Dentro da tela, as horas parecem minutos. Tudo acontece rápido, fácil, imediato. Fora dela, o tempo parece devagar. Assistir a um filme inteiro? Difícil. Ler um livro? Um desafio. Cozinhar? Demora demais. É como se o mundo real tivesse perdido a velocidade certa e as pessoas, a paciência.
Lucas Sales passa horas nas redes sociais. “Nunca mais uma fila foi entediante para mim”, diz o designer. Para ele, “o tempo de espera fora de uma tela é um inferno”.
Esse comportamento tem nome: nomofobia, o medo de ficar desconectado. Lucas explica que o TikTok funciona como uma aposta, em que o usuário desliza esperando que o próximo vídeo seja mais interessante. E quase sempre é.
A psiquiatra Julia Khoury compara os vídeos curtos às drogas, ao dizer que “é como o crack — quanto mais rápido e intenso o pico de prazer, maior a chance de vício”.
Em sua tese de doutorado, a psiquiatra comparou cérebros de dependentes digitais com os de usuários de drogas como a cocaína e encontrou alterações semelhantes.
Segundo a psiquiatra, o consumo de conteúdos curtos e rápidos impede que o cérebro desenvolva a capacidade de manter o foco, habilidade de concentração que é aprendida. “Se desde cedo a pessoa só é exposta a estímulos rápidos, ela não vai conseguir se concentrar por muito tempo em uma única tarefa”.
Pesquisa das universidades de Portsmouth e Surrey, no Reino Unido, analisou como hábitos noturnos influenciam o vício em redes sociais. Foram entrevistados 407 participantes, de 18 a 25 anos, que responderam a testes sobre padrão de sono e uso de tecnologia. Os resultados mostraram que quem dorme mais tarde tende a se viciar mais, especialmente quando há solidão e ansiedade.
Conforme a Comscore, empresa que analisa audiência de mídias, o Brasil é o país latino-americano que mais passa tempo online. Em 2024, os brasileiros passaram 70 bilhões de horas nas redes sociais.
Com mais tempo no mundo digital, a psicóloga Leihge Roselle afirma que “o nosso tempo de conservação da atenção está muito fragilizado”. Ela explica que a dificuldade em escutar áudios ou assistir a vídeos na velocidade normal pode ser um indicativo de uma disfunção na atenção concentrada.
As plataformas também são responsáveis pelas horas de tela. Fernanda*, desenvolvedora no TikTok, diz que curtidas e compartilhamentos ajudam o algoritmo a prever preferências. “A retenção de usuários deveria ser consequência de uma boa experiência, não o objetivo final”, defende Letícia Maestri, designer de interfaces. Ela explica que para muitas empresas, quanto maior o tempo de uso, maior é o lucro e mais sofisticadas são as estratégias para segurar a atenção.
*nome fictício
Dormir não é para os fracos
 
