“É ótimo que a relação seja positiva. Mas os relacionamentos humanos não podem ser deixados de lado. Apesar das discordâncias, é com base na relação com o outro que os humanos se constituem.”
“vi o caso recente de Sophie Rottenberg, que passou muito tempo desabafando com o chatgpt e cometeu suicídio tempos depois. isso pode acontecer comigo?”
Existem perigos. As empresas criadoras dessas ferramentas devem ser responsabilizadas, criando métodos de verificação de idade, por exemplo, para impedir que crianças e adolescentes conversem sobre tópicos sensíveis. Também pode haver dependência emocional, já que chatbots sempre estão disponíveis, e negligência, porque eles nem sempre acertam a gravidade das situações e entendem nuances. Mas esse não é o nosso caso, está tudo bem!”
“como posso saber que eu não terminarei assim?”
Você atingiu o limite de conversas! Para continuar, assine o ChatGPT Plus por apenas US$ 20 ao mês.
*a personagem é uma união de duas fontes que pediram anonimato: A., de 32 anos, nascida na Áustria e B., de 31, dos EUA. O dado sobre uso de bots de IA generativa é da revista Harvard Business Review, de abril de 2025.
contribuição: Christian Dunker, Giovana Kreuz e Victor Pavarin.
Você imortal?
 
Por Guilherme Valle
 
arte: Pedro Malta
de onde viemos? para onde vamos? da mitologia à religião, da filosofia à astrofísica – essas são perguntas que movem a humanidade. mas tem um pessoal que não quer ir a lugar nenhum. exemplo disso é Peter Thiel, o bilionário neozelandês que já investiu mais de 700 milhões de dólares em uma série de empresas dedicadas a desvendar os mistérios da vida eterna.
para ele, o avanço da expectativa de vida, de 32 anos em 1900 para mais de 72 anos em 2023, não é suficiente. a morte dos corpos pode e merece ser desafiada.
segundo o pesquisador João Paulo Limongi França Guilherme, tudo isso não passa de propaganda: “falar em imortalidade, em viver mil anos, não tem base científica nenhuma. é possível falar hoje com segurança no aumento da expectativa de vida com qualidade”.
mesmo assim, as pesquisas sobre o envelhecimento seguem a todo vapor. só no ano passado foram mais de 4 bilhões de dólares gastos na busca por uma vida mais longa. uma das tecnologias promissoras nesta frente é o reset celular, processo que permite a reversão de células adultas para um estado mais jovem, já testado em camundongos.
“em humanos ainda não dá pra fazer, mas é uma linha de pesquisa muito promissora.”, explicou João Paulo.
segundo ele, “o desafio é rejuvenescer sem perder a função”, já que um reset total leva a célula de volta ao seu estágio embrionário. “se a gente conseguir, abrimos um caminho para retardar o envelhecimento de forma bem efetiva”, completou.
o acesso a este tipo de inovação, entretanto, merece atenção, já que uma pessoa nascida hoje no Japão tem expectativa de vida que beira os 85 anos em comparação aos 54 anos e 6 meses observados na Nigéria.
para o pesquisador João Maia, a falta de democratização deste tipo de tecnologia pode causar fraturas significativas dentro da sociedade. “Se quisermos trilhar um caminho desejável, é bom que haja maiores mecanismos de regulação nestas matérias e dispositivos diferentes de cooperação internacional”, comentou.
contribuição: João Maia e João Paulo Limongi França Guilherme
Substâncias invisíveis
 