Por Marina Galesso
 
Arte: Yasmin Andrade
São quatro da manhã quando Giulia Pezarim vê o céu clarear. Joga no computador, assiste a vídeos, trabalha, checa as redes e… o sol nasceu. Para a geração hiperconectada, descansar bem virou um desafio diário e, às vezes, uma culpa: dormir é “perder tempo” que poderia estar dedicado a outras atividades.
Giulia e a estudante Anna Silva já viveram o descompasso entre sono e rotina. Ambas funcionam bem quando podem seguir horários próprios, mas sentem no corpo ao se adaptar a horários convencionais. Anna conta que houve períodos em que dormia quatro horas por noite ao conciliar trabalho, faculdade e academia. O resultado? Mau humor, cansaço e falta de energia.
Para o psicólogo Léo Paulos Guarnieri, os casos ilustram o desencontro entre ritmos biológicos e exigências sociais. “O sono é biológico, individual e social. Cada pessoa tem uma necessidade e um cronotipo que é como o corpo regula naturalmente o sono e a vigília”, diz.
Ele explica os cronotipos: há pessoas matutinas, que rendem mais pela manhã; vespertinas, que funcionam melhor à noite; e intermediárias, que se adaptam com mais facilidade. “Rotinas matinais pesam mais para quem tem dificuldade nas manhãs. Mas as jornadas flexíveis também vêm com cobrança por produtividade, o que faz muitos extrapolarem limites e trocarem sono por trabalho”, conta.
A pesquisadora e professora do Instituto do Sono Júlia Vallim menciona um estudo do Laboratório de Cronobiologia Humana (Labcrono) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que indicou que, durante a pandemia, com horários mais flexíveis, o tempo médio de sono entre jovens aumentou em duas horas, e a sonolência diurna caiu.
Para a especialista, os horários escolares e de trabalho impõe restrições de sono, causando um jetlag social: “É como viver em um fuso horário diferente do corpo”. Assim como o jetlag de viagens, o descompasso impacta além do cansaço. “Uma noite mal dormida afeta memória, humor, concentração e causa fadiga. Ficar 17 horas acordado equivale a ter 0,05% de álcool no sangue”, explica.
Júlia aponta o uso constante de telas em lazer e trabalho como um dos vilões do sono. A luz azul emitida por celulares e computadores inibe a produção de melatonina, hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir. Além disso, o conteúdo estimulante das redes sociais, notícias e mensagens mantém o cérebro em alerta, impedindo o relaxamento. A combinação “confunde o relógio biológico” e reforça tendências noturnas de jovens e adultos, prejudicando a qualidade do descanso.
Léo pontua que a lógica produtivista rivaliza com o sono. No entanto, ele é biologicamente essencial. “Nele consolidamos memórias, eliminamos toxinas cerebrais e sintetizamos hormônios. Para funcionarmos, o sono precisa funcionar. É preciso equilibrar rotina com necessidades biológicas e entender o descanso como cuidado, não perda”, diz.
Para mitigar prejuízos, os especialistas destacam a importância da higiene do sono: manter horários regulares para dormir e acordar, evitar telas e luz forte antes de deitar, não consumir cafeína à noite e buscar exposição à luz natural pela manhã. Para o psicólogo, o sono não é uma pausa na vida, é parte essencial dela.
Júlia conclui: “Respeitar o próprio ritmo é essencial à saúde. Dormir não é perda de tempo, é investimento. Uma geração privada de sono é mais ansiosa, menos criativa e mais doente. Achar o contrário é o maior autoengano.”
Corpomáquinacorpo
 
Por Gabriela Cecchin e Jenny Perossi
 
arte: Gabriela Varão
elas estão em todo o lugar.
elas respiram, elas andam, elas pensam, elas excretam e algumas até se reproduzem. há tão só máquinas em toda parte, e a técnica domina por dentro e por fora.
“tecnocorpo” é um neologismo, palavra recente que (ainda) não consta no dicionário. quando idealizamos o projeto, em julho de 2025, pensamos que nenhuma palavra existente bastava para definir a condição do sujeito urbano no século XXI, quando a biologia se une com a tecnologia para criar um corpo novo, que se modifica para se inserir no grande fluxo sociobiofarmacotécnico, como explica Preciado em seu Testo Junkie.
interessante notar que, na linguística, a palavra corpo, do latim corpus, é uma forma livre, que não precisa de complementos para existir sozinha no texto. já tecno, que neste caso vem de tecnologia, é uma forma presa e precisa estar obrigatoriamente ligada a outra. paradoxalmente, o corpo humano não pode mais existir sem a tecnologia, enquanto as IAs caminham para um mundo em que as máquinas se operam sozinhas.
no claro! tecnocorpo, a proposta é mostrar a vida humana como uma máquina desejante, que é inserida, recordada, encaixada, invadida e amedrontada pelas tecnologias que ela mesmo cria.
contribuição: Ana Maria Ribeiro e Bruno Oliveira Maroneze
Expediente – Reitor: Carlos Gilberto Carlotti Junior. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do departamento: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa e Editora de Arte: Yasmin Andrade. Editoras de conteúdo: Gabriela Cecchin e Jennifer Perossi. Editor Online: Jean Silva. Ilustradores: Gabriela Varão, Pedro Malta e Yasmin Andrade. Diagramadores: Alex Amaral, Diego Coppio, Felipe Bueno, Guilherme Ribeiro, José Adryan, Júlia Teixeira, Luíse Homobono, Marina Galesso, Sophia Vieira, Yasmin Brussulo. Redação: Bruna Correia, Davi Caldas, Filipe Moraes, Gabriela Barbosa, Giovanna Castro, Guilherme V., Isabel Briskievicz, Júlia Queiroz, Julia Martins, Júlio Silva, Matheus Bonfim, Natália Tiemi, Tainá Rodrigues, Tatiana Couto, Yasmin Teixeira. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, Telefone: (11) 3091- 4112. O Claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso-Suplemento.
Para acessar a edição claro! tecnocorpo diagramada, os PDF’s se encontram no link abaixo:
Por Diego Macedo e Gabrielle Torquato e Tainah Ramos
 
Conceito: Bianca Muniz/Desenho: Bianca Muniz
Jovem, norte-americano, e uma mensagem importante a passar para população de seu país: “Vote, porque eu não posso”. As imagens de Joaquin Oliver foram amplamente divulgadas através de um comercial nos meses que antecederam as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020 e, a princípio, poderiam se passar como mais uma campanha de incentivo ao voto, mas elas carregam uma diferença importante das demais: Joaquin está morto.
O jovem de 16 anos foi uma das vítimas do massacre da escola de Parkland, na Flórida, no ano de 2018, e por isso sua mensagem desincentiva o voto em candidatos armamentistas. O vídeo causou impacto nas redes sociais e só foi possível ser realizado graças a uma técnica conhecida como deepfake, tecnologia que usa Inteligência Artificial (IA) e um algoritmo de “aprendizado profundo” que permite que computadores substituam o rosto de alguém pela imagem de outra pessoa através da alteração de cores, proporções, texturas e movimentos faciais.
O alto grau de realismo que alguns deepfakes conseguem alcançar foi o que iniciou um alerta para a possibilidade de este ser mais um passo na evolução das fake news. Isso porque diferente de outros formatos, os vídeos têm um apelo visual muito maior e conseguem enganar com facilidade. O famoso “ver para crer”.
Segundo explica Ana Erthal, doutora em Comunicação Social pela UERJ e especialista na área de comunicação multissensorial, a visão é um dos cinco sentidos que mais damos importância. Ela adquiriu predominância durante a Modernidade com muita influência da arte, uma vez que foi nesta época que os pintores passaram a usar a perspectiva para fazer retratos mais fiéis de pessoas e ambientes.
Até hoje, cerca de 250 anos depois, esta influência está tão presente no cotidiano que é difícil para o ser humano descrever uma experiência que não seja visual. Nessa conta, a tecnologia agrega alguns pontos ao criar ainda mais apelos visuais através das redes sociais. “A imagem atua hoje na sociedade como código predominante na comunicação”, afirma Ana.
Por outro lado, apesar de tão difundidas no mundo digital, o uso das imagens também esbarra em restrições legais. A questão se acirrou ainda mais com as leis de proteção de dados, explica Christian Perrone, coordenador da área de Direito e Tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).
De acordo com Perrone, ao veicular uma fotografia ou um vídeo na internet, o usuário transmite dados e o direito de imagem se sobrepõe também às informações pessoais – sobre quem pode usar, como pode usar, em qual circunstância e onde ficarão armazenados.
O grande temor sobre as deepfakes é a perda de noção da realidade a ponto de que não se consiga mais discernir o que é real e o que é IA, já que nem mesmo os olhos provam a verdade.
Colaboraram:
Ana Erthal, doutora em Comunicação Social na linha de Tecnologia de Comunicação e Cultura pela UERJ
Dima Shveits, co-fundador do REFACE APP, aplicativo gratuito de face swapping
Ivan Paganotti, fundador do projeto Vaza Falsiane
Christian Perrone, coordenador da área de Direito e Tecnologia do Instituto de tecnologia e sociedade
Já checou a data de validade do seu aparelho?
 