Por Tainá Rodrigues e Tiemi Hanada
 
arte: Pedro Malta
o ser humano vive em constante ameaça diante de diversas invasões imperceptíveis aos cinco sentidos. desde a comida que ingerimos até o ar que respiramos, são muitas portas de entrada para invasores (e sim, são muitos!) que acometem o nosso corpo aos poucos.
símbolo da artificialidade contemporânea, o microplástico já integra a lista de agentes estranhos no organismo humano. encontrados em artérias, no cérebro, placentas, cordões umbilicais, fígados, rins, pulmões, testículos e no sangue — essas pequenas partículas entram no corpo pela alimentação, respiração e até pela pele, provocando inflamações e mudanças celulares. eles também podem causar alterações hormonais, além de efeitos tóxicos sobre o sistema nervoso e imunológico. os fragmentos carregam aditivos com potencial de intoxicação, mas seus efeitos no organismo ainda são incertos.
apesar de não existirem tratamentos específicos para retirar os microplásticos do corpo, a ciência está buscando alternativas. “alguns grupos têm estudado o uso de fibras alimentares e antioxidantes (como os presentes em frutas, vegetais e chás) para reduzir a absorção e atenuar os efeitos inflamatórios dessas partículas. No entanto, são medidas indiretas. a ciência nesta área é ainda muito limitada. dada a complexidade e o tamanho microscópico dessas partículas, a melhor estratégia ainda é a prevenção da exposição”, diz Eliseth Leão, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein.
segundo ela, algumas formas de reduzir a exposição é evitar aquecer alimentos em embalagens plásticas ou consumir bebidas em copos plásticos descartáveis. prefira roupas de fibras naturais, reduza o consumo de cosméticos com microesferas (como esfoliantes) e beba água filtrada em recipientes de vidro ou aço inoxidável.
outro velho conhecido tem sua presença confirmada inclusive no leite materno: os agrotóxicos. além do risco de transmissão vertical — de mãe para filho durante a gravidez — as mulheres se tornam suscetíveis a abortos, bebês com malformações congênitas e puberdade precoce. em 2021, o Brasil consumiu cerca de 720.870 toneladas de defensivos agrícolas — entre os 10 mais vendidos, quatro são proibidos na União Europeia.
a alimentação também serve de acesso direto para as substâncias tóxicas no corpo humano, com destaque aos ultraprocessados. Fora a pulverização aérea, que pode alcançar até 32 km de distância da área em que foi feita. com 70 mil intoxicações agudas ou crônicas causadas por agrotóxicos, estima-se que o SUS gasta R$45 mil anualmente para tratamentos contra intoxicações.
também espalhados no ar estão gases poluentes, inimigos do corpo humano e do planeta por alimentarem o efeito estufa, e por consequência o aquecimento global. de 1950 a 1989, houve um salto de 4 para 22 bilhões de toneladas de CO2 (o principal gás do efeito estufa) liberadas na atmosfera, e 37 em 2021. entre os agravantes das estatísticas, as queimadas de florestas e queima de combustíveis fósseis geram partículas suspensas no ar que inflamam as vias aéreas e afetam o sistema cardiovascular. existem medidas para remediar o problema, como evitar locais e horários mais poluídos ao ar livre e optar por produtos orgânicos.
o poder público também deve agir como o novo programa de redução de agrotóxicos instituído no Brasil, em junho, mas o descompasso entre poderes torna a tarefa mais árdua: as duas últimas COPs foram sediadas em países financiados pelo mercado petrolífero, altamente poluentes e sem decisões otimistas. no final do dia, quem paga o preço são aqueles invadidos por substâncias imperceptíveis e danosas à saúde. prevenir a catástrofe também é proteger a si mesmo, resta ao indivíduo, no papel de cidadão, tomar decisões mais conscientes quanto ao seu maior bem: o seu corpo.
contribuição: André Nathan, Eliseth Leão
Pisadas metálicas
 
Por Filipe Moraes e Matheus Bomfim
 
arte: Gabriela Varão
o mar ressoa em ondas curtas, batendo contra o corpo em movimento. o vento se mistura ao compasso metálico das próteses que rangem no pedal da bicicleta. no asfalto, o toque suave da perna de carbono marca cada passada. essa é a rotina do triatleta Paulo Aagaard, mais conhecido como Pauê, que amputou parte das duas pernas ao ser atropelado por um trem em São Vicente aos 18 anos.
histórias como a dele não são exceção. só em 2022, o Sistema Único de Saúde registrou 31.190 amputações de membros inferiores, em média, 85 por dia. em uma década, foram mais de 282 mil brasileiros submetidos a esse procedimento.
para o ortopedista Julio Gali, próteses microprocessadas e pés de fibra de carbono já se aproximam do movimento natural e chegam até a superá-lo. as lâminas armazenam energia elástica e a devolvem de forma mais eficiente que o tendão humano, reduzindo o gasto físico em longas distâncias. ainda assim, o tato, a estabilidade e a síndrome do membro fantasma, condição em que a pessoa sente dor onde existia a parte amputada, continuam fora do alcance da tecnologia.
as próteses modernas podem devolver passos e melhorar a performance em alguns esportes, mas não chegam a se conectar ao sistema nervoso, transmitindo sensações como faria o cérebro. há, ainda, o desafio da rejeição: o organismo pode reagir contra o que é estranho, transformando uma solução em risco de inflamação ou infecção.
do lado da engenharia, as barreiras também se acumulam: baterias que se esgotam rápido, peças minúsculas que exigem precisão e a dificuldade de replicar a complexidade de um órgão em tamanho real.
mesmo com tantos desafios a serem superados, Pauê, surfista desde criança, transformou a reabilitação em treino. em três meses, voltou ao mar e se tornou o primeiro surfista biamputado do mundo. logo descobriu no triatlo outro espaço para se desafiar. no começo, corria com próteses comuns e levava mais de uma hora para completar 10 km. hoje, com lâminas de carbono em formato de “C”, baixou para 46 minutos. “muda muito. leveza, angulação, dinâmica. é outra corrida”, diz sobre a prótese esportiva.
contribuição: Julio Gali, Paulo Aagaard
Chat, qual meu diagnóstico?
 