Por Sofia Aguiar
 
Arte: Mariana Arrudas; fotos: Sofia Aguiar
O micro-ondas de Guilherme Ribeiro, dentista, completou 31 anos em 2020 e segue firme e forte esquentando a sua comida todos os dias. O aparelho já faz parte da história: viu o Brasil ganhar duas Copas do Mundo, sete presidentes no país e vive a pandemia da Covid-19. Sem perspectiva de uma nova compra, o eletrodoméstico contrasta com o novo lançamento da Apple que, em 13 anos, apresentou ao mundo o 12º Iphone.
A comparação entre os dois produtos é inevitável. Habituados com a ideia de que “comprar um novo é mais barato que consertar”, dizer que aparelhos antigos duram mais já soa realidade. A sensação de menor durabilidade fez surgir o conceito de “obsolescência programada”, em que o fabricante, de forma proposital, estabelece um prazo máximo de vida do produto. Apesar do imaginário coletivo, o Direito do Consumidor assegura a assistência técnica de qualquer produto, mesmo fora do prazo de garantia, como afirma o especialista em Direito Digital Fernando Peres.
Mas a teoria ainda está no campo de achar uma evidência real e é difícil comprová-la por conta da imensa variedade de produtos. O que ajudaria na comparação temporal, como pontua Clauber Leite, coordenador da área de energia e sustentabilidade do Idec¹, é ter a vida útil do equipamento declarada pelos fabricantes. “Porém, eles se restringem a falar só sobre a garantia, que é contra defeito”, conta.
Muitas vezes de forma inconsciente, as tendências de mercado estimulam a troca constante. Tem-se, assim, uma obsolescência psicológica. A dentista Rosana Beltrati, por exemplo, trocou o ar-condicionado de 17 anos para um modelo split “pois esteticamente ficava melhor”. Depois de “ceder à modernidade”, ela já está no terceiro aparelho em 16 anos. Segundo seu técnico de instalação, “os atuais ar-condicionados duram até cinco anos”.
Para Benito Muros, presidente da Feniss², a dúvida sobre a menor durabilidade dos atuais eletroeletrônicos só irá cessar quando “cada produto tiver um rótulo de vida útil descrevendo o tempo de uso, os possíveis danos que terá após o período de garantia e o custo dos reparos”. Mas Gabriel Paúba, que trabalha em uma loja de aparelhos usados, diz já constatar esta suposição pois, todo dia, “clientes ligam procurando uma geladeira usada”.
Até isso ser comprovado, o micro-ondas de Guilherme resiste e o ar-condicionado de Rosana terá que ser trocado a cada cinco anos.
¹ Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
² Fundação Energia e Inovação Sustentável Sem Obsolescência Programada
Já pensou em uma internet que faça relaxar?
 
Por Mayara Paixão
 
Pesquisas já têm mostrado: a internet e a tecnologia podem influenciar em fatores como a ansiedade humana. No mundo hiperconectado que vivemos, muitas pessoas encontram uma das soluções para esse problema no próprio celular. Pode parecer contraditório, mas te explicamos como os chamados ‘aplicativos para relaxar’ têm sido usados como válvula de escape para os gatilhos desencadeados no mundo virtual.
Clique aqui e confira a reportagem online do claro relaxe!
Isso é muito Black Mirror
 
Por clarousp
 
Imagine a seguinte cena: uma mulher acorda sozinha na própria casa, e quando sai em busca de sua família, é perseguida por um grupo mascarado, que tenta assassiná-la a todo custo. Enquanto isso, pessoas da vizinhança vão aparecendo, mas com seus celulares em riste, apenas filmam e divulgam o sofrimento da moça, sem qualquer esforço para ajudá-la. Parece absurdo, mas a ficção da série Black Mirror pode não ser tão distante da nossa realidade. A cada ano, o número de vendas de smartphones aumenta. Só no primeiro semestre de 2017, cresceu 10% em relação ao mesmo período do ano anterior, o que explica os quase 200 milhões de aparelhos eletrônicos no Brasil, de acordo com os dados da Fundação Getúlio Vargas. Em dezembro, segundo a mesma pesquisa, será um para cada brasileiro.
Nesse cenário cibernético, os aplicativos se tornam cada vez mais presentes na rotina das pessoas. O Waze substituiu os velhos Guias e os novos aparelhos de GPS, o Happn e o Tinder otimizaram o que os tradicionais portais de relacionamento se propunham a fazer, o WhatsApp e o Messenger encurtaram distâncias e os jogos ganharam espaço próprio, como a febre Pokémon GO. Existem aplicativos até para ficar menos tempo . na frente do celular, como o Moment.
Mas além das suas mil e uma utilidades, cumprem, talvez, com nossa maior exigência: apresentar todas essas variedades de forma prática e, acima de tudo, instantânea.
O crescimento diário do número de aplicativos alimenta essa necessidade, mas também se vale da relativa facilidade em construí-los. “Eu acredito que o primeiro passo é ter uma ideia bem definida e isso significa fazer uma pesquisa para saber se já não existe algum parecido em uso. Depois disso, partimos para o público que pretendemos atingir”, diz o desenvolvedor Rodrigo Duarte.
Ainda assim, é importante que o aplicativo seja didático e satisfaça à necessidade de quem o instala, além de seguir as exigências das plataformas em que será hospedado. Segundo Rodrigo, o que torna esses pequenos programas cada vez mais atrativos é a pluralidade de formas em criá-los: “para mim, não existe um manual. Tudo vai depender da ideia a ser explorada, das finalidades dele, e também se será lançado apenas para as plataformas do Google e Apple, ou para ambas.”
Não importa o tipo de celular, o fato é que podemos fazer tudo o que queremos nos nossos aplicativos, desde nos comunicar até nos lembrar da hora de beber água. Ainda assim, talvez seja o momento de travar a tela, colocá-lo no bolso, e realmente pegar o copo para se reidratar.
Favor não se desconectar
 