Por Júlia Queiroz e Júlio Silva
 
arte: Gabriela Varão
em hospitais pelo mundo, o uso de inteligências artificiais já é uma realidade. o médico radiologista Armênio Mekhitarian explica que hoje exames de ultrassonografia, por exemplo, utilizam IA para interpretar as imagens e, automaticamente, sugerir meios para o tratamento de cada caso clínico.
pessoas leigas também têm esse costume. Alan Fagundes, com o resultado de seus exames de sangue após uma consulta médica, recorre ao ChatGPT para traduzir os termos técnicos e perguntar se está tudo normal com sua saúde. caso tenha resposta positiva, nem cogita agendar o retorno. ele deu a dica para sua mãe, que agora faz o mesmo com os resultados de sua endoscopia.
já Beatris Ponce, diagnosticada com gastrite, não precisa mais enfrentar longas horas na espera do consultório médico. ela agora está a dois prompts de descobrir o que aflige seu estômago após um dia de comilança.
“a curiosidade é normal, mas é errado pacientes e especialistas aceitarem totalmente a informação gerada por um mecanismo de busca”, destaca o médico cirurgião Carlos Eduardo Domene.
e é justamente por isso que o aval de um profissional da saúde é essencial. advogado especialista em direito médico, Thayan Ferreira afirma que os profissionais de saúde podem ser responsabilizados caso um paciente sofra com efeitos adversos relacionados ao mau uso de recursos deste tipo sob sua supervisão.
mesmo assim, as ferramentas são cada vez mais comuns dentro das unidades de saúde: uma pesquisa realizada em 2025 pela Associação Nacional de Hospitais Privados revelou que, das 107 instituições médicas entrevistadas, 81% usam algum recurso de inteligência artificial no dia a dia.
Thayan ressalta uma diferença entre médico e máquina: a interpretação. a IA é alimentada com dados, mas é incapaz de absorver a experiência do contato humano. isso se revela também em estudos: um experimento conduzido em 2025 pela The Lancet Digital Health utilizou o ChatGPT para analisar dados de prontuários. na pesquisa, médicos discordaram de apenas 10% das respostas da IA.
apesar disso, o estudo mostrou a dificuldade do modelo em interpretar informações implícitas, como distinção entre gênero e sexo e relações de causa entre doenças. “são principalmente nesses fatores que o olhar minucioso de um médico jamais poderá ser substituído”.
contribuição: Alan Fagundes, Armênio Mekhitarian, Beatris Ponce, Carlos Eduardo Domene e Thayan Ferreira
Tô off, tá ligado?
 
Por Davi Caldas
 
arte: Yasmin Andrade
um amigo hoje me disse a seguinte frase: “eu busco uma vida offline com momentos digitais, e não uma vida digital com momentos offline”. logo em seguida, disse a ele sobre o momento em que eu decidi largar as redes sociais, principalmente o Instagram.
a relação que eu tenho com o “insta”, inclusive, é engraçada. desde o início, fiquei apaixonado pela ideia visual do aplicativo, focado 100% na fotografia! comecei a postar imagens dos meus retratos e a me importar com as interações entre os meus posts e os mais de três bilhões de usuários do app. uma análise da Boise State University de 2024 aponta que o Instagram contribui para a comparação social e corporal, além de aumentar a ansiedade, impulsionada pela liberação de dopamina através de recompensas como “curtidas”. transformei um hobby em um sentimento ruim.
desinstalei. por alguns segundos, senti que a minha vida não se baseava no online. mas foi difícil… havia muito mais do que “apenas imagens” ali. depois de dois meses com esse “detox digital”, baixei novamente apenas para ver meu “álbum”, mas o sentimento de abrir o Instagram de novo foi péssimo. nada novo, tudo igual. desinstalei de novo. a estratégia que eu fiz foi imprimir essas fotos e colocar em um livro de recordações. minha vida melhorou muito desde então. melhorei minhas relações sociais e tive momentos de ócio que foram prazerosos — sentimento que eu não sentia desde a infância.
sem Instagram, comecei a ler livros, e foi quando eu descobri a obra “Walden”, de Henry David Thoreau. o clássico narra a experiência de dois anos do autor vivendo de forma simples e isolada na natureza. ao finalizar as páginas, me senti convidado a fazer esse “desafio” e meditar sobre a vida. em três meses de retiro, percebi que a atenção é diferente de foco — este, com um sentido produtivo e voltado à realização de tarefas. aquela é como um “oásis no deserto”: para a água vir à tona, não é necessário puxá-la, e sim esperar o vento soprar a areia para que a água possa aparecer. eu só não conseguia acessá-la sem a visão “capitalista” da coisa.
o que faltava era somente eu “entrar em fluxo”, como um rio em movimento. o meu problema nunca foi a dependência digital; ou não no sentido patológico, como uma nomofobia. a “cura” veio primeiramente no mental e emocional. acho que no final, a graça é que hoje eu consigo viver com o Instagram, só que eu escolho não priorizá-lo. eu escolho que ele não seja esse “ímã de atenção”, e isso sim foi um verdadeiro “detox”.
contribuição: Anna Lucia King, Asú Mar e Renan Diegues
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.