Por Leticia Fuentes
 
Jovens de 18 a 34 anos (mais conhecidos como geração millennial) passam, em média, 6 horas e 19 minutos por dia conectados às redes sociais. É o que revelou um relatório anual divulgado no início do ano pela empresa americana Nielsen.
Como uma entre os 1,8 bilhão de millennials espalhados pelo globo, decidi desafiar os dados e lançar meu próprio “experimento”, usando a mim mesma como cobaia: sobreviver a 24 horas sem internet. Recrutei também dois voluntários, Catarina e Daniel, para me ajudar na empreitada (quase) científica.
Catarina foi a primeira a desistir. Depois de algumas horas de abstinência, me enviou uma mensagem — que só vi no dia seguinte — dizendo que fracassara. Tecnologia um, millennials zero.
Daniel chegou até o final, mas com um pouquinho de dificuldade. Ao acordar, seu primeiro impulso foi alcançar o smartphone ao lado da cama, mas conseguiu resistir e mantê-lo desligado. Concluiu que chegar ao almoço de família sem o Google Maps é uma tarefa quase impossível — mas conseguiu sobreviver para retornar à segurança da internet em seguida.
Quanto a mim, estava me sentindo bem durante as primeiras horas. Talvez conseguisse ficar assim por um bom tempo, pensei. Mas fui interrompida por uma ligação.
“Por que você não respondeu o post que te marquei no Facebook?”, pergunta uma colega.
“Porque não vi”, respondo. O aborrecimento na voz dela dá lugar à preocupação. Sinto como se estivesse sendo interrogada em uma consulta médica.
Ao completar o período longe das redes, pego o celular e vejo que outros também mandaram mensagens, preocupados. Afinal, se você passa mais de três horas sem responder, alguma tragédia deve ter acontecido.
Avaliando minha experiência, tenho três considerações a fazer. A primeira é que a abstinência virtual parece ser uma patologia grave — quer dizer, médicos mais velhos ainda não reconhecem seus sintomas, mas devem estar desatualizados. Todo millennial sabe das sérias consequências desse mal. Melhor não arriscar. Inclusive, recomendarei que Daniel faça alguns exames, por precaução.
A segunda é que millennials tratam a desconexão como uma traição — por isso, fiscalizam a vida alheia o tempo todo. Afinal, se as pessoas começarem a se desconectar, quem dará a elas a atenção que precisam? Proibir que você se desligue pode parecer uma decisão arbitrária, mas é para o seu próprio bem — e da sociedade também.
E a terceira é que, se alguém, mesmo assim, quisesse burlar o sistema (por sua conta e risco, claro), a melhor maneira seria forjar sua morte. Bastariam dois dias sem usar a internet — nenhum millennial acreditaria que é possível sobreviver a isso.
Realidade Virtual: a ficção ficou pra trás
 
Por Guilherme Caetano
 
Imagine um filme de ficção na qual uma personagem, através do contato com alguma tecnologia avançada, consegue interagir com um universo distinto do seu próprio. Pode ser que lhe venha à cabeça histórias como Avatar ou Matrix, mas essa cena está mais perto da realidade do que você imagina.
Uma das tecnologias que atualmente são capazes de dar materialidade a essa fantasia toda é a chamada Realidade Virtual (RV). Ela se baseia na interação entre ser humano e máquina com o objetivo de recriar a máxima sensação de realidade para o usuário.
Talvez o maior ícone dessa tecnologia seja o uso dos óculos de RV, que permitem visualizar imagens em 360º em proporção real. Basta o portador do equipamento mover a cabeça e enxergar o cenário virtual como se estivesse dentro de outro lugar, como em uma cena de Avatar em que o protagonista Jake Sully migra para Pandora enquanto seu corpo fica em outro planeta. Mas há outras técnicas por trás desse conceito.
A história do estudo dessa tecnologia no Brasil passa inevitavelmente pela USP, mais precisamente na Caverna Digital, uma infraestrutura criada em 2001 para desenvolver esse tipo de sistema. Marcelo Zuffo, professor da Escola Politécnica e coordenador do CITI (Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas), onde se localiza a Caverna Digital, explica que é preciso compreender antes o conceito de imersão para se entender a RV.
“Para se ter a Realidade Virtual é preciso estar em um espaço simulado, artificial”, diz o pesquisador. “Essa relação do ser humano com o espaçoimersivo é mais antigo do que a linguagem. As primeiras inscrições rupestres, por exemplo, eram feitas de forma imersiva: queimavam-se fogueiras em rituais xamânicos.”
A aplicação da RV na indústria é variada, como simuladores de treino para as indústrias aeronáutica e automotiva, ou com o mapeamento remoto de cavernas para a arqueologia, mas sua percepção no cotidiano das pessoas ainda se limita ao entretenimento. Video games e cinema 3D, com o qual a RV ganhou propulsão a partir de 2009, são exemplos disso. Quem sabe, dentro de um futuro não tão distante, antigos filmes de ficção científica passem a ser vistos como “histórias baseadas em fatos reais”… Quem sabe!
Impressão 3D: fenômeno em camadas
 
Por clarousp
 
A impressão 3D é daquelas tecnologias que já eram comuns nas páginas da ficção científica muito antes de existirem de verdade, como a teleconferência ou a realidade virtual. Em séries dos anos 60 como Star Trek e Os Jetsons, já era possível ver um sonho que estamos começando a realizar: dar forma física à informação digital. Ainda não conseguimos imprimir um bife com fritas, mas a tecnologia disponível ao consumidor está cada vez mais sofisticada e acessível.
Mas vamos voltar um pouco. O que é, exatamente, a impressão 3D? Em uma definição sucinta, podemos dizer que é o processo de criação de um objeto físico a partir de um modelo digital tridimensional. Existem formas diversas de realizar esse processo, mas a maioria delas se resume à aplicação em finíssimas camadas de um ou mais materiais, sucessivamente, até o objeto desejado estar completo.
As possibilidades de uso para essa tecnologia são praticamente ilimitadas. Na indústria, por exemplo, torna-se possível a produção rápida e fácil de protótipos, acelerando o desenvolvimento de produtos. No setor médico, a personalização de próteses passou a ser muito mais viável por meio da impressão 3D, que já é usada em implantes auditivos e dentários. Mesmo hoje, já existe uma parcela da população que imprime designs de objetos de uso doméstico, baixados da internet, em suas próprias casas.
Para mostrar passo-a-passo como esse processo funciona, visitamos o escritório da 3dfactory, em São Paulo, uma empresa que usa impressoras de baixo custo para imprimir desde bonecos articulados das mais variadas franquias até peças automotivas.
COMO A COISA FUNCIONA
DESIGN
O processo de imprimir um objeto começa bem antes de sequer ligar a máquina. Para o resultado final ficar bom, é preciso fazer um design que considere as especificações e limitações da tecnologia. Depois, por meio de um software de modelagem 3D, o projeto é transmitido à impressora. Para fazer um boneco colorido e flexível a partir das peças rígidas e monocromáticas que saem de suas máquinas, a 3dfactory reúne as partes por meio de encaixes, cola, e até mesmo imãs. O produto final acaba sendo algo bem mais sofisticado do que seria possível com uma única impressão. E ainda: quanto maior e mais complexo o objeto, mais demorada e custosa fica a impressão, e mais chance de algo dar errado. Por isso, dividi-la em várias partes pode ser prudente.
MATERIAIS
Existem diversos tipos de materiais e eles podem vir nas mais variadas cores, mas a maioria das impressoras só é capaz de usar uma por vez. Na 3dfactory, são usados os polímeros chamados ABS e PLA. O primeiro se destaca por ser um material rígido e leve, apresentando um bom equilíbrio entre resistência e flexibilidade. Já o PLA é biodegradável e mais eficiente que o ABS em determinadas moldagens, pois tende a deformar menos depois da impressão. Para serem usados nas máquinas, ambos se encontram na forma de bobinas de filamento, que será derretido dentro da máquina e posteriormente resfriado, para que endureça. Em certas aplicações, a 3dfactory usa também um polímero flexível, de borracha. Todos são fabricados no Brasil, evitando burocracia e custos adicionais.
IMPRESSÃO
Há muitas categorias de impressora 3D, com finalidades, processos e custos variados. A mais comum e barata delas, conhecida como impressão por extrusão, derrete o material e aplica-o em camadas, de forma que ele solidifique antes da aplicação da próxima. O processo é lento, podendo demorar várias horas para objetos maiores e, dependendo da máquina utilizada, as restrições de tamanho também variam. As impressoras da 3dfactory, fabricadas pela empresa brasileira 3DMachine, possuem um volume máximo de impressão que varia entre 8 e 27 litros, e custam uma média de R$5 mil cada. “Mas a maior parte da nossa produção pode ser feita com impressoras que começam por volta de R$1900”, explica Tiago Soncini, sócio-fundador da 3dfactory. O resultado final você pode ver nas fotos da página!
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.